Crítica – Devs (Minissérie)

Em sua curta carreira como diretor, Alex Garland já demonstrou ter interesse em explorar grandes ideias, mas sempre em uma escala bem humana. Ex Machina discutiu questões como Inteligência Artificial e livre arbítrio de maneira intimista e reduzida. Mesmo que a escala de seu segundo filme, Aniquilação, seja maior, o que realmente move a narrativa é a vida interna das mulheres que formam o esquadrão e suas questões pessoais. Nesse sentido, Devs segue essa linha autoral, com problemas humanos sendo o motor para os questionamentos mais universais da série.

Na produção, o casal Lily (Sonoya Mizuno) e Sergei (Karl Glusman) são profissionais do ramo da informática que trabalham para a empresa Amaya – essa que é do ramo de tecnologia, comandada por Forest (Nick Offerman). Após mostrar para Forest um algoritmo capaz de prever o comportamento de seres biológicos, Sergei é convidado para participar do “Devs”, uma seção ultra secreta da empresa, no qual somente aqueles que trabalham diretamente lá sabem do que se trata. Ele nem ao menos poderá conversar com Lily sobre o que ocorre dentro de “Devs”. Só que, após seu primeiro dia de trabalho no novo setor, Sergei é encontrado morto, seu corpo incinerado por meio de uma aparente autoimolação. Lily, apesar do choque, imediatamente suspeita da situação, o que a coloca em rota de colisão com os “Devs” e em outras entidades interessadas nas atividades desse grupo tão misterioso.

Mas Devs não é um thriller conspiratório corporativo, nem procura construir uma aura de mistério sobre quais as tarefas do grupo titular. Isso porque, em paralelo a Lily desvendando os enigmas em volta da morte de Sergei, acompanhamos os próprios “Devs” e a sua verdadeira ocupação. Essa visa recriar o passado por meio de computação quântica, podendo mostrar com fidelidade a crucificação de Cristo, por exemplo. O problema, é claro, passa a ser quando isso é usado para olhar o futuro, levantando uma série de questões sobre aspectos fundamentais do nosso universo.

De um lado, uma mulher em busca de respostas. De outro, um grupo de pessoas buscando o impensável. Bastante material para preencher as 8 horas da minissérie e uma maneira de observarmos as diversas facetas daquele mundo, tanto de quem está por dentro de “Devs”, quanto por fora. Entretanto, apesar de Lily ser a protagonista da produção, essa divisão faz com que ela se torne coadjuvante em sua própria narrativa, já que os acontecimentos na sua parte da trama ou não tem grandes repercussões para a série como um todo, ou são coisas que a outra parte da trama já revelou. Isso é tão forte que há um episódio praticamente inteiro dedicado a explicar coisas a Lily que já foram reveladas. Não é a toa que os melhores venha logo depois deste.

 A própria protagonista é tratada de modo irregular ao longo do seriado, com cenas nos dizendo o quanto ela é inteligente, mas isso nunca é mostrado por meio das ações dela durante os acontecimentos. A falta de sua agência até poderia ser uma maneira de comentar sobre uma das grandes ideias da história – a discussão sobre livre arbítrio -, se o universo é determinista ou não, porém essas questões só vão fazer parte da jornada de Lily muito mais tarde.

Na verdade, muitas ideias são propostas ao longo dos capítulos como críticas ao modo como a sociedade endeusa os grandes empresários da tecnologia e como estes se vêem como grandes profetas do mundo, e até os impactos de redes sociais em nossa realidade. “Facebook destruiu a democracia” diz uma senadora no episódio 3, que está tentando fazer com que o governo tenha mais poder de supervisão sobre as atividades da empresa de Forest. Conflito esse interessante, contudo acaba sendo prontamente abandonado no fim do episódio. Isso é frequente em Devs, que constrói momentos interessantes, tanto temática quanto visualmente, mas isolados, ou puro filler, como uma sequência de um personagem secundário arrumando a casa.

Alex Garland criou a série após cansar de brigar por seus filmes, entretanto o grande problema da série é não saber como ocupar o seu tempo, e a narrativa se torna um tanto esparsa e sem energia. São curtos os momentos de brilhantismo. A sensação que fica é que tudo funcionaria melhor dentro de duas horas, no lugar de oito. Nesse caso, menos seria muito mais.

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