Os demônios individuais em Batman: Cavaleiro Branco

Há algum tempo atrás, quando falamos sobre Batman: Cavaleiro Branco aqui no Senta Aío comentário vinha em torno do fato da história, que tinha acabado de começar a ser publicada, trazer uma desconstrução tão grande dos personagens. Ali, cada personalidade reconhecida instantaneamente pelo público de quaisquer herói ou vilão de Gotham City estava alterada. No decorrer dos acontecimentos, tudo parece ficar ainda mais claro para o público. O que vemos aqui parecem eles, mas na verdade são outras pessoas. São outras personas, personalidades dessa mesma moeda. Elas refletem os demônios individuais de cada um nesse universo. E é sobre isso que retrata Cavaleiro Branco.

Na trama, Batman aparece furioso, trazendo uma certa irracionalidade. Ele, ao perseguir qualquer ladrão possível, trata de maneira bruta, violenta, podendo até chegar ao fato de realmente matar. Em um desses encontros, com o Coringa, ele se vê muito próximo de assassinar o terrível vilão, reconhecido por ser uma faceta reversa do grande herói. Entretanto, ele acaba não realizando a ação, sofrendo as consequência do lado do antagonista. Coringa, sob a personalidade de Jack, resolve entrar em uma ação contra o Batman e promover uma vitória através da lei pelo lado dos vilões.

O roteiro de Sean Murphy é muito perspicaz em trazer diversos pequenos arcos intrínsecos ao principal. A relação paralela desse enfurecimento do homem-morcego, é atrelada ao estado de cama do seu mordomo Alfred. Esse, debilitado e sem forças para ajudar seu amigo, agora é renegado simplesmente a esperar o dia de sua morte. O grande problema é que Bruce Wayne já a enfrentou em outros momentos, inclusive na morte de seus pais, e agora não quer colocá-la de frente novamente. Toda essa questão paralela parece trazer pouco desenvolvimento a toda relação da moralidade presente aqui – trabalhada pelos intensos diálogos de Jack com Harley Quinn. Ele, contudo, é um motivacional para o protagonista entender a real perspectiva de toda essa situação.

Assim como o Wayne, Coringa também enfrenta seus próprios demônios. Interessante perceber como isso é trabalhado de forma reversa, ao ponto dessa problemática dele estar relacionada a fazer atos legalmente aceitos. Seu ar quase formal, aparentemente até bastante político (outra questão trabalhada no decorrer dos acontecimentos), o leva a uma carga de espiritualidade inesperada, quase aconchegante. É impressionante perceber alguns instantes na qual Jack quase tenha saído de um filme dos anos 40-50, tamanha sua elegância nas páginas. Seus demônios próprios a serem enfrentados são entender o porque de realizar suas ações truculentas e violentas, do porque de ser um vilão. Novamente, a moralidade entra em jogo.

Dentro desse preceito, a arte (também de Sean Murphy) também gera uma correlação muito apelativa e forte. Em alguns períodos, o soturno prevalece, quase como a noite da cidade engolisse as personalidades de cada um. As sombras no rosto durante algumas conversas também trazem esse ar meio medonho, algo quase intrínseco a eles na situação. Como dito anteriormente, todos estão sob domínio de seus males psicológicos na frente, sendo trazidos a tona em qualquer circunstância. Em outros períodos, contudo, essa relação parece muito mais conectada a um fator de tensão e emoção, aonde essa substância negativa sai de cena, para entrar uma suposta necessidade de viver nesse caos e medo. O traço sobressai bastante nessas horas, passando de uma leva estética, para uma rigidez até falhada.

Por fim, é impossível também não comentar a colorização feita por Matt Hollingsworth. Ele compõe um complemento perfeito a Murphy em trazer essa concepção meio lúdica e alucinada para dentro da obra, se contrapondo a uma realidade bastante visceral. A explosão de cores, como na sequência de ação no fim, traz um vislumbre meio bizarro e maluco, podendo até relembrar o longa Batman e Robin ou até a série dos anos 60. Entretanto, aqui não há espaço para uma brincadeira, apenas para a brutalidade das situações.

Ao fim, Batman: Cavaleiro Branco consegue de forma precisa discutir e diferenciar toda a cronologia e mítica de Gotham City e dos personagens relacionados ao Cavaleiro das Trevas. Apesar de seguir em um clima um tanto quanto questionável pelo ideal de ação nas edições finais, toda a narrativa sabe bem a forma com a qual busca entender essas figuras onipresentes ao bem e ao mal. O mais ‘feliz’ da parte de Sean é perceber, nas últimas páginas, como esses demônios internos nunca irão se afastar ou dar um tempo. Eles fazem parte dessas histórias e dessas vidas, fazem parte da relação de cada um nessa cidade. Fazem parte do bem do Batman e também do mal praticado pelo Coringa. Fazem parte de todos nós.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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