Alguém Especial: Uma ode à amizade e ao amadurecimento

As separações de gênero dentro do cinema estão presentes desde seu início. Felizmente, essa margem de diferença foi se tornando mais borrada com o passar dos tempos, permitindo que longas brincassem com as manias de cada seção, entregando um produto fora da caixinha. Dessa maneira, chega a ser injusto classificar Alguém Especial como uma comédia romântica, já que o filme fala exatamente sobre o término de um relacionamento, e não o início dele. Ou encaixá-lo dentro do pejorativo chick flick apenas por ter mulheres no âmago de sua história.

A história fala sobre Jenny (Gina Rodriguez), uma jornalista musical que acabou de conseguir o que seria o emprego dos sonhos na revista Rolling Stone, se ele não a forçasse a se mudar para o outro lado do país. O problema é que seu namorado Nate (Lakeith Stanfield) não está disposto a tentar manter o relacionamento à distância e termina com ela. Arrasada, Jenny decide aproveitar sua última semana em Nova York em um ritmo intenso de festas, música, bebidas e drogas na companhia de suas melhoras amigas, a despreocupada Erin (DeWanda Wise) e a aparentemente certinha Erin (Brittany Snow).

Embora a sinopse prometa muitos momentos de humor (uma promessa devidamente cumprida), a história de Jenny, Erin e Blair quer fazer mais do que mostrar essa noite doida de farra e momentos malucos vividos pelo trio, não que haveria algo de errado com isso. Afinal, filmes como Missão Madrinha de Casamento, Perfeita é a Mãe! Viagem das Garotas estão aí para mostrar como as mulheres podem ser tão bem-sucedidas neste tipo de humor quanto os homens. Mas a proposta da história de Jenny é outra.

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Dirigido por Jennifer Kaityn Robinson, criadora da incrível e subestimada Sweet/Vicious, a trama segue a fórmula da “grande noite” sem muitos rodeios: um último e derradeiro evento que as protagonistas não podem perder, a cena em que todas se arrumam juntas com um número musical animado, as furadas e problemas em que se metem para conseguir drogas ou entradas VIP etc. Nada fora da caixinha de comédias sobre mulheres “boca suja” fazendo loucuras noite adentro. A diferença crucial está no equilíbrio do roteiro. Enquanto essa fórmula e essas aventuras são muito bem-vindas por estabelecerem bem a dinâmica do relacionamento entre Jenny e suas amigas, ainda está entrelaçado o romance entre Jenny e Nate desde a noite em que se conheceram, oito anos antes.

Oito anos não é pouco tempo e a história do casal cria engajamento o suficiente para que o público sofra por antecipação de ter que ver uma dupla com tanta química se conhecer para saber que depois estarão separados. Mas como diz o ditado, o que vale mesmo não é o destino, e sim a jornada. Uma jornada encantadora, romântica e triste. Isso porque os momentos dramáticos também estão aqui, e muito bem entrelaçados com a história do presente. Superar um relacionamento nunca é fácil. Basta uma música e um lugar conhecido para acender uma faísca no lugar errado. Gina Rodriguez já mostrou em Jane the Virgin que possui talento de sobra, mas aqui ela tem a oportunidade para explorar mais ainda suas camadas mais sérias enquanto faz bom uso de seu excelente timing cômico.

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No entanto, DeWanda Wise e Brittany Snow não se deixam ofuscar. Erin e Blair poderiam facilmente servir apenas de escada para a protagonista, mas o carisma das atrizes e o desenvolvimento das personagens é suficiente para que isso não aconteça. Mais do que coadjuvantes de luxo, Erin e Blair (e seus respectivos problemas) são elementos tão vitais para a trama quanto Jenny e seu término. As histórias e dilemas de cada componente desse trio se completa, trazendo uma mensagem de união e amizade que consegue fazer rir e emocionar sem soar piegas. Além disso, vale destacar a sensibilidade da fotografia nos flashbacks e a variedade da trilha sonora, que traz artistas atuais com canções que combinam tonalmente com toda a vibe emocional do filme.

No fim das contas, a estreia na direção de Robinson poderia facilmente ter caído como mais uma das muitas investidas da Netflix no gênero da comédia romântica. Mas Alguém Especial traz um frescor necessário a dois gêneros subestimados, com uma interessante jornada de amadurecimento e amizade. Encontrar o amor da sua vida pode até ser legal, mas encontrar a si mesmo pode ser ainda melhor.

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