CRÍTICA: Os Defensores

O vírus das temporadas chega para todos, mesmo quando se une suas séries para um bem maior. “Bem maior” é sobre isso que Os Defensores é, e tenta nos mostrar durante seus 8 capítulos. Diretamente do nosso streaming favorito, a Netflix quando trouxe a primeira temporada de Demolidor foi motivo de muito festejo, assim como todas as outras séries da Marvel, tais como: Jéssica Jones, Luke Cage; sendo Punho de Ferro sua falha. Desde então começou-se a duvidar da capacidade da parceria Marvel e Netflix.

Assim como Vingadores, a Marvel contava acertar a mão no team-up dos Defensores também. A série é situada depois dos eventos vistos em todas as produções. Para não soar meramente injusto com Punho de Ferro, ressalto logo de cara que a dupla Danny (Finn Jones) e Luke Cage (Mike Colter) é um dos melhores aspectos da produção (e que certamente vai deixar os fãs de Power Man and Iron Fist satisfeitos). Isso indica também que os problemas do quarto exemplar da saga estavam muito mais no comando do péssimo showrunner Scott Buck (que felizmente foi trocado) do que no personagem em si.

Para situar melhor, a trama se passa alguns meses após os eventos da primeira temporada de Punho de Ferro. Danny Rand (Finn Jones) e Colleen Wing (Jessica Henwick) estão à caça do Tentáculo, tarefa que prova ser praticamente impossível, o que os leva por diversos locais ao redor do mundo. Enquanto isso, Matthew Murdock (Charlie Cox), Jessica Jones (Krysten Ritter) e Luke Cage (Mike Colter), que acabou de sair da prisão, também acabam se envolvendo, cada um, com o sombrio grupo. Restam a eles, então, unirem-se para impedir os planos de Alexandra (Sigourney Weaver), integrante do Tentáculo, cujos objetivos podem levar à destruição de Nova York.

Os temores de que Os Defensores acabaria seguindo pelo mesmo caminho de Punho de Ferro começam a se concretizar logo nos episódios iniciais. Com um ritmo nitidamente lento, repleto de momentos desnecessários que apenas dilatam a temporada como um todo, o seriado conta com um começo bastante devagar, deixando, porém, sempre a esperança de que esse ritmo irá acelerar em algum momento. Infelizmente, isso jamais acontece. Existem, sim, breves momentos mais ágeis, mas esses são acompanhados por toneladas da mais pura enrolação, com linhas e linhas de diálogos simplesmente se repetindo incessantemente. Para enxergar isso, basta pegar o exemplo de Danny Rand, cujas falas podem ser resumidas a: “eu sou o Imortal Punho de Ferro” e “vocês não têm ideia do poder do Tentáculo”.

A Alexandra de Sigourney Weaver entra na lista de vilões mal aproveitados no universo Marvel da Netflix. Apesar que mesmo no cinema, alguns os vilões são caricatos e vazios, em sua maioria, aqui os antagonistas ganham pano de fundo necessário para que se possa compreender suas motivações. Porém, ela acaba sendo uma das personagens que se leva menos fé, e não passa temor nenhum. Uma pena, poderia ter sido uma ótima vilã. Acabou entrando para lista de uma das piores vilãs já apresentadas até o momento. Madame Gao por outro lado mantém a decência da personagem e está melhor do que nunca.

No aspecto técnico, a série apresenta as mesmas qualidades e vícios. As lutas são bem coreografadas e eletrizantes, mostrando com clareza a habilidade que cada um possui. O posicionamento da câmera deixa o telespectador com a noção exata do que está acontecendo durante os combates. Mas, o mesmo vício dos outros programas está aqui: a velha conhecida luta no corredor filmada sem cortes. Ela é ótima, mas repetitiva.

Um aspecto positivo é a forma como os personagens coadjuvantes são bem utilizados. Salvo um ou outro caso, todos já foram apresentados nas séries anteriores, o que possibilita que nos importemos mais com esses indivíduos, ainda que os de Demolidor certamente saiam na frente dos outros, tanto pela qualidade da série quanto pelo fato dele já ter duas temporadas. É gratificante enxergar como os roteiristas conseguem garantir a esses personagens papéis de destaque na série, cumprindo funções-chave dentro da narrativa, tudo enquanto suas histórias pessoais são respeitadas.

De volta a parte técnica, os trechos mais calmos da série não são ajudados pela montagem burocrática, que pula de personagem em personagem quase que seguindo uma ordem específica. Felizmente, tal problema acaba indo embora quando o grupo se une, permanecendo somente as transições mais “artísticas”, que parecem ter sido tiradas de canais de Youtube, funcionando apenas para quebrar nossa imersão e constatar a óbvia mudança de foco para outro personagem, como se o espectador não tivesse cérebro o suficiente para entender isso. Ao menos a fotografia nos distancia, em certos pontos, dessa tragédia, sabendo empregar filtros e iluminação que bem representam cada um dos personagens centrais – algo que, claro desaparece quando estão juntos.

A verdade é que Os Defensores é uma série simplista, repleta de atalhos narrativos, uma vilã posta no piloto automático e alguns diálogos altamente repetitivos. Os Defensores uma série superior a Punho de Ferro. Portanto, é seguro afirmar que nossos medos não se concretizaram por completo. Dificilmente, porém, podemos categorizar essa primeira temporada como um acerto, visto que seus muitos deslizes são tão evidentes quanto suas qualidades, de tal forma que não conseguimos, verdadeiramente, nos envolver com a narrativa apresentada, embora consigamos, sim, nos divertir ocasionalmente. Não passou de uma série genérica, uma experiência esquecível que apenas nos mostra o quanto a parceria entre a Marvel e a Netflix perdeu o seu rumo.

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Raphael De Souza

Graduado em Jornalismo pela FACHA. Lançou durante seu período de faculdade o livro “Costuras Poéticas de uma Vida Reaproveitada”. Chegou palestrar sobre a cultura asiática e seus desdobramentos, na área de Mídia da UFF – Faculdade Federal Fluminense e eventos do cunho oriental. Hoje trabalha como empresário, jornalista e nas horas vagas piloto de automobilismo. E ainda consegue arranjar espaço na sua agenda para séries, animes e tokusatsu e filmes. Defende o crescimento do gênero Tokusatsu no Brasil como forma de cultura.

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