A Freira tropeça nas próprias pernas ao tentar expandir o universo de Invocação do Mal

A religião em filmes de terror não é uma novidade. Isso fica ainda mais claro quando lembra-se que, muitas vezes, o horror é diretamente relacionado à questões sobrenaturais de teor demoníaco.

No segundo filme da franquia Invocação do Mal, esse recurso é explorado através da imagem de uma freira assustadora, um tormento direto para a protagonista Lorraine Warren. O sucesso da figura Valak foi tão grande que não foi nenhuma surpresa ela ter ganhado, apenas dois anos após sua primeira aparição, um filme para chamar de seu. Aqui, a vilã está no centro da história, como um jeito de entender sua importância dentro do universo criado por James Wan. Dentro de um convento na Romênia, uma freira comete suicídio e um padre vai junto com uma noviça, que ainda não fez seus votos, para investigar a situação. A partir daí, o mal fará com que eles tenham que descobrir uma forma de santificar o lugar. Nesse mundo, o profano está sempre presente.

A Freira é funcional segundo determinadas formas de trabalhar o gênero, mas não como um longa original. O diretor Corin Hardy (A Maldição da Floresta) brinca com a manipulação do olhar do público em diversas situações. A utilização da câmera rondando os personagens talvez seja a técnica mais explorada, já que consegue gerar uma confusão geográfica para o telespectador, em nunca saber onde o ser estará. O cineasta também realiza uma inteligente contraposição entre os planos abertos do convento junto com close-ups, criando um efeito claustrofóbico dentro de espaço, ainda que ele seja gigantesco. Algo que colabora nesse sentido é o design de produção dentro do castelo, onde as paredes geram sempre um limite de fuga por parte dos protagonistas e, também, os espaços abertos parecem menores do que propriamente são.

O trabalho de cor dentro do figurino, de Sharon Gilham, e da fotografia, feita por Maxime Alexandre, intensificam alguns dos debates sobre pureza, profano e religiosidade. Tudo isso acaba ficando centrado na Irmã Irene (Taissa Farmiga), que utiliza apenas um manto branco já que ainda não realizou seus votos. Isso sintentiza algo extremamente pacífico e puro, no meio de um ambiente totalmente sombrio. Uma cena de reza próxima ao ato final intensifica é um bom exemplo disso, já que é composta de forma a explicitar ainda mais a dualidade de claro e escuro. Nesse sentido, está também uma intrigante realização narrativa, que mostra a freira maligna sempre seguindo Irene, mas nunca aparecendo para os protagonistas masculinos. O problema é que esse detalhe sutil acaba sendo esquecido no clímax, dando a impressão de que a preocupação está mais focada em pregar susto na plateia do que criar um ambiente propriamente assustador.

Existe uma vala problemática no desenvolvimento dos “heróis” dessa história. Além de Irene, Padre Burke (Demian Bichir) e Frenchie (Jonas Bloquet) completam o trio que conduzem a trama. O roteiro tenta dar ao personagem de Bichir um background que, ainda que funcione, não acrescenta ao arco principal. O elemento do garoto que Burke não conseguiu salvar é utilizado em exaustão, sempre com o mesmo sentido – mostrar que a freira manipula a mente das pessoas. O revés é que gera um personagem que não tem o que fazer durante boa parte do tempo, parecendo apenas um boneco de fantoche dentro dos 96 minutos. Para o terceiro citado isso só piora, visto que nem um desenvolvimento ele possui. Até que existe uma tentativa – ínfima, por sinal – em criar uma personalidade, algo até que o ator tenta perpassar, mas isso é esquecido conforme o final se aproxima. O personagem é um alívio cômico bobo, mesmo que algumas de suas piadas gerem comédia. É como se, em todos esses momentos, existisse uma pausa dramática para criar uma situação engraçada, que não leva nada a lugar nenhum. Esses três personagens centrais, como um trio, não funcionam, parecendo peças de quebras-cabeças diferentes unidas. Até possuem bons momentos, mas nada que realmente crie uma conexão entre público e personagem, dada a falta de desenvolvimento.

Outro grande problema do filme é seu roteiro. A tentativa de gerar uma justificativa para sua existência falha ao criar esse elemento apenas com sustos extremamente telegrafados e óbvios. Apesar do psicológico dos protagonistas estar sendo afetado, o telespectador não sente isso em momento nenhum, parecendo apenas mais um terror convencional, que busca apenas o susto rápido. Do mesmo modo, o fato de querer ir para caminhos ainda mais sobrenaturais e explícitos visualmente do que a saga Invocação do Mal cria uma descontinuidade narrativa, visto que essa obra faz questão de lembrar em todo segundo que estamos nesse mesmo mundo – algo passado de maneira ainda pior com as cenas inicial e final. Por fim, o monstro que assola toda a trama não possui tanto sentido assim para existir. Se o objetivo era desenvolver a mística dessa antagonista, seria favorável se criasse um maior entendimento do porquê de suas ações e um passado melhor. Todavia, é preferível gerar algo básico, que praticamente anula o próprio sentido de existência da película.

A Freira possui alguns momentos inspirados no seu segundo ato, quando resolve se entregar para discussões sobre sagrado e profano, além do bom trabalho de ambientação feito pelo cineasta. O problema é que parece ser arrastado o tempo inteiro para o terror convencional.

Se a intenção era realmente de ser vazio, melhor teria sido arrastar mesmo os personagens e não o público.

2.5
  • A Freira
2.5

Resumo

Era melhor ter visto o filme do Pelé.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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