Há 10 anos, surgia um Tribunal Surdo

Quando se trata de música underground aqui no Brasil, sempre são trazidas algumas referências já históricas vindas desde os anos 90, como: Ludovic, Pin-Ups e Diesel. Esses são artistas que estão sempre muito presentes no imaginário de todos que vivem nesse meio ou mesmo desse meio. Eu sou um deles. E falando em um espectro mais pessoal, minha vida nesse nicho começou há um bom tempo atrás, quase sem querer e sem eu mesmo saber.

Quando adolescente, no longínquo ano de 2012, navegando pelos sites de cifras pela internet, me deparei com o mais recente lançamento da banda Violins, com seu disco de mesmo nome. A memória fotográfica que, depois de ouvir a primeira música, eu perceber que tinha amado a primeira canção brasileira que havia escutado até então, em plena fase coxinha de louvar tudo que é americano e viver a chamada síndrome de vira-lata, foi algo que me marcou muito. A partir dali tudo mudou.

Mas hoje eu não vou falar desse trabalho. Vou voltar um pouco no tempo e chegar no ano de 2007, quando a banda goiana lançou “Tribunal Surdo”, também conhecido como meu disco nacional preferido. E é assustador de pensar que esse álbum já está chegando na sua primeira década, pelo simples fato de ser tão atual, que até é quase possível se usar o adjetivo “profético”: algum tempo atrás, até saiu uma matéria no G1 sobre eles discutirem em forma metafórica a queda de um avião russo em terras turcas, na faixa “O Piloto Russo na Aldeia Suskir”.

Falando em metáfora, esse disco é até difícil de compreender de início com tanta subjetividade, mas o Violins trata sua música como arte, levantando questionamentos e usando o artifício da ironia como uma forma de divulgar suas ideias. O álbum traz um conceito brilhante, com temáticas das mais diversas que quase sempre são exploradas em primeira pessoa, prevendo há dez anos o que seria pauta no atual dia-a-dia. Cada faixa é um personagem diferente – desde uma pessoa contando seus privilégios pela cor da sua pele até um jovem morador de rua –, sempre representando um dos dois lados dessa luta dialética da sociedade neoliberal.

Dói perceber como “Grupo de Extermínio de Aberrações” já previu a onda conservadora que vivemos, dando a entender a função das igrejas em toda a situação política que estamos hoje em dia. Dói ver também como os Estados Unidos continuam exterminando os povos árabes com “Saltos Ornamentais Árabes para Treinamento de Atiradores Americanos”, e dói ver como a sociedade continua no mesmo esquema de privilégios jurídicos e sociais que vivemos desde sempre em “Delinquentes Belos”. Talvez pode-se afirmar que um dos temas centrais do disco é de justamente tratar a cultura liberal, já enfiada na nossa sociedade, de forma tão brilhantemente ironizada. Ao longo do trabalho, é possível reparar o tempo inteiro uma dualidade de oprimido-opressor e como eles coexistem num Brasil sem tantas perspectivas positivas.

A genialidade e a complexidade das letras talvez fizeram o disco envelhecer tão bem: faz perceber que o “cidadão de bem” sempre teve um papel social completamente questionável, lhe atribuindo o título de anti-herói e colocando o dedo em feridas sociais como o alcoolismo, o preconceito estrutural, o colonialismo e a cultura manicomial. Traz para a pauta o sistema prisional, a religiosidade, a iconolatria e tudo que em 2017 continua sendo considerado como tabu por toda a ideologia conservadora que assombra as terras tupiniquins nos últimos tempos.

Musicalmente falando, suas premonições também não falharam: muita referência dos anos 90, cheio de nuances entre ritmos mais pesados e melodias mais limpas, com um timbre de voz bem característico e, às vezes, incorporando elementos acústicos e corais cantados com paixão sobre as maiores mazelas que convivemos no nosso cotidiano. A qualidade da mixagem faz lembrar quão atual o grupo de Goiás conseguiu ser: seus artifícios são muito semelhantes com artistas mais contemporâneos como Jonathan Tadeu e Fernando Motta, além dos trabalhos solos de Jair Naves. Dessa forma, é bem interessante perceber que todo um movimento musical dentro dessas características está se consolidando apenas hoje em dia.

 

E, no final da experiência de 14 faixas e 47 minutos passados, chega-se à conclusão que há dez anos atrás o Violins expôs um tribunal surdo, que consiste justamente de pessoas como você que está lendo esse texto, além de quem está o escrevendo e de quem vive numa sociedade já consolidada na estrutura neoliberal. É um disco questionador, que impulsa a mudança. Nós ouvimos, nos enxergamos em suas letras e questionamos nossa real posição social e o que podemos fazer para sermos um pouco melhor. É um disco que consegue continuar tão político e relevante ao longo de uma década inteira, sem patronear nenhum mártir e provar que cada um tem o que mudar dentro de si, criando uma autoconsciência e mais empatia em quem aventura em se juntar a esse tribunal.

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Matheus Schlittler

Estudante de cinema, criador do selo/produtora Salitre Records, obcecado com Twin Peaks e emo dos anos 90

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