Disney e o impacto do monopólio nos cinemas

2019 vem sendo um ano de grande sucesso comercial para a Walt Disney Studios. Dona de cinco das seis maiores bilheterias do ano, a empresa conseguiu atingir o faturamento de US$ 7,67 bilhões com seus. Vingadores: Ultimato (US$ 2,79 bi), Capitã Marvel (US$ 1,1 bi), Aladdin (US$ 1 bi), O Rei Leão (US$ 968 mi) e Toy Story 4 (US$ 919 mi) são os  longas responsáveis pelo excelente número, e que dividem o pódio com Homem-Aranha: Longe de Casa (US$ 1 bi), da Sony. Vale lembrar que Ultimato se tornou o filme de maior faturamento da história, ultrapassando Avatar (US$ 2,78 bi) e o fato desses valores serem apenas do momento na qual esse texto será publicado.

E é curiosa a presença do filme do aranha aqui, visto que apesar de se tratar de uma propriedade dos estúdios Sony, foi severamente impulsionado em marketing e recepção do público por suceder Vingadores, além de ser uma parceria com a Marvel.  Logo, entre as seis maiores bilheterias do ano, até a produção que aparentemente fugiria da Disney não está assim tão distante. Parece tudo encaixado junto.

O número representa um recorde para o estúdio que, em apenas 8 meses de 2019, superou a até então sua marca de maior faturamento, quando atingiu US$ 7, 61 bilhões em 2016. A previsão é de que esses números aumentem bastante, visto que a empresa ainda conta com alguns grandes lançamentos para esse segundo semestre. Frozen II, a continuação de Malévola e Star Wars: A Ascensão Skywalker são alguns desses exemplos. Além disso, se tornou o primeiro estúdio a atingir a marca de US$ 5 bi no mercado internacional, ou seja, fora dos Estados Unidos. 

A tendência é que, além do aumento desses números, a concorrência fique cada vez menor para a empresa, na qual vem se fortalecendo em constante expansão após a compra da Pixar, em 2006, da Marvel Studios, em 2009, da LucasFilm, em 2012 e, mais recentemente, da 21st Century Fox, neste ano. Aliás, a compra da Fox, por US$ 71, 3 bi, levou a empresa do Mickey Mouse a deter 40% do mercado interno cinematográfico, mais do dobro de suas maiores concorrentes, Warner Bros e Universal, com 13% cada. Ela se transforma, assim, no maior conglomerado de mídia do planeta. 

Ainda que inicialmente pareça inofensivo, há algumas questões problemáticas a tal crescimento. Apesar de o mercado ser extremamente competitivo e formado por outros gigantes do entretenimento, o fato de a Disney ser detentora de uma parcela tão grande pode ser prejudicial para outros estúdios. Tendo tantos grandes nomes em seu catálogo, é comum que acabe tomando conta de certas datas e levando seus competidores a serem mais criteriosos e estratégicos quanto a agendamentos de seus lançamentos, afinal, não pretendem ser apagados pela empresa. 

E, com o crescimento do número de grandes lançamentos, que se tornam mais constantes, a janela entre eles se tornam cada vez menores, logo, os outros filmes sobrevivem pouco tempo sem a gigantesca competição. Essa situação desfavorece cada vez mais principalmente os estúdios menores, na qual serão dominados pelas produções da Disney.  Um exemplo recente é a exibição do último Vingadores nas salas de cinema no Brasil. O filme dominou mais de 80% das sessões e levou a retirada precoce de filmes nacionais de exibição – como De Pernas Pro Ar 3 (principal nome brasileiro no momento), o que levou o atual ministro responsável pela pasta de Cidadania no governo brasileiro a assinar um decreto, que determina uma cota de telas para grandes produções. A legislação já prevê medida do tipo desde 1932, a fim de fomentar a exibição de produções nacionais no país, mas neste ano havia sido deixada de lado. 

Outra questão é o tom usado pela Disney em suas produções. Ainda que com a compra da Fox e suas subsidiárias, seu conteúdo fique espalhado por “grupos” menores, há uma maneira muita clara do estúdio criar conteúdo. Desde sua criação, em 1923, a empresa buscou se elevar a um patamar no qual seja apreciada por toda a família, o que é mantido até hoje. É claro que atualmente temos contato com uma empresa muito mais permissiva que na época, mas certos dogmas se mantêm fortes em suas produções e, com ela se tornando dona de diversos outros estúdios, podemos caminhar para um ambiente no qual parte majoritária das grandes produções cinematográficas estejam presas a esse “padrão Disney”. Não que ele seja um problema, mas é preciso refletir o quanto o público ganha tendo acesso a experiências cinematográficas plurais e que atendam diversos públicos. 

Uma das polêmicas relacionadas a compra foi o fechamento do selo de filmes Fox 2000, responsável por produzir alguns filmes de menor orçamento, e que produziu filmes como Marley & Eu, O Diabo Veste Prada e Com Amor, Simon. A surpresa se deu devido a promessa dos executivos de que a produtora não seria fechada após a venda. A Disney não revogou a decisão, mas se prontificou a terminar os filmes em fase de desenvolvimento pelo selo. 

Houve também um caso, em 2017, no qual a empresa proibiu repórteres do Los Angeles Times de assistir a conferência de imprensa de Thor: Ragnarok, devido ao veículo ter feito uma matéria na qual denunciava o não pagamento de impostos e práticas ilegais na cidade de Anaheim, local onde a empresa tem a Disney Parks & Resorts. O banimento foi estendido para todos os outros longas de seu catálogo, porém, com a má repercussão do caso, resolveram voltar atrás. O The New York Times salientou ainda em comunicado que o comportamento da Disney era “um perigoso precedente e não era, de todo, do interesse público”.

As franquias Alien, Planeta dos Macacos, Kingsman, Avatar são só alguns dos outros títulos pertencentes a gigante agora, isso ao analisarmos apenas o lado do cinema. Nas outras mídias é possível citar outros nomes como o Hulu (serviço de streaming, casa de séries como The Handmaid’s Tale) e grandes franquias como Os Simpsons.

Ainda é cedo para determinar algo sobre o impacto do crescimento da Disney na indústria cinematográfica, mas é certo que é uma situação problemática, visto que monopólios detonam certa rigidez de seus detentores perante o resto do mercado, e tanto poder concentrado nas mesmas cabeças não parece ser positivo para ninguém – além deles mesmos.

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