Perspectivas e olhares sobre a opressão em Lorena

Mesmo que muitos tentem discordar, documentários sempre serão ideológicos e, portanto, parciais por natureza. Na realidade, histórias documentais pelo audiovisual, em literatura e outros, nunca serão também um retrato totalmente fiel dos fatos, mas sim uma representação. É como compartilhar com alguém a experiência de um sonho. Nunca será como realmente aconteceu, tendo diversas questões menores e alguns outros pensamentos desviantes sendo deixados de lado. Além disso, obviamente, o ponto de vista também se reflete de forma necessária, ao ponto que vemos o mundo através de nossos olhos, sob uma ótica pessoal, tornando assim impossível transportar a realidade na sua essência. Todas essas discussões corroboram para uma intensidade de lado em um documento audiovisual.

Em Lorena, assistimos a história de Lorena Bobbitt, uma mulher que, em uma dia qualquer, arranca o pênis de seu marido, John Wayne, em casa. Os relatos primários diziam que ela havia feito por não receber prazer de volta quando realizava atos sexuais com ele. Através de quatro episódios, acompanha-se o desenrolar do caso, o seu passado e o seu futuro. Essas tramas trazem à luz perspectivas e olhares sobre opressões da sociedade, pairando no ar até a atualidade.

Tematicamente, é possível observar o seriado sob a transformação temporal de diversos olhares pelo diretor Joshua Rofé. É interessante a maneira que a projeção dos fatos acontecem e jogam a tona novas questões a serem discutidas, aumentando assim um certo repertório da própria obra, mas também para com a história verdadeira. Rofé, todavia, deixa claro o lado quase pessoal ao abordar a “protagonista” do caso, buscando em diversas entrevistas com a própria, todo seu olhar perante a narrativa apresentada no julgamento pelos dois advogados. Em quesitos da própria investigação, é uma obra bastante compacta nisso, entendendo bem mais os pontos finais acontecidos (o episódio derradeiro, inclusive, se dedica de maneira um pouco mais elucidativa a isso) ao desenrolar da história do que propor tudo em torno disso.

O enfoque aqui vai mais em torno de como esse caso traz a tona os mais diversos debates sobre sexualidade feminina, violência doméstica e o papel da mulher na sociedade. Inicialmente, Lorena tem medo profundo de relatar os atos cometidos por John. Se temos um par casado, não seria possível também haver estupro sem o consentimento? A série se questiona. E, muito mais do que a linguística, essa exposição de questionamentos mais diretos também faz parte da forma abordada a isso. Os planos buscando sempre a mulher sozinha, seja anteriormente no tribunal ou nos dias de hoje dentro do carro. A solidão dela é baseada no simples fato de ter denunciado um ato criminal de seu cônjuge. Apesar de não abordar esse ponto, existe uma crassa demonstração do despreparo – na época – da justiça em lidar com o caso.

Ao buscar discussões sobre a própria feminilidade e essa posição sexual, existe ainda uma relação mais direta sobre os papeis dos gêneros sexualmente. O corte do pênis, órgão que, por si só, traz a ideia da virilidade masculina, provoca um tom cômico dentro dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, arrebatador. Logo no primeiro episódio se mostra um homem falando que, se fosse Wayne, provavelmente a mataria por tirar a coisa mais importante de sua vida. Os planos não mascaram nem um pouco isso ao demonstrar diretamente o pênis cortado. É uma certa até significação da quebra desse valor “másculo”.

Dentro disso, o papel da mídia acaba tornando-se fundamental para trazer o humor presente nas circunstâncias e achar maneiras de transpor todo o debate sobre a mulher em cima do homem. Boa parte da obra se dedica nesse ponto, ao mostrar programas falando recorrentemente e opiniões populares. Além disso, jornalistas também são abordados e entrevistados com o objetivo de relatar críticas e maneiras da própria cobertura em um caso como esse. Esse ponto vira tão relevante até se tornar a entrevista com o John na atualidade, sua não culpabilização sobre o caso e uma transformação de superação da sua virilidade. O mesmo, inclusive, chega a se tornar ator pornô e receber cobertura sobre uma cirurgia de reconstituição de pênis. A direção, diretamente, parece não revelar algo a mais sobre tudo, porém sempre traz na montagem um contraponto dos problemas causados a Lorena.

Lorena se dobra sobre importantes discussões dentro de um caso com as mais diversas elucidações sobre opressões dentro da sociedade. Além de sofrer como mulher, a mesma sofre como imigrante venezuelana e ao ser tratada em meios humorísticos, segundo a forma da série deixa claro. Existe sim um lado em entender uma nova e idealizar essa nova perspectiva sobre um tema ainda tão pouco seguro de ser discutido dentro do âmbito social. Como uma testemunha fala em depoimento, “ela cortou o instrumento que a torturava”. É uma conclamação ao fim do órgão sexual como objeto de tortura. E para que novas Lorenas surjam, afim de apenas buscar a felicidade.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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