Cinema brasileiro nos últimos 20 anos: 2002-03 (Parte 3)

2002. Talvez o ano mais importante da história do cinema nacional. Mais do que isso, do audiovisual do país. Há 16 anos,  Cidade de Deus estreava nos cinemas. Mais que um clássico reconhecido grandiosamente por suas qualidades técnicas, o longa elevou o nível de reconhecimento da sétima arte brasileira para o mundo inteiro, sendo considerado em várias listas como uma das melhores obras audiovisuais da história.

Mas para melhor compreender este fenômeno, é preciso entender o que levou Cidade de Deus ao lugar onde está hoje.

Como fazer tudo dar certo

Fernando Meirelles era ainda um diretor novo e sem muita experiência. Em seu currículo, constava apenas títulos modestos como O Menino Maluquinho 2 e Domésticas. Não se pode esquecer também da codireção de Kátia Lund, que só havia tido uma experiência documental em Notícias de uma Guerra Particular.  A junção desse frescor cinematográfico era diferencial para que tudo ocorresse perfeitamente, já que o país ainda lidava com memórias dos grandes cineastas da década de 80-90.

Com roteiro baseado no livro de Paulo Lins, o longa já tinha tudo para começar, com uma exceção crucial: o elenco. Em uma entrevista coletiva para o documentário Cidade de Deus: 10 anos depois, o comandante revelou palavras que definiriam a forma que aquela trama levaria:

“Tinham no Brasil três ou quatro atores negros jovens e ao mesmo tempo eu sentia que atores da classe média não conseguiriam fazer aquele filme. Eu precisava de autenticidade”.

Sendo assim, a decisão veio pela escolha de pessoas que morassem nas comunidades ou que tivessem alguma certa experiência e/ou observação com a vida nas periferias. Ou seja, a maioria do elenco consistia em pessoas sem nenhuma experiência com atuação antes.

Isso poderia resultar em um grande problema, considerando a dificuldade que poderia ser direcionar pessoas que nunca haviam passado por esse tipo de processo. Com isso, Fátima Toledo foi contratada para a preparação de elenco e deu o direcionamento certo que tudo precisava. Os frutos disso foram colhidos com performances inesquecíveis, como a de Leandro Firmino e Zé Pequeno.

Recepção

O filme obteve grande sucesso internacional e gerou uma grande expectativa: será que finalmente o Brasil teria sua primeira vitória no Oscar? Além disso, o público do país não decepcionou e lotou as salas de cinema, rendendo ao filme mais de 3 milhões de telespectadores.

A frustração veio quando o longa acabou nem sendo lembrado na lista final da categoria de filme estrangeiro na estatueta dourada. Porém, diversos prêmios mundias foram recebidos, com destaque para a edição frenética e quase anti-cinematográfica de Daniel Rezende.

Apesar disso, a redenção veio em 2004, quando a obra foi indicada fora da categoria de cinema estrangeiro, sendo lembrada em melhor diretor, melhor roteiro, melhor fotografia e melhor edição.

Outras produções

Dentre outros destaques que esses dois anos renderam para o Brasil estão: Madame Satã, Narradores de Javé e os dois maiores destaques além de Cidade de Deus: O Invasor e Ônibus 174.

O primeiro deles catapultou a carreia de ator de Paulo Miklos, um nome já conhecido para os fãs de rock nacional, já que integrou a banda Titãs. Apesar de já ter realizado Areias Escaldantesem 1985, foi nesse longa que ele se abriu para o Brasil.

Já o segundo foi a estreia da carreira de um nome hoje bastante polêmico. José Padilha fazia um documentário sobre violência utilizando como base uma história bastante conhecida para os cariocas. Além daqui, ele voltará a aparecer nesse especial em um futuro próximo, quando deu origem a um dos personagens mais famosos do nosso cinema.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *