This Close e sua importante inclusão

Quantos personagens surdos você conhece?

Aposto que zero, talvez um, mas garanto que não passe disso. Esse tipo de representatividade nunca é discutida porque não faz parte do nosso dia-a-dia. Se nós não temos contato com essas pessoas e nem fazemos questão de nos comunicar com elas, como poderíamos pensar na representatividade delas, não é mesmo? Pois This Close vem pra discutir exatamente isso, como é difícil para pessoas surdas se adaptarem nesse mundo que não faz a mínima questão de incluí-las, mas também vai expor como essas pessoas vivem como eu e você, tendo corações partidos, dificuldades financeiras e brindando por uma conquista ao final do dia, mas principalmente: que elas existem.

O seriado gira em torno de Kate (Shoshannah Stern) e  Michael (Josh Feldman), que são surdos, tal qual os atores que interpretam os personagens. Kate é deficiente auditivadiferente de Michael que nasceu assim, ela ficou doente quando bebê, portanto consegue falar com uma certa dificuldade. Ambos precisam lidar com aqueles assuntos que uma boa dramédia adora, como trabalho, romance e família, e eles terão que sobreviver aos tempos difíceis que colocam sua amizade em risco.

Shoshannah Stern and Zach Gilford in This Close (2018)

Kate trabalha numa agencia publicitária há cinco anos e nunca teve um cliente, mas está batalhando muito para isso, afinal ela tem bastante potencial. Ela é divertida, otimista e muito alto astral, ao contrário de seu noivo Danny, que não se esforça em adquirir simpatia do público, já que vive pisando na bola. Danny não pratica e nem busca melhorar seu ASL (Amenican Sign Language) para ter uma melhor comunicação com Kate, inclusive, tem uma cena que retrata muito bem essa distancia entre o casal e também traz uma mensagem muito reflexiva. Esta situação acontece no feriado de ação de graças em que a família de Michael, sua mãe e irmão, vão jantar na casa de Kate e todos eles falam ASL. Jacob, o único que não é surdo, percebe que Danny não tem melhorado seus sinais, então o provoca contando uma historia entretida, mas que o noivo não é capaz de compreender e nem nós, pois é o único momento no programa que não há legendas, e pela primeira vez assistindo a série você se sente como Danny, excluído por não entender o que dizem, ou melhor, assim como ele, nós não procuramos nos comunicar com essas pessoas. E é imensamente reflexivo, porque se você parar para pensar, é exatamente assim que pessoas surdas se sentem o tempo todo: excluídas.

Michael é mais melancólico, talvez pelas crises que ele presenciou, com pais viciados, um noivado que chegou ao fim e o impasse que está enfrentando com a editora. Michael é extremamente talentoso, lançou uma revista em quadrinhos que fez grande sucesso, mas infelizmente estava no contrato com a editoria que deveria haver uma sequência, o que ele não esperava é que seria acertado com um bloqueio criativo. No meio de uma falta de inspiração que coloca sua carreira em risco, ele ainda precisará compreender seus sentimentos pelo seu ex-noivo, Ryan (sim, ele também é gay), que insiste em tê-lo de volta.

Colt Prattes in This Close (2018)

This Close é uma daquelas dramedias que se inclinam mais para o drama, a maravilhosa amizade dos protagonistas e a diferença de suas vidas e opiniões é a trama principal. Os episódios são bem curtinhos, em torno de 25 minutos, 0 que facilita uma maratona da primeira temporada toda de uma vez.  A única decepção da série é seu final com um cliffhanger desnecessário e clichê, mas que de maneira alguma deixa o seriado enfraquecido. Por mais que já estejamos familiarizados com a história que This Close apresenta, é raro acharmos algo contado com tanta delicadeza e preocupação. A representatividade e inclusão aqui são extremamente necessários para o funcionamento do enredo, eu tenho certeza que você vai ficar tão encantado que vai querer aprender ASL ou LIBRAS, e particularmente, essa é a coisa mais importante que a série desperta na gente.

Comentários

Ana Barbosa

Estudante de Jornalismo, feminista e enaltecedora de mulheres na arte. Viciada em séries, principalmente em Doctor Who, compra mais livros do que consegue ler e não recusa um café. A típica canceriana que chora em todos os filmes que assiste, ou pelo menos quase todos.

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