RESENHA: Justiceiro – Primeira temporada

Chega na Netflix mais uma série Marvel. Com dois lançamentos por ano, a marca tem expandido seu nome pelo streaming. O Justiceiro veio para combinar com perfeitamente com essa parceria, já que fez felicidade de muitos fãs do herói nos quadrinhos e mesmo aqueles que só conhecem os filmes ou só ouviram falar do seu nome, todos estavam apreensivos.

A temporada tem início já algum tempo após o segunda ano de Demolidor. Frank Castle (Jon Bernthal) acredita ter se livrado de todos aqueles responsáveis pela morte de sua família e vive no anonimato, trabalhando como pedreiro com o nome de Pete Castiglione, um homem livre. Tudo muda quando David Lieberman, ex-analista da NSA e também perseguido pelo governo, entra em contato com ele, revelando importantes informações sobre seu passado que comprovam que sua caçada aos culpados pela tragédia pessoal ainda não acabou. O Justiceiro, então, retorna à ativa, querendo matar todos os criminosos envolvidos que destruíram sua vida.

Vale dizer que a série também possui um lado de se refletir sobre a realidade atual do mundo onde, há alguns anos, não tínhamos notícias quase diárias de atentados matando inocentes em cidades como hoje. Por isso a longa discussão sobre o armamento. Em lugares como os Estados Unidos, em algumas cidades, um cidadão pode portar uma arma de forma legal, deixando espaço para que se faça justiça com as próprias mãos, tirando a justiça das autoridades e trazendo para si próprio. Na série temos um arco à parte da linha principal, com o personagem chamado Lewis, ex-militar perturbado pelos horrores da guerra. O jovem se vê com um ódio enorme de si mesmo por não poder se livrar de seus demônios interiores e seus pesadelos. A construção desse personagem é de uma maneira totalmente particular, demonstrando o salto de qualidade narrativo que a Marvel tomou nessa, em relação as outra, já que não foi apenas um pequeno arco de uns 3 capítulos, mas sim algo construído desde do primeiro episódio da série até perto do fim.

O mais interessante sobre esse seriado está na forma como a linha narrativa foi montada e a carga pessoal perceptível do personagem é demonstrada. O thriller político de espionagem, que remete aos filmes de Jason Bourne, é mais do que simplesmente ter o personagem perseguindo e matando bandidos ou mafiosos em Nova York, das mais variadas formas. A verdade é que Justiceiro é uma obra que veio para incomodar, para deixar o público desconfortável como nunca anteriormente uma série Marvel/Netflix foi capaz de fazer, até o presente momento. Talvez seja pelo grafismo de sua violência exacerbada – que fazem filmes com faixa etária 18 anos de heróis como Logan e Deadpool parecerem animações da Disney -, mas muito mais por suas ideias fervorosas, sempre acompanhadas de questões para lá de polêmicas.

A descida espiral do já citado Lewis em uma subtrama é apenas um dos elementos que colaboram para que a série se destaque de uma forma a elevar padrões não tocados antes. É impossível não sentir a dor do personagem desse personagem e, ao mesmo tempo, situando-se na impotência de todos ao redor que tentam ajuda-lo sem êxito. Quando tudo que você ele quer é justiça, mas acaba por se tornar o vilão da história. Chega a ser de tirar o fôlego.

Karen Page (Deborah Ann Woll) aparece aqui cansada de ser alvo de bandidos e com a opção por andar armada. Ela cai exatamente no que a obra quis dizer sobre armamentismo.  A série mostra uma entrevista realizada por ela – já que agora é jornalista – com um político, que pede pelo desarmamento. O tópico da entrevista inclusive é este, mas quando o local é atacado, o tal político foge de medo, chegando ao cúmulo de jogar a mulher aos leões, que consegue ser salva, justamente devido ao uso da arma que carrega na bolsa.

Não menos importante, temos Billy Russo (Ben Barnes), que mostra simpatia e carisma ao esconder um monstro de seu personagem, ex-fuzileiro ao lado de Frank Castle, no Afeganistão. Era quase um tio para os filhos do protagonista e amado por sua família. Além dele, Dinah Madani (Amber Rose Revah) faz a policial idealista, americana de origem árabe, que descobre a corrupção do sistema em que está inserida. Sua trama vai em direção a Castle do início ao fim, enquanto que sua relação com Russo, que começa como uma zona de escape, vai se estreitando.

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Raphael De Souza

Graduado em Jornalismo pela FACHA. Lançou durante seu período de faculdade o livro “Costuras Poéticas de uma Vida Reaproveitada”. Chegou palestrar sobre a cultura asiática e seus desdobramentos, na área de Mídia da UFF – Faculdade Federal Fluminense e eventos do cunho oriental. Hoje trabalha como empresário, jornalista e nas horas vagas piloto de automobilismo. E ainda consegue arranjar espaço na sua agenda para séries, animes e tokusatsu e filmes. Defende o crescimento do gênero Tokusatsu no Brasil como forma de cultura.

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