Crítica: The Act – 1ª temporada

Publicado pela primeira vez em agosto de 2016, o artigo de Michelle Dean para o BuzzFeed sobre o assassinato de Dee Dee Blanchard jogou de vez a história real da mãe que adoecia sua filha para o centro dos holofotes. O caso de Gypsy Rose, a menina que arquitetou a morte de sua mãe após uma vida cruel de abusos, tornou-se fonte de material aparentemente inesgotável (já que o caso da jovem ainda se desenrolava nas cortes americanas) para tabloides, jornais e documentários. Quatro anos depois, esta chocante e triste história ganha as telinhas pela Hulu. 

Criada por Michelle Dean, a autora do artigo, e por Nick Antosca, escritor e produtor responsável por séries como Channel Zero, a produção não se propõe a analisar toda a vida que Gypsy Rose e Dee Dee levavam, iniciando a história em 2008. É quando mãe e filha se mudam para uma nova vizinhança em Springfield, prontas para começar uma nova vida em uma casa construída especialmente para elas por caridade. Por causa de diversas doenças e limitações físicas, Gypsy Rose é confinada a uma cadeira de rodas, sendo mais dependente ainda de sua mãe. As coisas se complicam conforme a filha sente os efeitos da puberdade e da sexualidade, desejando cada vez mais autonomia e independência, para o desespero de sua mãe, que é emocionalmente carente, manipuladora e controladora. Quando Gypsy descobre que talvez ela não seja tão doente quanto sua mãe quer que todos (incluindo ela mesma) pensem, ela torna-se cada vez mais ciente da prisão em que esteve a vida inteira e começa a procurar maneiras de escapar, sem se importar com o quão perigosas podem ser.

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Embora, com essa história, a narrativa tenha material de sobra pra explorar, a série foca bastante na Gypsy de Joey King. Felizmente, graças ao talento da atriz, essa se mostra uma das escolhas mais acertadas da produção. A trama se desenrola sob o olhar da protagonista, que vive em uma verdadeira história de horror típica de Stephen King. Dee Dee Blanchard, em uma perturbadora performance de Patricia Arquette, poderia facilmente entrar no rol de vilãs domésticas com Annie Wilkes, se não fosse uma figura real, o que torna tudo ainda mais chocante e perturbador. Talvez por querer fugir de críticas como aquelas direcionadas à outra produção da casa, The Handmaid’s Tale, The Act foge o máximo possível de momentos mais críticos de tortura e abuso relatados pela verdadeira vítima, embora aquelas exibidas ainda sejam marcantes o suficiente.

Durante os dois primeiros episódios, o roteiro se preocupa em estabelecer de maneira clara como Gypsy estava em uma armadilha cruel imposta pela vida, além de explicitar como ela sabia disso, como visto na cena final do segundo episódio. Os episódios restantes, portanto, tentam mostrar as diferentes camadas de seus personagens, protagonistas e coadjuvantes, através de flashbacks e diálogos dúbios, enquanto o derradeiro fim de Dee Dee se mostra inevitável pelas cruéis ações da mulher com a filha. Não é a toa que a pobre moça foi obrigada a buscar afeto através da internet, levando-a para o relacionamento que condenou as duas mais ainda.

Embora mantenha um bom ritmo em seus 8 episódios, fica claro que em algum momento os roteiristas não sabiam o que fazer mais. Os caminhos dos personagens já estavam traçados e leva tempo demais para que essas tramas tenham uma devida conclusão. O que prende e realmente faz a série se destacar são as atuações impecáveis de todo o elenco. Logicamente, Arquette e King são a força motriz neste quesito. Enquanto Patricia constrói bem uma figura passível de ser temida, com nuances entre o carinho materno e a obsessão e a maldade, King surpreende. Ela encarna Gypsy com delicadeza e ternura, fazendo com que a sensibilidade e inocência que a moça apresente no começo sejam mais sentidas conforme sua situação vai piorando. Além disso, o lado quase manipulador e calculista da personagem tem bastante espaço nos episódios finais, o suficiente para que a jovem atriz mostre a todos que pode encarar qualquer desafio que jogarem pra ela. Outro a se destacar é Callum Worthy, interpretando Nick Godejohn, o namorado de Gypsy que comete o crime. Ex-Disney Channel, o ator constrói a personalidade tímida e ao mesmo tempo perigosa de Nick de maneira sólida, quase instigando o espectador a sentir compaixão e pena pelo assassino. Chloë Sevigny, Annasophia Robb, e Margo Martindale também fazem bom uso de seu pequeno espaço em tela, entregando personagens interessantes e verossímeis.

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Em suma, The Act conclui sua primeira temporada com um gosto agridoce. Embora traga uma direção inspirada e uma produção incomparável, com atuações que realmente elevam a produção, a necessidade de alongar a história para preencher tempo acaba diminuindo o impacto que talvez fosse necessário para contar uma das histórias criminais mais chocantes dos Estados Unidos. Ainda assim, é uma série acima da média que merece ser conferida.

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