Os problemas do (de+o) Mecanismo

Talvez você tenha entrado nessa matéria pensando: qual a desse título? Esquisito, não é? Bom, construções de frases e ideias podem ser totalmente esquisitas e feitas por situações pouco normais (ou, como os personagens de “O Mecanismo” costumam dizer várias vezes, por “linhas tortas”). Sendo assim – quando tiradas de seu real contexto – elas se tornam outra situação, como se o anterior não houvesse existido. Esse talvez seja o resumo perfeito da nova série da Netflix, no qual foi falado acima. Criada por José Padilha e Elena Soarez, a mais nova produção nacional do canal de streaming será reconhecida não pela sua qualidade artística, mas pela sua falta com a verdade.

A desonestidade aqui é gigantesca e foge de um padrão de frases clichês como em obras hollywoodianas, aonde os protagonistas entoam seu patriotismo para todos os cantos – não que isso não aconteça aqui. Ok, por se tratar de uma obra teoricamente de ficção e teoricamente isenta com um viés ideológico, se pode pensar que a verdade é um compromisso longe de ser atingido aqui. O grande ponto são dois: o seriado se basear em um livro escrito que gera um endeusamento em cima da imagem do Juíz Sérgio Mouro (no qual cada final de capítulo mostra com perfeição) e a situação política brasileira atual. Não se pode jogar inverdades e citações fora de onde vieram e achar que seria aceitável, sendo que isso está definindo o futuro do país, é algo que irá ser falado mundialmente e também gera padrões de bem contra o mal. Falta algo mais palpável para a realidade e não inverdades jogadas em tela apenas para uma facilitação do roteiro, para tirar a necessidade de um desenvolvimento.

A grande maioria das produções chefiadas por Padilha possuem a dualidade extremamente aflorada e também as narrações. Em relação ao primeiro ponto, pode-se observar uma utilização constante disso aqui, como se não existissem camadas em nenhuma daquelas figuras representadas. Fato esse é tão negativo para dentro da linha narrativa que o melhor personagem apresentado é Roberto Ibrahim (realizado magistralmente por Enrique Díaz), que é um “vilão” caricaturado, mas possuindo traços que o tornam bem mais do que simples, gerando um domínio absoluto desse na trama. Toda vez que ele aparecia, era sempre um destaque a mais, aonde o público não poderia prever se seu lado mais inteligente, vilanesco ou paternal iria aflorar.

Sobre o segundo ponto, elas não encaixam bem com a série. Primeiramente devido ao fato de tentar gerar pequenos twists para os telespectadores de situações que são claramente previstas que irão acontecer. Além disso, a exposição atrapalha substancialmente o andar da história, já que quer explicar didaticamente os acontecimentos, sendo que eles são possíveis de ser observados apenas realmente assistindo as imagens. A narração também traz um outro problema de congruência narrativa, já que começa com Marco Ruffo (feito de maneira caricata por Selton Mello), vai por um pequeno momento para Verena Cardoni (interpretada pela incrível Caroline Abras), alterando também o ponto de vista da trama, e depois volta para o primeiro, mas sem modificar quem está na frente do enredo, o que cria uma confusão narrativa muito mal feita.

Não se pode deixar de comentar sobre a direção dos episódios, aonde parecem ser uma grande cópia do estilo também impregnado por José Padilha, só que de uma maneira ineficaz. Além de se contradizerem, os comandos dos capítulos parecem mostrar que a continuidade parecia um pouco perdida aqui – vide os dois últimos, aonde uma nova subtrama é adicionada e jogada sem sentido algum e sem um mínimo apreço estético por parte do diretor Daniel Rezende.

Apesar de tecnicamente e politicamente não funcionar, “O Mecanismo” ainda assim consegue entreter seu público de alguma forma. Com a edição extremamente dinâmica, algo ali parece que (bem no fundo) queria dar certo, mas acabou sendo interpelado. Mesmo assim, o seu lado de diversão não pode ser levado mais em conta do que sobre o real assunto que trata, porque esse, é mais sério do que se pensa.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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