As Boas Maneiras: Entrevista com os diretores Marco Dutra e Juliana Rojas

A associação de elementos clássicos do gênero de terror às preocupações sociais vem ganhado bastante destaque no cinema contemporâneo. No Brasil, esse ciclo de filmes de gêneros com pautas sociais ainda é pouco explorado, tendo Marco Dutra e Julianas Rojas como seus principais representantes.

Eles trabalham juntos desde o curta O Lençol Branco, onde a preocupação de aliar a linguagem do termo às angústias da sociedade brasileira já era presente. Em seguida, eles trabalharam no curta-metragem Um Ramo e no longa Trabalhar Cansa que estreou em Cannes na secção Un Certain Regard. Desde então, Marco Dutra dirigiu Quando Eu Era Vivo e O Silêncio do Céu, enquanto Juliana dirigiu Sinfonia da Necrópole. Após seis anos, a parceria dos dois foi retomada no filme As Boas Maneiras, que em 2017 conseguiu prêmios no Festival de Locarno, L’Étrange Festival e no Festival do Rio, estreando no Brasil no dia 7 de Junho de 2018.

As Boas Maneiras é um sopro de criatividade para o cinema atual, se apropriando de elementos famosos do gênero do horror e símbolos da cultura brasileira para criar uma fábula musical bastante afetuosa e singular sobre São Paulo e seus habitantes. Assim, o contexto da nossa entrevista é a obra destes dois cineastas que se propõem a documentar, através da linguagem do horror e de outros gêneros, o Brasil de hoje.

 

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A imaginação de vocês é imensurável. Primeiramente, uma São Paulo supostamente perfeita é vista pela janela do apartamento de Ana, que combina elementos lúdicos e macabros. Depois de uma hora de filme, o espectador é levado para o verdadeiro lado de São Paulo, um ambiente mais real e pouco explorado no audiovisual, mas que jamais perde os ares de fábula, aliás só a reforça. Além disso, vocês passeiam com facilidade por diversos gêneros, de musical nas ruas vazias de São Paulo até cena de terror em um shopping vazio. É notável que vocês assistiram a bastantes filmes. Eu gostaria de saber como os filmes favoritos de vocês os influenciaram na criação do universo fabuloso tão diverso de As Boas Maneiras.

Sempre soubemos que o filme se passaria num bairro central e na periferia de São Paulo. Nosso desafio foi construir ambos os lados de forma fantástica e fabular. Conversando com o diretor de arte Fernando Zuccolotto, decidimos que o prédio de Ana seria como um castelo, e a periferia de Clara como a floresta ao redor. Isso nos ajudou a encontrar o tom e as cores das duas partes do filme. No caso de As Boas Maneiras, nos inspiramos em filmes da Disney como Dumbo e A Bela Adormecida, nos filmes de Jacques Tourneur, como Sangue de Pantera e A Morta-Viva, e em O Mensageiro do Diabo, de Charles Laughton.

Ainda sobre o universo fabuloso de As Boas Maneiras, o filme é repleto de detalhes inesquecíveis, como a gata Teobalda, os animais bizarros na parede do apartamento de Ana, a sequência da festa junina e a engraçadíssima guarda do Shopping. Ao mesmo tempo, esses detalhes criam um universo bem próprio do filme. Assim, é um filme que faz reverência a vários cânones, mas que possui uma brasilidade bastante única. Como foi o processo de criação desses detalhes que constroem um universo tão próprio do filme e, ao mesmo tempo, tão brasileiro? São observações que vocês vêm juntando há muito tempo e que vieram naturalmente durante a produção do filme ou foram elementos que começaram a ser procurados/pesquisados a partir do início da produção?

Muitos dos elementos que você menciona apareceram durante a escrita do roteiro – como a personagem de Dona Amélia e sua gata Teobalda (inspirada na gata de Juliana, que tem o mesmo nome). O mundo do sertanejo universitário apareceu quando decidimos que Ana seria uma mulher de família rica do campo, nascida e criada em Goiás. Isso sugeriu muita coisa sobre seu figurino, sobre a decoração de sua casa e sobre o tipo de música que ela escuta. A festa junina também se relaciona com o campo, ainda que de maneira caricata. Nós mesmos dançamos quadrilha e frequentamos quermesses numa cidade enorme e caótica como São Paulo. Como o mito do lobisomem no Brasil tem muito a ver com o imaginário do campo, decidimos trazer todos estes elementos para o universo urbano do filme.

A escolha de elenco é uma das coisas mais afinadas no filme: a química entre a Marjorie e a Zuaa é hipnotizante e as crianças pareceram extremamente confortáveis com os temas abordados. Como foi a experiência de gravação com um elenco tão diverso?

Devemos muito ao elenco deste filme. Marjorie e Isabél foram parceiras criativas a partir do momento em que entraram no projeto. A química entre as personagens veio do processo de ensaios e das contribuições que elas fizeram a cada uma das cenas que compartilhavam. Com as crianças não foi diferente: mesmo com pouca experiência, Miguel, Felipe e Nina entenderam o tom do filme e mergulharam fundo na experiência. Eles adoravam fazer as cenas de terror e de lobisomem, e gostavam menos de fazer cenas “normais” de diálogo ou de briga. Trabalhamos com o preparador de elenco Marcio Mehiel, que ensinou as crianças que não é preciso sofrer de verdade para atuar uma cena de sofrimento. Foi um processo prazeroso e importante.

 

A junção do cinema de vocês dois é bastante harmoniosa nesse filme, principalmente no quesito musical. Marjorie Estiano cantando a música de ninar é tão hipnótico quanto Sandy cantando a música principal de Quando Eu Era Vivo. Enquanto isso, as cenas musicais cantadas ao longo de São Paulo lembram bastante o Sinfonia da Necrópole, principalmente pela graça com que elas são cantadas e por potencializarem o drama. Eu gostaria de saber um pouco sobre o processo criativo dos momentos musicais, de como vocês chegaram em um consenso. Principalmente na escolha do elenco, já que boa parte participa de cenas musicais decisivas para a narrativa.

Não colocamos limitações aos atores durante a escolha do elenco, mas sabíamos que a voz ia ser importante ao menos nas cenas com a canção de ninar (“Fome”). Esta era a única canção presente no roteiro desde o início. As outras foram surgindo quando decidimos que o filme certamente poderia se beneficiar de momentos musicais, ainda que não sendo inteiramente um musical. A “Canção da Travessia” e a “Canção da Espera” aparecem em cenas com forte carga dramática, em que sentimos a necessidade de um tipo diferente de expressão. Nós gostamos muito de música, inclusive de compor, e para nós é prazeroso trabalhar momentos musicais dentro de uma narrativa. As Boas Maneiras nasceu como um conto de fadas moderno, então nos permitimos fazer uso também dessa ferramenta.

Além da atração do seu cinema pelo cinema de gênero, é notável a intenção de uma canonização do filme-B, principalmente em As Boas Maneiras. Esse ideal é visível claramente ao longo da primeira metade, já bastante descrita como tourneuriana. Além de ser bastante essencial para a segunda metade, que me remete um pouco aos temas do cinema do Matarazzo: maternalidade e infância, mas continua investindo em elementos diretos do horror clássico, como visto, por exemplo, nos filmes da série do Val Lewton. Qual a importância de trazer essa revalorização do filme-B para as telas?

Nós nunca vimos os filmes de gênero como “B” porque crescemos sem esse tipo de hierarquia. Fomos frequentadores de videolocadoras, e tivemos contato com os diversos gêneros sem os filtros de bom/ruim, sofisticado/vagabundo, caro/barato. Talvez por isso sejamos muito abertos ao uso de ferramentas normalmente associadas aos filmes B ou trash. O cinema sempre foi uma arte popular, de comunicação em massa. O termo “filme B” surgiu para designar filmes menores e menos sérios, mas o tempo provou que muitos desses filmes eram mais atraentes e complexos do que os filmes “A”. Devemos muito ao cinema do Val Lewton, do Mojica, do Reichenbach. Para nós é natural voltar a estes filmes como forma de se inspirar.

 

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Há uma observação social bastante precisa no cinema de vocês. Em Trabalhar Cansa, o pessimismo e a frieza dominavam os corredores do supermercado que escondia séculos de injustiça social nas suas paredes. Em Quando Eu Era Vivo e O Silêncio do Céu, o terror é usado como meio para potencializar a distância entre membros de uma família, além de serem filmes frios e escuros. Em Sinfonia da Necrópole, um filme já iluminado e bastante engraçado, o universo quase lúdico mostra as estruturas sociais e a solidão que regem São Paulo. Portanto, As Boas Maneiras parece conciliar perfeitamente tudo que vocês vêm desenvolvendo ao longo de suas carreiras, já que há dramas familiares, fábula graciosa, análise da formação da sociedade brasileira e, principalmente, personagens solitários e laços improváveis em uma enorme São Paulo. Então, a concepção de As Boas Maneiras foi algo bastante pensando como projeto de retomada dessa parceria ou algo que veio através de um processo natural?

A ideia do filme surgiu quando ainda estávamos preparando o Trabalhar Cansa, e foi se desenvolvendo ao longo dos anos. Portanto, não planejamos o filme como uma mistura do que havíamos feito antes. Dito isso, é bom ver uma leitura como a sua, que identifica nossos temas recorrentes. Marco é nascido e criado em São Paulo, e Juliana veio de Campinas para São Paulo há quase vinte anos. Somos sensíveis às questões da vida na cidade, aos seus abismos e contradições, e também ao mundo das relações de trabalho e à vida doméstica. Talvez isso tudo siga aparecendo nos nossos próximos filmes.

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Post preparado com a colaboração de João Filho. Veja aqui as cidades e salas onde As Boas Maneiras está em cartaz.

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