Tê Rex e a maneira correta de existir da comédia nerd

Há uma forma um tanto quanto taxativa ao falar sobre tirinhas. Desvalorizadas tanto pelo grande público quanto pela crítica, essa maneira de fazer quadrinhos demanda uma certa criatividade narrativa por parte do criador, precisando desenvolver muito em um espaço curtíssimo. Bom, essa proposta se mostra clara inclusive na apresentação de Tê Rex, uma coletânea de tiras publicada pela Editora AVEC sobre uma dinossauro nerd. Muito mais do que simplesmente uma protagonista, ela é também forte ao retratar de forma sempre severa os preconceitos sofridos por ser mulher e amante de livros e quadrinhos, além do fato de ser extremamente curiosa com o mundo a sua volta. Nesse formato enxuto, a reflexão por meio da diversão vira a peça chave da HQ.

O roteiro de Marcel Ibaldo explora questões cotidianas de maneira sempre objetiva, como se esses fatos acontecessem a qualquer um – a não ser pelo simples fato da protagonista ser uma dinossauro. As primeiras páginas se dedicam mais a um certo “desenvolvimento”, se é possível dizer isso. Aprendemos quem é a Tê Rex, sua maneira de pensar e agir, além de seu amor pelas histórias (a primeira tira já ilustra bem isso). Existe uma certa repetição em tramas que ressaltam sua paixão pela literatura, porém isso sempre se mostra relevante para entender o lado infantil imaginativo na qual ela possui e como essa sua força é uma maneira também de se assumir socialmente. Enquanto meninas possuem um papel social relacionado a cuidar da casa e de crianças, ela busca fugir do seu ambiente comum, algo que, por si só, já é uma gigantesca metáfora para padrões sociais.

Todavia, os momentos mais interessantes da obra são quando eles buscam uma sequência da história, transformando a simplicidade das tiras em uma forma de constituir uma continuidade sem necessariamente precisar ser uma. O “Planeta dos Humanos” surge, assim, de modo a construir essas críticas sociais e também brincar com a narrativas das tiras por elas mesmas. As críticas ficam por parte de chegar a uma terra aonde não se observa compaixão, carinho e cultua a brutalidade (isso urge bastante quando a personagem fala dos gritos de volta ditadura, relacionáveis a atual situação política do Brasil). Ibaldo, inclusive, parece rir de si mesmo na sua construção sequencial, formalizando pequenos acontecimentos dentro dessa magnitude.

A consolidação ideal dessa produção é fortalecida de vez pelos desenhos cartunescos de Marcelli Ibaldo. E, por favor, não digo isso de uma maneira pejorativa e sim necessária dentro do trabalho realizado, altamente lúdico e brincalhão sobre as temáticas abordadas. Chega a até haver um experimento na forma de dimensionar os quadros, as vezes criando imaginações dentro das próprias tramas, como nos momentos em que se quebra algum dos quadros para se fugir de um spoiler ou quando se entope de balões para demarcar um falatório. Diferente de um padrão sequencial de tirinhas, aqui esses elementos são fundamentais a idealizar e criar um DNA próprio da obra.

Dentro disso tudo, há um certo jeito de buscar esse quadrinho como uma tentativa de consolidar uma ideia de tiras tipo Mafalda – falando de política, cultura e sociedade com humor – nacional. Existe uma inspiração em trazer esse tipo de construção, sempre com os três quadros gerando universos e sentidos próprios. Definitivamente, se gera uma certa experiência, no meio de um período altamente criativo e imaginativo do Brasil na nona arte, trazendo novidades narrativas que esse tipo necessitava dentro do país.

Tê Rex estabelece uma tentativa bem sucedida de buscar algo novo para essa maneira de realizar HQ’s no país. Essa produção de Marcel e Marcelli Ibaldo estabelece a construção da piada também como crítica, o jeito de ser de cada um como formato de potencializar toda essa moralidade progressista presente no texto. As histórias formadas nesse meio transformam a edição por si mesma em algo maior, gerando uma diversão gradual a cada página. O problema é apenas lidar com o fato das 76 páginas acabarem rápido demais. A imaginação da personagem título gera tanta empatia por parte do leitor que a vontade de ir para sempre nesse(s) universo(s) não para nunca.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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