REVISITANDO: La La Land: Cantando Estações

La La Land (La La Land: Cantando Estações) é um filme de comédia/drama/musical escrito e dirigido por Damien Chazelle e protagonizado por Emma Stone e Ryan Gosling. Recebendo 14 indicações ao Oscar incluindo Melhor Filme, faturou a maioria dos títulos de destaque como estatueta de Melhor Diretor e de Melhor Atriz. Em 7 categorias indicadas ao Globo de Ouro, venceu todas.

Sinopse: Ao chegar em Los Angeles o pianista de jazz Sebastian (Ryan Gosling) conhece a atriz iniciante Mia (Emma Stone) e os dois se apaixonam perdidamente. Em busca de oportunidades para suas carreiras na competitiva cidade, os jovens tentam fazer o relacionamento amoroso dar certo enquanto perseguem fama e sucesso. (IMDb/Rotten Tomatoes)


Depois de todo o clima de tensão e batalha, resolvi me render ao filme. Com a cabeça vazia com motivos de rechaça por musicais e discussões sobre favoritos em premiações, demos um veredito.

Damien Chazelle já tinha feito um ótimo trabalho em Whiplash (Whiplash: Em Busca da Perfeição), mas com uma conotação de filme que não me agrada nem com açúcar; a filosofia da obsessão musical vazia, um certo tipo de thriller onde a meritocracia é o mal feitor disso tudo, a brutalidade em forma de música (talvez o maior divisor de águas do filme, já que muitos o consideram um representante da música, e não do terror psicológico).

Em La La Land, nós vemos claramente uma tentativa de Damien de tornar essa filosofia (algo que ele obviamente se condiz) em um filme de fantasia que nos reduz a um tempo paralelo entre os anos 50 e os anos 2010.

Por que La La Land não é ruim? É muito simples

Ignorando todo o fator musical, é um filme de fantasia, e quando eu digo fantasia, me refiro a pura liberdade da história de vagar por vários tempos ao mesmo tempo com um ótimo visual pra todo esse suprassumo de homenagens (e que prêmio brilhante pra academia, hein?).

O ponto positivo, como já dito, não está no que mais chama a audiência ao filme, mas sim o que está bem lá dentro. Independente de ser uma bela dança técnica (altas referências técnicas de época no filme que por vezes até irritam por serem totalmente sem nexo e simplesmente feitas para padronizar o que o Chazelle queria passar como ”homenagem”), creio que no fundo há uma intenção maior de passar aquele determinismo que todo musical hollywoodiano nos contenta: dançar as dificuldades e ter um final feliz. Fica claro pro espectador que os dois personagens são mimados de seus próprios jeitos, e o mais interessante nessa dualidade é isso (por mais irônico que seja).

O que é um sonho de Los Angeles? Ficar no seu quarto tentando papéis de coadjuvante em séries teen? Elevar o seu xiitismo musical a ser escravo de suas obrigações que sempre falham por você ser fechado demais e mesmo passando dificuldades continua a ser idiota por ser sustentado pelos pais? Quando esse tipo de papel se inverte e personagens tão ”seguros” em vida se vêem em continuar perpetuando um padrão mesquinho de astro e um repentino sucesso de seus projetos apenas trabalhando com o que gosta… Isso é um final feliz? O que é um final feliz? Um musical retrata o que nós realmente passamos em vida? Cantar a uma miséria de sonhos em meio a uma indústria completamente injusta me parece até meio obscuro e original dentro de um filme tão… padrão. O que nos leva a pensar que muitos outros diretores poderiam fazer do filme uma coisa completamente diferente, cativante e profunda. Como seria se David Lynch fizesse um musical que remetesse a indústria dos ”sonhos”?

O que nos faz pensar que Chazelle é um bom diretor, mas um padrão roteirista. Nada do que ele fez impressiona ou tenta passar coisas além do que já tenhamos instalado em mente. La La Land tem dessas e, apesar de ser uma ”crítica social foda” como muitos dizem, é importante não deixar escapar esse tipo de pensamento. Tem o seu quê de ”humanidade”, apesar de visivelmente não estar querendo expressar isso.

Sobre o final e seus contras

Bom… Não como se fosse algo inovador, mas é no mínimo curioso. Chazelle não me deixou decepcionada e muito menos surpresa com nada que se passa nesse filme além dos planos sequência de dança, que são bem bonitos, mas bem vazios no final. O que acontece nesse mundo utópico entre os anos 50 e o mundo atual que fazem com que pessoas que foram tão ligadas mesmo que por muito tempo não voltem a se falar e cometam os mesmos pragmatismos que elas tinham tanto medo anteriormente? Fico imaginando ironicamente o que a falta de um WhatsApp ou até mesmo um SMS tão bobo faria de diferente nessa história, mas deixa bem óbvio que a falta de criatividade e a forçada escolha de dualidades finais foi um acrescento proposital do diretor pra deixar tudo mais visual, conceitual e bonito… Mas vazio e seco.

Importante acrescentar que a performance do Ryan Gosling no filme não tem nada mais do que ele performando ele mesmo com um caráter mais irritante, e isso dá uma luz que não é tão brilhante assim pra Emma Stone, apesar de sua performance musical ser realmente interessante. Na mente de um personagem que se torna caricato por achar o samba uma vulgarização do jazz, é no mínimo uma água morna do lado da interpretação de sua dupla.

Pensamentos após o filme foram exatos, onde deixa claro a obsessão momentânea do diretor por musicais antigos e utopicamente felizes fez com que uma rápida ideia de juntar uma realidade de indústria padrão (que permanece até hoje, por isso a escolha da fantasia como história é interessantíssima) com danças enfoque dignos de teatros clássicos não foi nada mais nada menos do que recortes de filmes antigos com uma estética visual atual, coisas que Chazelle pensou em pontos separados e só fez uma história seca no meio pra juntar seus planos puramente visuais.

3

Resumo

Parte dos problemas curiosos que os longas do diretor tem em comum é a ideia de dispersão de seu objetivo original. Whiplash, seu antecessor, é prezado por muitos como uma expressão de luta e garra de um jovem apaixonado por música. Pensar duas vezes em como Chazelle trata o jazz em seus longas me faz discordar com o que é tão imposto e interpretado em massa a seus trabalhos.

Mas, diferente da obsessão passada, La La Land também marca uma boa suposição em comum: Um thriller de junção entre a meritocracia, os finais felizes de clássicos da Broadway e a obsessão obsoleta. Seria esse o real objetivo? Creio que não.

Comentários

Clarissa Ferreira

Clarissa. Ou Setty. Carioca, estudante de jornalismo e aspirante a diretora. Montadora de playlists profissional, puxa saco de mulheres na arte em geral e satirista em tempo integral. Nerd pra umas coisas e punk pra outras.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *