Black Summer e a sobrevivência

Existe um fator bastante interessante em boa parte das obras relacionadas a zumbis. Na maioria dos casos, a crítica social acaba se tornando parte de uma questão intrínseca à narrativa. Desde o consumismo, pautado em O Despertar dos Mortos, até a convivência social, relacionada aos quadrinhos de The Walking Dead. Em Black Summer, há uma certa tentativa de unir esses elementos. Ao colocar um grupo de diferentes pessoas, que não se conhecem, para sobreviverem juntas e chegarem até um estádio, a trama brinca com nossa expectativa. O objetivo não é simplesmente o trajeto acontecer, mas sim como ele irá ocorrer. Sobreviver está em primeiro lugar.

A direção da série toma isso de forma bastante direta. Dessa maneira, ela não busca o terror como elemento primordial – algo até bastante recorrente envolvendo mortos-vivos. Aqui, o elemento chave é a tensão nessa conexão do público e dos personagens. Os diretores John Hyams e Abram Cox exploram isso na encenação baseada em elementos cotidianos (casa, parques, cercas, entre outros) e condicionam e um caminho extremo. O episódio 4, por exemplo, renega um maior desenvolvimento para gerar esse suspense na fuga de Lance (Kelsey Flower) de um morto. A sensação de pavor fica onipresente ao todos os elementos cênicos soarem inúteis para essa fuga. Isso causa uma ambientação até claustrofóbica, mesmo em um espaço totalmente aberto.

Dentro dessa correlação do escalonamento das tensões internas, o uso dos planos sequências acaba sendo primordial. A primeira cena do seriado já inicia em trabalhar geograficamente todo o trajeto da família para tentar fugir da locação. E, o mais interessante de tudo, é como essa câmera se fundamenta em buscar olhar para todos os lados e causar uma expectativa de um acontecimento. Essa questão ainda se alastra nos dois últimos episódios, aonde os zumbis dominam os espaços e um esconderijo não adianta em nada. A sequência, já ao fim, de um grupo chegando próximo ao estádio, demonstra isso mais claramente. Assim, o objetivo é simplesmente brincar nesse jogo de movimentação uma relação entre verdades e mentiras. Nunca nada fica aparentemente claro ou iluminado a audiência.

Existe um intrigante desenvolvimento de personagens nos poucos instantes definidores da obra. Especialmente no início e no meio. As pausas para um desenvolvimento dramático, geram conexões entre cada um e também catapultam futuros tensionamentos – a cena de Spears (Justin Chu Cary) com os militares ilustra bem isso. São pequenas motivações na qual conectam pontos. Entretanto, um dos lados mais intensos do seriado é ao transformar isso em acontecimentos. As mortes, ocorridas em muitos momentos, não podem ser sentidas pelo público, por se tratar de uma demonstração de possibilidade constante nesse universo. Somos levados a simplesmente entender que a morte virá para muitos deles, seja de maneira inevitável ou por uma eventualidade.

O final, muito questionado por alguns, gera um lado mais feliz para certos protagonistas e complexo a outros. Abre, incusive, portas para gerar uma continuação. Era inevitável um caminho quase exato dos acontecimentos, então ele traz um fechamento de arco aberto no primeiro minuto. Por sinal, esses períodos exaltam a montagem de Andrew Drazek e Chris Bragg. Ao buscar exaltar o silêncio em vez de uma paranoia do apocalipse, essa encenação demonstra uma trajetória humana mostrada pela narrativa. Todos os focos de tensão apresentados anteriormente, exaltam uma outra perspectiva, um outro olhar para os protagonistas.

A temporada de Black Summer funciona bastante na sua proposta de ser essencialmente uma série mais dramática e sensorial, do que um produto de ação. Apesar de grande quantidade de personagens presentes em tela, todos tem seu devido espaço, algo que espelha esse papel de público dentro da história. O lado humano e bastante comum presente em quase todos, é necessário para trazer uma outra perspectiva perante aos mortos-vivos. Atrelado a isso, ocorre um certo debate sobre ornamento militar, racismo, machismo e relações familiares. Ainda que sejam pontos pouco estabelecidos, são pontos intrínsecos ao nosso mundo tanto quanto o que está sendo mostrado em tela. Isso torna o seriado muito mais comum do que poderia ser. Se isso torna tudo ruim? Claro que não.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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