Bird Box é um bom entretenimento, ainda que sem impacto

Trazer obras literárias para outras mídias nunca é uma tarefa fácil. É preciso lidar não só com a adaptação, mas também com as diferenças que ela traz dependendo da história sendo contada. Caixa de Pássaros, o livro de estreia de Josh Malerman, traz uma trama e uma narrativa muito dependentes uma da outra, limitando a experiência e o impacto da história à maneira que ela é contada. Adaptar isso para uma mídia extremamente visual e sonora como o cinema só deixaria tudo mais complicado, porém a Netflix e a diretora dinamarquesa Susanne Bier não se deixaram intimidar ao entregar o novo filme do serviço de streaming: Bird Box.

No protagonismo está Malorie (Sandra Bullock), uma mulher que se vê perdida em meio ao caos completo quando o mundo é tomado por um cenário pós-apocalíptico onde você deve manter seus olhos fechados ou vendados para se proteger de uma espécie de uma ameaça invisível. A história se alterna entre o presente, quando Malorie precisa fugir com duas crianças por um caminho perigoso, e no passado, acompanhando o início da ameaça e a luta da mesma para sobreviver, junto com um grupo de estranhos que se abriga em uma casa no subúrbio.

Especificamente nesse caso, as experiências de ler assistir a história de Malorie são bem diferentes. No livro – narrado em primeira pessoa – tudo depende da descrição do que a protagonista ouve e toca e como isso afeta sua tentativa de sobreviver, comprometida pela falta de visão. Essa é uma tensão que se faz ausente na mídia visual, diminuindo o impacto de muitas cenas, mesmo não completamente.

Os dois primeiros atos focam na relação entre os habitantes da casa e o mundo hostil em que vivem. No elenco, temos atores de peso acompanhando Bullock, como Trevante Rhodes, John Malkovich, Jacki Weaver e Rosa Salazar. No entanto, nenhum deles ganham realmente algum destaque ou desenvolvimento. O personagem de Malkovich se destaca pelo clichê do “chefe” rabugento e desconfiado, entretanto não inspira nenhuma grande reação do público. Quem mais se destaca nesse quesito é Danielle Macdonald,na pele da carismática Olympia, uma jovem grávida que acabou de perder seu marido e se junta tardiamente ao grupo de sobreviventes. A direção de Bier também se mostra indecisa. O clima de uma casa totalmente coberta e vendada, onde sua visão pode comprometer sua vida a qualquer momento, pediria por uma escolha melhor de tons e fotografia que contribuíssem para um cenário mais tétrico e sombrio.

O roteiro de Eric Heisserer faz o melhor que pode para adaptar a história de uma maneira benéfica, mas em alguns momentos parece apressado demais. Principalmente em relação à vida na casa, tudo parece corrido, desde a relação entre os personagens até o crescente alcance que as criaturas invisíveis podem ter. Ao abordar a narrativa do presente, ele se mostra mais coeso. Ainda assim, consegue ser fiel ao material de origem na medida do possível, mesmo parecendo menos retilíneo, como o livro aborda.

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Bird Box não se destaca como uma narrativa sensorial, como aquilo alcançado por Um Lugar Silenciosomas a atuação competente de Sandra Bullock consegue ancorar uma história interessante e um certo nível de tensão a ponto de elevar a película a um patamar maior. Não é, e nem será, um trabalho diferencial dentro do cinema menos sensorial, todavia acaba sendo uma elucidação dos tempos em que vive.

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