Os estereótipos da mulher forte no cinema e na TV

A prática de olhar para a mulher e seu estilo de vida a partir de óticas machistas não acontece apenas na vida real, mas também permeia o universo da cultura pop. Estamos acostumados a ver personagens femininas, na maioria dos casos sendo retratadas como frágeis, dependentes emocionalmente de um homem e quase sempre tendo papel secundário, não exercendo papéis que a protagonizem, de fato.

Para além disso, tem surgido também, na cinematografia, personagens mulheres com outra “vibe” que, apesar da boa intenção por parte de seus idealizadores, mais uma vez reforçam um estereótipo. Nesse caso, o modelo de mulher forte e independente sempre se trata de um combo que traz acompanhada a insensibilidade, a ausência de demonstração de sentimentos e emoção, a busca por um afastamento da feminilidade e um tipo de grosseria, que aparentemente a valida como apta para ambientes predominantemente masculinos. Apesar de, superficialmente apresentar melhora em comparação aos tipos de perfis femininos anteriores, apenas reforça que mulheres podem ocupar espaços de liderança e poder, mas apenas se suas posturas forem iguais às dos homens. Afirmar isso não significa que delicadeza, sensibilidade e emoção a tona sejam características que apenas as mulheres carreguem, mas sim que, por serem atributos apresentados por elas de um modo geral, não significa que devam ser apagados simplesmente por uma adequação ao sistema patriarcal.

Carol Danvers é uma personagem que traz um exemplo de como esse estereótipo não precisa ser reproduzido para que uma mulher seja forte. A capitã não tem nenhum traço que remete a feminilidade apagado. Acima de tudo, ela usa a própria história pra se manter motivada a conseguir alcançar os objetivos que sustentam o filme, o que a faz estar ligada a suas emoções. Mesmo assim, por toda a trama que lhe envolve, com certeza é uma personagem forte.

Brie Larson and Lashana Lynch in Captain Marvel (2019)

No mesmo sentido, um outro estereótipo tem sido formado acerca dessas mulheres, e ele paira sobre a área da sexualidade. Frequentemente se vê pessoas dizendo que mulheres fortes e independentes são lésbicas, como se a força fosse característica que não fizesse parte da narrativa da vida de uma mulher heterossexual. Tentam associar esse modo de ser a algo que foge do que é mais comum – pelo fato da maior parte das mulheres retratadas como personagens serem hétero -, quando, na verdade, ser uma mulher forte não está ligado a sexualidade diferente do que se é costumeiro ver.

Outra personagem que se destaca nesse sentido é a Shuri, de Pantera Negra. Mesmo sendo tão nova já tem uma bagagem de conhecimento enorme, o suficiente pra já ter sido confirmada como a personagem mais inteligente do universo MCU. Ao mesmo tempo na qual Shuri não tem características consideradas masculinas, também não atua na parte física das batalhas que fazem parte do longa. Nem mesmo sua sexualidade é uma questão em pauta no enredo. Seu papel faz parte da estratégia e tecnologia de Wakanda, que é um lugar completamente avançado e isso se deve em grande parte a todo desenvolvimento vindo dela. Essa é, então, símbolo significativo de força por ser à sua maneira e contribuir brava e notoriamente para algo grande.

Sobre a palavra “mulher” e “forte” na mesma frase, também é interessante o que disse a atriz Emilia Clarke, que interpreta Daenerys Targaryen em Game of Thrones. “Tire o ‘forte’ da frase, encontre outro adjetivo, droga. Eu estou apenas interpretando mulheres” ela diz, e usa como comparação os próprios homens. Quando nos referimos a personagens homens, apenas dizemos que ele é um personagem forte caso estivermos nos referindo ao seu porte físico, porque no que se refere a personalidade, subentendemos que seria um tipo de redundância dizer que um homem é forte. Na forma como descrevemos as mulheres é diferente, é como se houvesse outra opção, no caso, de mulheres fracas. “Você acha que a protagonista de um filme vai ser uma mulher fraca? Simplesmente não aguento essa conversa, então já chega com as ‘mulheres fortes’, por favor” Emilia reforça.

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Ainda em Game Of Thrones, temos o claro exemplo das irmãs Starks. Tanto Sansa quanto Arya passaram por grandes traumas e dificuldades, cada uma encontrou a melhor maneira de sobreviver. Mas, infelizmente, as protagonistas são vistas de modo diferente pelo público. Arya desde pequena nunca se interessou pelos assuntos femininos, garantindo facilmente a paixão do público, a personagem futuramente escolheu o caminho da violência e atualmente é uma das maiores assassinas da serie e, provavelmente, uma das mais queridas por todos que assistem. Já Sansa sempre sonhou em casar com um rei e nunca encostou numa espada, porém ela sozinha foi responsável por grandes feitos na série, se tornando uma incrível líder e estrategista. A protagonista não precisou abandonar seu vestido e suas jóias para salvar a vida do irmão na batalha contra os Bolton. Apesar dessas questões, infelizmente Sansa não tem o reconhecimento merecido pelo público, que sempre tem um crítica na ponta da língua em relação a sua participação.

Mais uma vez, o que a atriz Emilia diz a respeito de mulheres serem implicitamente fortes deve ser perpetuado no olhar sobre as mulheres a nossa volta e adequado às narrativas que incluam mulheres. Afinal, ser mulher, por si só já significa força. E não há qualquer esteriótipo capaz de alterar isso.

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