“Estamos trabalhando a princípio com uma janela para o fim de 2019”, diz diretor criativo no jogo inspirado no filme O Menino e o Mundo

Entrevistamos Marcel Casarini, diretor criativo e um dos produtores do game As Crianças do Mundo, um dos projetos mais diferentes e inesperados dos últimos anos no mercado nacional, devido a se passar no mesmo universo do filme O Menino e o Mundo, indicado ao Oscar. Perguntamos bastante sobre como está sendo projeto, além de uma mensagem para os desenvolvedores do futuro.


SA: “O Menino e o Mundo” foi um projeto de destaque na época de seu lançamento. O background de animações no Brasil é tão escasso quanto o de jogos. Quais foram seus primeiros pensamentos ao entrar em um projeto de junção do mundo do filme nos jogos?

Marcel: A Split inicialmente é uma empresa de animação, porém sempre possuímos uma grande vontade de fazer jogos. Tivemos algumas experiências no passado com jogos menores, mas com o “As Crianças do Mundo” vamos conseguir realizar essa antiga ambição. Basicamente, o que mais prezamos como estúdio é contar uma boa história. Desta forma, a relação com o filme do Alê Abreu para nós é, ao mesmo tempo, desafiador – uma vez que temos agora uma camada de game design e interação não presente em filmes – e natural, pois no fim, o que deve ficar para o público é a bela narrativa que vamos trazer para as personagens.

SA: “As Crianças do Mundo” é um projeto muito ambicioso para o mercado nacional. O quão ambicioso foi tudo isso para a Split Studio?

Marcel: Eu diria que ainda é muito ambicioso! Hoje estamos com uma equipe Brasil & Canadá, algo que foge ao trivial. Também possuímos a imensa responsabilidade de adaptar essa icônica animação brasileira, que angariou diversos prêmios pelo mundo além da conhecida indicação ao Oscar. Além de que, apesar de individualmente possuirmos uma boa experiência, não termos uma longa história de desenvolvimento como estúdio. Mas construímos uma equipe muito forte e estamos dedicados de corpo e alma ao projeto, então estamos confiantes de um ótimo resultado.

 

SA: Como estará conectada a história do game com o filme?

Marcel: Ainda não podemos divulgar oficialmente dados sobre a história do jogo, mas a abordagem que estamos adotando é de que o jogo está situado dentro do universo do filme, a princípio não concomitante com a história de Cuca que foi mostrada na animação.

SA: A trilha sonora foi um elemento muito marcante no longa, além da falta de som. Como vocês pensam em utilizar isso dentro da narrativa?

Marcel: Esse é um dos nossos grandes desafios, como contar a história sem falas ou texto. Por esse motivo, teremos de ter uma arte primorosa e que possa fazer-se entender sem este suporte linguístico, algo que também nos ajuda a criar um jogo com caráter universal assim como o filme. A música também estará muito presente no jogo, como mecânica, sendo uma ferramenta muito importante para o jogador durante sua jornada.

SA: O jogo está sendo baseado em um filme muito premiado e reconhecido pela crítica, mas não terá o mesmo título, apenas estarão no mesmo universo. A partir disso, como se pretende atrair os jogadores?

Marcel: Assim como diversas pessoas pelo mundo, nós também somos fãs do filme e atraídos por aquele universo colorido e, de certa forma, duro. Esperamos atrair os fãs do filme, justamente, nos apoiando na vontade de conhecer mais sobre aquele mundo, quem vive nele, quais as relações entre essas pessoas e animais. Assim como o filme, o jogo possui um nicho específico, portanto não estamos atrelados à formulas de mercado, estamos trabalhando em um jogo com personalidade própria com uma linda arte e narrativa rica e atraente.

SA: O mercado de games, nos dias de hoje, está cada vez mais voltado para grandes gráficos, ação frenéticas, mecânicas arrojadas e etc., mas a ideia de vocês está em criar algo mais contemplativo e reflexivo. Como é, dentro disso, ir na contra-mão da indústria e o como atrair o público mais jovem? 

Marcel: Hoje, o mercado de games evoluiu de forma a termos espaço para diversos tipos de jogadores e, consequentemente, diversos estilos de jogos. Muitos dos jogadores que jogam os famosos jogos AAA, com orçamentos gigantescos e gráficos de ponta, também jogam e aproveitam jogos com caráter mais intimista como o nosso. Não há uma linha que separa e exclui um jogo em detrimento á outro, há apenas experiências diferentes.

SA: Quais são as maiores inspirações do projeto? Existe relação com as animações nacionais de hoje?

Marcel: Nossa principal inspiração, obviamente, é o filme Menino e o Mundo. Estamos tendo muito respeito para com a obra do Alê Abreu e tomando ela como ponto de partida para diversas questões dentro do jogo, para que realmente o jogador sinta-se inserido no mundo do filme. Como referência de jogos, temos jogos como Samorost, Old Man’s Journey, Dropsy, Night in the Woods dentre outros.

SA: Jogos independentes sempre possuem uma ideia de arte para os jogadores bem 8 ou 80: ou são obras de arte ou são muito minimalísticos. Dessa maneira, “As Crianças do Mundo” buscará estar em um caminho bem similar de “O Menino e o Mundo”, no quesito artístico?

Marcel: Estamos trabalhando com artistas muito talentosos que conseguem reproduzir de forma maravilhosa a arte do filme. Claro que teremos novas locações não mostradas no filme, de forma a trazer um pouco de nossa própria leitura sobre o aquele mundo, mas sempre com o maior cuidado e acompanhamento do próprio Alê.

 

 

SA: Para quando podemos esperar o game e o como está o desenvolvimento?

Marcel: Infelizmente, não posso divulgar datas ainda, mas estamos trabalhando a princípio com uma janela para o fim de 2019. No momento, estamos na etapa de pré-produção, ou seja, estamos desenvolvendo toda a documentação necessária para iniciarmos o desenvolvimento ainda esse ano. Estamos escrevendo GDD, elaborando artes conceito e protótipos. Nos próximos meses, lançaremos um teaser para ajudar todos a entenderem melhor nossa visão sobre o jogo.

SA: Qual recado você dá a quem está interessado a entrar no mundo animado dos jogos ou do cinema?

Marcel: Trabalho duro e incansável. Este é um mercado em crescimento, mas ainda muito difícil, porém assim como tudo na vida, a persistência, esforço e qualidade aos poucos conseguem achar seu caminho.

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Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido… e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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