Guava Island e o poder da arte na repressão

Em tempos de autoritarismo e repressão, a arte é sempre a primeira a ser colocada em uma caixa. Entretanto, é também sempre a primeira a gritar contra o poder. A arte possui esse papel de assimilação social extremamente forte, simplesmente pelo fato de ser produzida por pessoas comuns. Assim, é sempre impossível dizer que esta possui uma determinada função ou deva ser feita de uma determina forma: a expressão humana é muito mais complexa e difícil de entender. Dessa maneira, Guava Island, recente lançamento da Amazon Prime Video, busca investigar um pouco sobre a força artística dentro de uma repressão. Entretanto, não pensando apenas em uma conotação política, mas em todas as formas rejeição, inclusive psicológicas.

Na história, o jovem músico Deni Maroon (Donald Glover), residente da paradisíaca ilha de Guava, busca realizar um festival de música. Apesar da esposa Kofi Novia (Rihanna) ser apaixonada por seu trabalho, ela tem medo de uma possível punição pela realização. Deni terá de enfrentar tudo e todos apenas para poder realizar seu sonho de mudar a vida das pessoas pela música.

Tematicamente, é interessante perceber como a musicalidade faz parte vibrante dentro da narrativa. Seja em sons de transição (com a apresentação de pessoas tocando instrumentos) ou até mesmo nas partes musicadas, com performances realizadas a expressar situações. O diretor Hiro Murai se mostra um apaixonado por esse lado dançante daquela sociedade, idealizando todo esse cerne musical sendo parte única do meio. Aliás, Murai mostra até o ditador Red Cargo (Nonso Anozie) utilizando isso como ferramente política de domínio. Contudo, a distinção está justamente na relação que o protagonista e o vilão irão tratar isso. Enquanto o primeiro a traz para um caminho de libertação, o segundo busca incrementar mais a repressão.

Murai propõe ainda na sua encenação o poder da arte por is só, fazendo uma homenagem clara a linguagem da expressão humana. A abertura sendo feita com animação – junto ao fim -, os instantes musicados, a paixão pela dança, tudo isso se demonstra bem direto nessa intenção quase utópica do cineasta. A ilha se torna uma consoante uníssona, formalizando elementos em conjunto para consolidar um ambiente na qual a arte deva ser expressada. Essas situações ainda se tornam quase explícitas na cena após o trágico evento, aonde todo esse movimento se torna necessário. A morte ali não parece abraçar um caminho fúnebre, mas exalar o tempo vivido da pessoa. Toda a proposição principal do longa ainda abrange ainda um afeto no meio da amargura, rememorando outros trabalhos musicais como Cabaret, Dançando no Escuro e Um Violinista no Telhado.

Esse confronto político todo acaba sendo exibido de maneira um pouco decadente. Se absorve quase um primitivismo inerente ali, demonstrando a força de Red e sua proximidade situacional com Deni. Contudo, certo espaço é aberto também para uma crítica mais focalizada nesse contraste do paradisíaco de Guava e de sua alta exploração, apresentando claramente na sequência de “This is America”. Fica até intrigante perceber a formalização da música feita pelo maquinário. Ele representa mesmo essa engrenagem, sendo explicitado pela letra combatente de Glover.

Dentro desse emaranhado temático, certas questões acabam ficando um pouco de lado da obra. Talvez a principal delas seja toda a relação dos personagens e até o amor entre o casal principal. Até Deni é deixado de lado. Todos os quesitos buscam mais um lado de características dessas figuras do que um real desenvolvimento de suas trajetórias de vida, na qual poderia acrescentar ao debate essencial da história. A personalidade da ilha acaba se tornando mais aprofundada e possui, sem dúvidas, uma força conjunta as pessoas. Mas ainda soa como algo muito menor de quem realmente eles são.

Existe sim um projeto estimulante feito por Hiro Murai no filme, ao abraçar realizar toda sua discussão de frente, sem medo de se expor ideologicamente. Guava Island acerta de forma quase completa dentro disso, produzindo cenas memoráveis como a ouvida de rádio, mostrando essa dualidade da arte e repressão fazendo parte intrínseca desse universo. Mesmo assim, falta uma certa substância dramática dos protagonistas afim de se perceberem recriminados. Se funciona para uma absorção do valor da música aqui no meio, é perdido em entender sua relevância a cada um deles.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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