Precisamos falar Sobre One Day At A Time

Cancelamento

Considerada parte da “holy trinity” das séries de comédia atual junto de Brooklyn Nine-Nine e The Good Place, os três programas são amados por terem um humor diferenciado, cheio de representatividade e crítica social. Ano passado, Brooklyn Nine-Nine foi cancelada pela FOX, mas houve uma comoção tão grande por parte da internet que a NBC resgatou a série. Não sabemos o motivo que levou a FOX a fazer isso, mas a sitcom está indo muito bem de audiência na casa nova. The Good Place também tem uma audiência positiva lá fora, além de ser transmitida pela Netflix. Agora em One Day At A Time o buraco é mais embaixo. O público devia ficar seguro já que é uma original Netflix, mas não é bem assim. Na segunda temporada ela já estava correndo risco de ser cancelada, mas mais uma vez as pessoas usaram a internet ao seu favor e a divulgação continuou a todo vapor por parte dos fãs. Ganhamos um terceiro ano, mas agora a sitcom voltou a ficar em risco.

Mas afinal, por que a maior produtora de séries no mundo não consegue emplacar mais de 3 ou 4 temporadas em suas produções? Raramente vemos um seriado que ultrapasse esses números, não é? É tanto conteúdo lançado de uma vez que muitos acabam passando batido e muitas séries incríveis não recebem uma divulgação decente por isso. É o caso de One Day At Time, seu humor engajado não foi o suficiente para atrair público lá fora. Sabemos que é um sucesso no Brasil já que todo ano o elenco nos agradece pelo apoio, mas infelizmente nossos números ainda não são o suficiente para o programa se manter.

História

A produção retrata a vida cotidiana de uma família cubano-americana. Acompanhamos a história de Penélope Alvarez, uma veterana do Corpo de Enfermagem do Exército dos Estados Unidos, enfrentando seu retorno à vida civil com muitos problemas não resolvidos de seu tempo no Exército. Com a ajuda de sua Mãe, Lydia, uma refugiada que deixou Cuba após a ascensão de Fidel Castro ao poder, ela está criando seus dois filhos: Elena e Alex.

Baseada em uma sitcom homônima que ficou no ar de 1975 a 1984, apesar de ser um remake, o tema central é outro e a família que antes era toda branca e composta por uma mãe recém divorciada e suas duas filhas adolescentes, hoje temos uma família de latinos e três gerações de mulheres independentes e autossuficientes. Mas afinal, qual a importância disso? De fato, o matriarcado em âmbitos familiares é um assunto recorrente em programas, mas One Day At Time apresenta de forma sutil, porque não foi uma pauta a ser levanta, é simplesmente a trama central, uma mãe solo criando seus filhos -que ela definitivamente não fez sozinha- e conseguindo simultaneamente lidar com seus problemas psicológicos e ter uma vida social e morosa fora do âmbito familiar.

Sexualidade e Gênero

Geralmente, a militância nos personagens se manifesta em um momento de desespero ou em personagens irritantes como algo cômico, que é o caso de Elena, mas isso não anula de maneira alguma sua tremenda importância na série. A adolescente tem o poder da argumentação, assim como nas atuais esferas familiares, a jovem é quem educa os parentes, conduzindo debates sobre problemas sociais e desconstruindo a família conservadora. O momento em que Elena se descobre é bem genuíno e com certeza inspirou muitos jovens que assistem, principalmente porque sua família agiu de maneira tão tranquila, traçando um caminho só de orgulho e aceitação para a garota.

Além de temas como machismo, sexismo, a protagonista também expõe a questão da identidade de gênero, afirmando que pessoas não-binárias existem e sempre se preocupando com qual pronome o outro se identifica, tema nunca abordado antes num seriado. Inclusive, na segunda temporada ela começa a namorar Syd, quem se identifica com o gênero neutro, portanto utiliza pronomes neutros (no inglês é usado o ‘they’ e em pt-br é utilizado o ‘e’ e o ‘u’ no final das palavras não neutras, por favor, nada de ‘x’, nada de todx e sim todes).

Então deixo aqui ressaltado o valor de existir uma personagem feminista, lésbica, latina e que possui coragem para lutar pelo que acredita em uma produção. Seus posicionamentos geralmente trazem as discussões mais relevantes.

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Saúde Mental

Penélope sofre de Transtorno de Estresse Pós-Traumático, devido seu tempo no exército, e de depressão. Na segunda temporada, no nono episódio, chamado ‘Hello, Penelope’ (que inclusive devia ter dado pelo menos uma indicação de melhor atriz no Emmy), a personagem decide imprudentemente abandonar os antidepressivos  e a terapia em grupo já que a sua vida estava nos eixos e tudo estava indo as mil maravilhas. Penelope então começa a ter uma crise depressiva profunda e o episódio inteiro é focado nos sintomas de como é viver com essa doença, mostrando de uma maneira tão real como nunca visto em um programa antes.  Na terceira temporada temos um episódio centrado na ansiedade e como ela se manifesta, muito bem descrito, esses alertas e conscientizações são tão importantes tanto para quem desconhece das doenças psicológicas tanto para quem passa por isso.

Em uma conversa com seu grupo e sua terapeuta, Penélope diz não querer contar para os filhos sobre suas doenças porque ela tem o peso de criar a família nas costas e eles precisam sentir que são criados por uma pessoa estável. Sua psicologa então responde ”Ter ansiedade e depressão não te torna instável”. Eu não consigo nem dizer em palavras o quanto é significativo termos uma série voltada para a família que aborde saúde mental.

Amém, One Day At A Time.

Estados Unidos

Nem tudo são flores nas produções que amamos. Apesar da família Alvarez demonstrar bastante o orgulho pela sua cultura e origem, eles constantemente se contradizem com um discurso anti-cuba, enaltecendo o imperialismo dos EUA e seu exército. É triste a propaganda vela do sonho americano, como se o Estado Americano fosse palco de liberdade e aceitação. As críticas ao Trump ocorrem, mas é como se a xenofobia e as dificuldades dos estrangeiros e refugiados no país tivessem surgido com a figura do atual presidente, sabemos que não é verdade. Porém, fazer o recorte é necessário, a criadora Gloria Kellett é filha de cubanos que foram para os Estados Unidos no episódio conhecido como Operação Pedro Pan (inclusive foi falado na série), êxodo de mais de dez mil crianças cubanas menores de idade e desacompanhadas. Podemos e devemos ter nossas críticas, mas também não podemos esquecer que é a realidade da showrunner e não nossa.

Aqui deixo meu apelo pessoal: não permitem que ela tenha um fim tão cedo, infelizmente ainda não há uma série tão didática e gratificante em suas suas representações, elas precisa se manter viva. A sitcom está disponível na Netflix, assista, aprecie e espalhe.

Comentários

Ana Barbosa

Estudante de Jornalismo, feminista e enaltecedora de mulheres na arte. Viciada em séries, principalmente em Doctor Who, compra mais livros do que consegue ler e não recusa um café. A típica canceriana que chora em todos os filmes que assiste, ou pelo menos quase todos.

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