Os 35 anos de A Hora do Pesadelo

Todo gênero possui seus clássicos e seus grandes nomes.

O horror não é exceção e Wes Craven é um dos grandes exemplos disso. Craven iniciou a carreira no mundo dos filmes pornográficos, e ao sair deste campo foi direto para filmes conhecidos por seu teor gráfico e violento, como Aniversário Macabro ou Quadrilha de Sádicos. Embora igualmente famosos entre os aficionados pelo gênero, esses dois títulos não podem dizer que compartilham o legado que o próximo longa de Craven criaria: A Hora do Pesadelo. 

A história do filme segue um grupo de amigos que começam a ter pesadelos cada vez mais assustadores envolvendo um homem com uma luva com lâminas nos dedos. Nancy, Tina, Glen e Rod percebem, então, que estão sendo perseguidos por Freddy Krueger, que é capaz de matar as pessoas dentro de seus sonhos. Lançado em 9 de novembro de 1984, o filme foi um sucesso inesperado (algo presente mais de uma vez na carreira de Craven) e arrecadou 25 milhões de dólares somente nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, só chegou às telonas em 1986. Uma sequência chegaria aos cinemas menos de um ano depois, iniciando a partir daí uma das franquias mais longas do terror e eternizando Freddy Krueger como um dos vilões mais memoráveis da extensa galeria que os anos 80 trouxe para a cultura pop.

Tudo começou quando Craven leu um artigo no jornal LA Times sobre um grupo de refugiados da Cambodja e do Vietnã que, após fugir do país por causa da enorme violência, não conseguia mais dormir por causa dos crescentes pesadelos envolvendo essas experiências. Alguns homens, logo depois, acabaram morrendo dormindo. Isso foi chamado pelas autoridades médicas na época de, em tradução livre, Síndrome da Morte Asiática. Isso, junto com a letra da música “Dream Weaver”, de Gary Wright, foi o suficiente para trazer ao diretor mais ou menos qual história ele queria contar em sua próxima película. Além disso, também serviu de inspiração para a composição da trilha sonora clássica e seu estilo synth. 

Depois do roteiro pronto, foi um grande desafio conseguir que o filme produzido e financiado. Estúdios como Paramount Pictures e Universal não só rejeitaram o projeto, como também enviaram uma petulante resposta à Craven que também caçoava do manuscrito. No entanto, isso não o desanimou: o diretor emoldurou a carta na parede de seu escritório após o estrondoso sucesso do filme, já que enquanto buscava a ajuda de alguma empresa, ele passava por maus bocados pessoal e financeiramente. Se ele teve que rejeitar o interesse da Disney, que queria que ele mudasse o tom da história para torná-la acessível a crianças e pré-adolescentes, foi a (na época) pequena New Line Cinema que concordou em produzir o filme. Antes, ela somente distribuía. Mas mesmo assim, houveram problemas: no meio das gravações, alguns acordos não foram pra frente e o elenco e a equipe ficaram sem salários. Embora hoje já seja uma empresa bem maior e que tenha lançado filmes bem mais rentáveis, Pesadelo permanece como seu sucesso mais marcante: por um tempo, ela foi apelidada de (sic) A Casa que Jack Construiu.

Estrelas dos sonhos (literalmente)

Sem dúvidas, o elemento de maior peso para o sucesso e qualidade do filme é Robert Englund. Até que ator e personagem se encontrassem, no entanto, muitos outros atores passaram pelo teste. David Warner (o capanga de Caledon Hockley em Titanic) havia sido originalmente escalado, mas teve que sair do projeto. Enquanto a busca continuava, Wes Craven só tinha uma coisa em mente para o personagem: ele teria que ser alto e feroz. Quando Englund chegou para as audições e entrevistas, claramente não preenchia o requisito do tamanho. Mas sua interpretação, seguindo o conselho de um amigo de seu agente a agir “como um rato”, fez com todos percebessem que ele era Freddy. Inicialmente, Krueger seria de fato um molestador de crianças, mas o roteiro foi alterado para evitar críticas com casos semelhantes que aconteceram na Califórnia na época da produção.

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Englund e Craven nos bastidores

Um vilão incrível como Krueger tornaria o filme memorável de qualquer maneira. Mas o que também eleva essa película é a heroína Nancy Thompson, interpretada aqui por Heather Langenkamp. Uma das final girls mais marcantes da década, Nancy é corajosa e determinada a vencer o assassino, permanecendo pronta para a briga mesmo após a morte de seu namorado. Para o papel, o diretor queria alguém fora dos padrões de Hollywood para a época. Segundo a diretora de elenco Anette Benson, Courteney Cox, Demi Moore e Jennifer Grey fizeram testes para Nancy, junto com outras 200 jovens.

Mas talvez do elenco quem chame mais atenção depois desses dois é Glen Lantz, ou Johnny Depp. Na época, Depp era desconhecido e apenas acompanhava um amigo que também ia fazer audições. Quem tirou a foto do jovem galã foi a filha de Craven, dentre centenas de outros concorrentes. Não bastasse isso, a cena da morte de Glen é também um dos momentos mais marcantes do filme, em uma cena mais criativas e visualmente interessantes do longa:

Sequências, adaptações e remakes

Mesmo com a boa recepção de público e bilheteria de A Hora do Pesadelo, Craven nunca esteve interessado em criar uma franquia. Seus planos até mesmo incluíam um final feliz. Ficou a cargo de Leslie Bohem escrever o roteiro da sequência, que não traria Nancy de volta, focando na perseguição de Freddy a um adolescente que se muda para a casa dela. Na época, A Vingança de Freddy não foi muito bem recebido. Porém, ao longo dos anos ele ganhou um status de filme cult pelo tom homoerótico implícito em algumas cenas. Dois anos depois, viria um dos capítulos mais celebrados da franquia: Guerreiros dos Sonhos. 

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O longa contou com o retorno de Wes Craven ao time de roteiristas, trazendo Langenkamp de volta como Nancy Thompson, que agora trabalha em um hospital psiquiátrico onde um grupo de jovens parece estar sendo perseguido novamente por Kruger. Um aspecto muito presente nos rascunhos iniciais era a discussão das tendências suicidas que estes jovens apresentavam, porém o estúdio descartou essas ideias temendo que o assunto fosse muito tabu. Foi também um dos primeiros filmes da premiadíssima atriz Patricia Arquette. A banda Dokken também compôs e lançou a canção “Dream Warriors”, que foi um sucesso e ajudou a divulgar o filme. Englund ainda viria a interpretar o maníaco em mais cinco filmes, três sequências oficias que não tiveram metade da popularidade dos capítulos anteriores e dois filmes avulsos que iremos falar mais a frente.

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Em 1988, Freddy se cansou das telonas e invadiu a televisão: ganhou sua própria antologia de terror. O piloto foi dirigido por Tobe Hooper (que está por trás de clássicos do gênero como Poltergeist e O Massacre da Serra Elétrica) e cada episódio contava com uma introdução de Krueger. A série contou com duas temporadas e o pouco orçamento permitia que ela só contratasse atores desconhecidos. Porém, ela acabou revelando grandes nomes como Brad Pitt, Kyle Chandler, Mariska Hargitay e Morris Chestnut.

Em 1994, Craven retornava à franquia com O Novo Pesadelo. Lançado dez anos após o longa original, esse novo capítulo funcionava como encerramento e como homenagem aos personagens. A história traz o vilão como um personagem fictício que sai do mundo dos filmes e invade a realidade, perseguindo a atriz Heather Langenkamp (interpretando a si mesma) e também todo o elenco e a equipe responsável pelos filmes que o consagraram. Aqui, Freddy é menos cômico e muito mais sombrio e ameaçador, com mudanças no visual que o deixavam mais assustador e realista. Infelizmente, foi o maior fracasso da série, arrecadando 19 milhões de dólares contra um orçamento de 8 milhões de dólares.

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O vilão ainda enfrentaria outro ícone dos anos 80 em Freddy vs Jason. As duas maiores franquias de terror de maior sucesso da década, um crossover já era algo planejado pelas empresas e desejado pelos fãs anos antes do projeto finalmente ver a luz do dia. Na história, Freddy já não é mais capaz de assombras os sonhos dos adolescentes de Springwood, pois foi esquecido. No inferno, ele ressuscita Jason Vorhees e o manda em uma missão assassina para a cidade, para que os habitantes pensem que ele não está morto. Porém, não há vítimas o suficiente para os dois e logo Jason e Freddy entram em conflito. Ainda que a recepção seja bem mista, foi um sucesso financeiro, sendo até hoje a maior bilheteria das duas franquias envolvidas. Foi também a última performance de Englund como Krueger nos cinemas.

Em 2010, chegava aos cinemas uma refilmagem comandada por Samuel Bayer. A produção era da Platinum Dunes, a companhia de Michael Bay que também esteve por trás de remakes de outros clássicos como Massacre da Serra Elétrica e Sexta-Feira 13. O escolhido para substituir Robert Englund fora Jackie Earle Haley, cuja caracterização dependia apenas de CGI e não mais de maquiagem. Apesar dos bons números, o remake é essencialmente sem nenhuma identidade narrativa ou visual, mesmo tornando a história mais séria e pesada ao transformar Freddy Krueger em um pedófilo. O longa também foi responsável por quase fazer Rooney Mara, que interpreta a protagonista, desistir de atuar. Nenhum feito realmente interessante, com exceção de dar como encerrada a missão da Platinum Dunes de atualizar o terror oitentista em uma “versão MTV”, como foi muito comentado na época do primeiro lançamento.

Com a morte do mestre Craven em 2015, Pesadelo e outras franquias criadas por ele como Pânico não indicam nenhum novo capítulo em um futuro próximo. Ainda assim, isso não significa que não existam pessoas interessadas. Elijah Wood, através de sua produtora SpectreVision, já declarou ter tido conversas com os donos dos direitos. Mike Flanagan, que está por trás de A Maldição da Residência Hill para a Netflix, também demonstrou interesse em um possível projeto.

E aí, você acha que valeria a pena trazer Freddy para um novo público ou a série já deu o que tinha que dar? Deixa aí nos comentários.

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