Soundtrack – Uma reflexão sobre arte e ciência na neve

Dirigido pela dupla de diretores-enigma 300 ml, Soundtrack é um filme nacional que nos transporta a um ambiente polar para levantar questões de identidade, valor da arte e da ciência e como elas se complementam.

O maior trunfo do filme é trazer uma grata nova proposta ao cinema nacional: ser um filme brasileiro que acontece fora da realidade brasileira. Se passando no em um ambiente polar (na realidade um estúdio no Rio de Janeiro), Soundtrack é, em superfície, um filme sobre o cotidiano em uma base de pesquisa e as interações entre seus habitantes, tanto um com o outro quanto de si consigo mesmos.

Cris (Selton Mello) é um fotógrafo que chega a base com um projeto inusitado: tirar autorretratos na vastidão branca do local enquanto ouve diferentes músicas, que lhe causarão mudanças de humor e, depois, exibir essas fotos acompanhadas da trilha sonora que estava escutando no momento.

Os outro quatro habitantes da base, todos envolvidos em grandes projetos científicos, fazem pouco da efemeridade e inutilidade do projeto do fotógrafo, fazendo com que Cris tenha de entrar em uma dinâmica de troca de vivências e olhares com os cientistas para provar que a importância de sua arte vai além de seu ego.  

O filme é quase todo falado em inglês, exceto quando Cris conversa com o outro brasileiro da base, o botânico Cao (Seu Jorge), que funciona como o alívio cômico do filme, mas sem chegar a ser caricato ou escrachado.


Mark (Ralph Ineson, de A Bruxa), é o grande destaque do filme. De longe o ator mais a vontade (talvez por fazer um personagem em sua língua nativa), traz uma atuação emocionante e convincente como o tutor de Cris, sendo o que mais tem suas ações e diálogos afetados tanto por seu histórico racional e científico quanto pela nova experiência emocional e artística que Cris lhe propõe durante o filme.


Os diretores, também responsáveis pelo ótimo curta Tarantino’s Mind, fazem sua primeira empreitada em um longa-metragem de ritmo bastante lento, dada sua natureza contemplativa, que por vezes chega a fazer o filme ser arrastado, tornando-o denso em alguns momentos e maçante em outros, com alguns planos e diálogos que parecem dar em lugar nenhum, nos dando a impressão de serem rebarbas que poderiam ser aparadas. Para quem assistiu o filme, a “cena do banheiro” é talvez o maior exemplo disso.

Quando perguntado sobre sua preparação, para Soundtrack, Selton Mello disse que prefere confiar no despreparo, para não se sentir engessado, sendo assim, a relação que se construi entre ele e Ralph no filme espelhava a da vida real, foi um conhecimento e interação nova tanto para os personagens quanto para o ator. Porém, a barreira linguística se mostra acentuada algumas vezes na atuação de Selton, que, apesar de mais um bom trabalho na carreira, acaba não soando como um brasileiro falando inglês (apesar do sotaque), mas como algo completamente polido e não-natural.


Além da já citada ótima atuação de Ralph Ineson, temos outros dois pontos fortes: a fotografia, que para nível nacional está muito acima da média, com planos bem pensados, enquadramentos bonitos e, principalmente, explorando muito bem os recursos de ambientes internos e externos, e toda a equipe de efeitos visuais, sendo que o filme foi quase todo gravado em chroma key e a sensação de que o filme se passa em um ambiente polar é verdadeira.


Em resumo, é um bom filme, com um enredo que traz um bom início de discussão, mas que não se aprofunda em nenhum de seus aspectos, tirando muito do impacto do filme. Realmente existe o potencial, que o espectador fica ansioso para receber, mas como o que foi entregue foi algo (propositalmente) raso, a sensação final é de insatisfação. Mesmo assim, é um bom filme para se ver uma vez e estabelecer de vez que o cinema nacional consegue fugir dos temas-chavões e realidades repetidas, mesmo que para isso precise fazer nevar no Rio de Janeiro.

Soundtrack estreia dia 6 de julho em circuito nacional.
Confira o trailer:

Comentários

Alexandre Ferraz

Formado em audiovisual, apaixonado por cinema e música. Colecionador de games, baterista frustrado e provavelmente com sono no momento.

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