Cinema brasileiro nos últimos 20 anos: 1998-99 (Parte 1)

Começa aqui uma série em 11 partes sobre um pouco da história dos últimos 20 anos do cinema brasileiro, com entrevistas, dados e algumas reflexões sobre a mudança que a sétima arte no país tupiniquim tem passado nessas duas décadas. Então, vamos acompanhar essas histórias?

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O ano era 1998. O futebol era marcado pela perda de mais um título da seleção canarinho, dessa vez para a França na grande final. Além disso, o país passava por sua terceira eleição após 21 anos de ditadura militar, elegendo Fernando Henrique Cardoso para o segundo mandato. Em abril do mesmo ano, estreava uma das maiores pérolas do cinema nacional: Central do Brasil. Dirigido por Walter Salles, o longa colecionou indicações e prêmios no ano seguinte, alavancando Fernanda Montenegro à status internacional com sua indicação ao prêmio de Melhor Atriz no Oscar.

É uma coisa interessante de observar nessa altura da minha vida. Fico feliz, mas não sou deslumbrada. Porque prêmio, às vezes, é um acidente. Você pode ser o melhor e ganhar, ou também pode ser o melhor e perder. Não posso ser estúpida de dizer que não gostei, até pelo que isso representa para o cinema brasileiro

Em uma entrevista para a Folha de São Paulo, na época de divulgação do filme, a fala da atriz já mostrava a importância e o peso que o filme apresentava para o repertório brasileiro. O feito abriu espaço para que produções dos mais variados tipos pudessem existir e fez com que o cinema nacional se fizesse reconhecido a partir desse período.

As produções

É inegável a importância de Central do Brasil. No entanto, o momento também era muito importante. Com a criação da Globo Filmes, em 1997, uma grande emissora passou a fornecer financiamento para grandes obras cinematográficas, sendo responsável, portanto, pelo oportuno crescimento do cinema brasileiro. Em 2017, 158 títulos foram realizados, segundo a Ancine.

Enquanto nos Estados Unidos grandes artistas abriam suas próprias produtoras, por aqui isso se mostrava um pouco diferente. O dinheiro era escasso, ainda mais considerando a retomada econômica que o país vivia na época. Enquanto em 1998 foram produzidos 23 filmes, no seguinte, o número aumentou para 28. Parece pouco, certo? E de certa forma, até era, mas também representava a chegada de uma nova fase.

O diretor Eduardo Coutinho antes de seu falecimento.

É importante destacar também a criação da Lei Rouanet. Sancionada pelo ex-presidente Fernando Collor, o objetivo da proposta era incentivar a cultura, contando com a ajude de políticas públicas para a realização disso. A lei, que funciona até os dias de hoje, conseguiu contribuir fortemente para que mais cineastas independentes pudessem tirar seus roteiros do papel. Esse auxílio financeiro, ainda que tenho sido alvo de muitas críticas desde sempre, foi também um dos responsáveis pela renovação dentro do processo de criação cinematográfica no território brasileiro, oferecendo oportunidade para aqueles que nunca a tiveram.

Os filmes

Esse período de tempo também foi marcado por algumas obras-primas reconhecidas mundo afora. Dentre essas, está Santo Forte. Dirigido por Eduardo Coutinho, o documentário falava sobre religiosidade nas favelas, com os moradores comentando sobre seus contatos com o sobrenatural. Era o retorno do cineasta de Cabra Marcado para Morrer após 8 anos sem novos projetos, algo que felizmente acabou por não acontecer mais até seu falecimento, em 2014.

Dentre outras obras do período, é importante destacar: Orfeu, que se tratava de uma releitura das figuras mitológicas clássicas, que acabaram por inspirar a obra Orfeu Negro também; Tiradentes, uma biografia da figura clássica da Inconfidência Mineira; e Notícias de uma Guerra Particular, que foi outro documentário retratando uma favela carioca, dessa vez para falar sobre violência e criminalidade.

A virada do século também se mostrou como um divisor de águas, no qual filmes extremamente marcantes viriam a surgir e o Cinema Novo era deixado de vez para trás. Era o momento dos novos cineastas surgirem e se tornarem tão clássicos quanto seus antecessores.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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