Cinema brasileiro nos últimos 20 anos: 2000-01 (Parte 2)

Após o fim dos anos 90, a virada do milênio traz de vez a chamada “retomada do cinema brasileiro”. Esse momento aconteceu principalmente devido à intensificação das leis de incentivo, mas também com a criação da Ancine – Agência Nacional do Cinema, o órgão de regulação do cinema nacional.

Esse período tem sua marca também na proliferação de festivais de cinema, tendo como principal o Festival do Rio. Nos anos consecutivos, mais e mais mostras começaram a disseminar a produção nacional em todo o país, gerando força para os eventos em Brasília, São Paulo e Rio Grande do Sul.

Destaques

Dentre os grandes filmes desse período, é impossível não destacar duas obras-primas, que angariaram, desde sua estreia, grande status como as melhores obras nacionais da história. O Auto da Compadecida e Bicho de Sete Cabeças são muito mais do que histórias audiovisuais. Ambos apresentam extrema relevância, abrindo precedentes nunca antes vistos para o padrão nacional.

O primeiro longa é baseado no conhecido livro do já falecido paraibano Ariano Suassuna. A comédia dirigida por Guel Arraes (e o primeiro filme da Globo Filmes) deu origem a duas personagens marcantes que, junto das magníficas interpretações, ficaram marcadas na mente dos brasileiros:  João Grilo (feito por Matheus Nachtergale) e Chicó (realizado por Selton Mello). A película ainda tem nomes gigantescos como Lima Duarte e Fernanda Montenegro em papéis de destaque.

Apesar da veia cômica, não é difícil observar as fortes críticas à fome e às difíceis condições de vida no Nordeste. Ao mesmo tempo, o lado cultural nordestino é levado ao pico nesse momento, onde começa-se um debate mais aprofundado sobre a situação dessa região e sua importância, na totalidade, para o país.  “Eu acho que o Nordeste é uma das regiões mais fortes culturalmente. (…) Ela é uma unidade cultural muito forte e muito completa”, comenta o diretor Guel Arraes no making-of da obra.

O sucesso não foi somente com a crítica especializada, mas também arrebatou o público. O filme foi o maior sucesso de bilheteria nacional em 200, com mais  de 2 milhões e 100 mil telespectadores. Essa realização definiu muito o estilo que seria adotado não só pela Globo FIlmes, mas também por grande parte das comédias nacionais.

Já o segundo, também baseado em uma obra literária, destacou a relevância do suspense para a arte nacional, além de alçar de vez a ascensão de Rodrigo Santoro ao estrelato, definindo o ator como uma das maiores figuras internacionais até hoje.

Além disso, a direção do primeiro longa ficcional de Laís Bodanzky não pode ser esquecida. Não apenas por ser uma diretora em um universo com pouca participação feminina, mas também pela coragem de buscar realizar algo tão diferente narrativamente e que poderia dar errado na sua recepção. “É legal promover esse encontro do filme brasileiro com o público. Quando estávamos produzindo o filme, sempre pensávamos nos espectadores. Você tem de fazer um filme pensando no público, porque é para ele que você produz. Mas até aí você trabalha com deduções. O grande teste é quando o filme tem seu primeiro contato com a platéia. Foi gratificante sentir que o filme agradou tanto aos adultos quanto aos jovens.”, relatou a diretora em entrevista ao CineClick.

O que veio depois?

O ano consecutivo desses dois sucessos foi marcado por talvez o maior de todos na história do cinema brasileiro. Cidade de Deus encheu salas, foi discutido, falado e repercutido de maneiras absurdas, além de ter feito nosso país chegar em grandíssimas disputas no Oscar e colher frutos de seu sucesso até hoje. Porém, sem todos os antecedentes e reviravoltas no campo cinematográfico nacional, com certeza seu impacto não teria sido o mesmo.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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