As 10 estreias cinematográficas mais promissoras

Quando pensamos em estreias no cinema, sempre temos um momento de primeiridade, como um sentido necessário. Cidadão Kane e Cães de Aluguel, mas é claro. Eraserhead e Acossado, por favor! Sem esquecer de Terra de Ninguém ou Os Incompreendidos, né. E pra não deixar o século atual pra trás, As Virgens Suicidas e Beleza Americana. Como um exercício claro, temos sempre nossas apostas do que já está marcado na história sem precisar de confirmação, só da aclamação popular. Nessa lista, reunimos nossas estreias favoritas de diretores de várias partes do mundo, mas que não são tão percebidos quando o assunto é o começo de carreira. Com suas singularidades, peculiaridades e seu olhar plural e ao mesmo tempo simplista de suas primeiras experiências, mudaram o cinema do seu jeito, e abriram portas para outros que um dia não serão mais tão novatos quanto.


  • Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha

Drama/Aventura/Crime/Faroeste, Brasil, 1964. (IMDb/Rotten Tomatoes)

Sendo o único representante brasileiro na lista, Glauber Rocha não faz por menos. Em sua estreia com Deus e o Diabo na Terra do Sol, seu trabalho impecável em unir a representação do sertão nordestino em volta do cristianismo, o latifúndio e a corrupção mediante classes é uma aula de reflexão aos mais instruídos cinéfilos de todo o mundo. Sendo o primeiro brasileiro a ser indicado a Cannes, Glauber não deixou seus valores de lado, virando um pioneiro do maior marco do cinema brasileiro, o Cinema Novo. Composto por diretores com um único intuito, fazer parte da sétima arte sem burocracia, seu movimento não acadêmico não faltava em poesia e verdade. Com seu primeiro olhar aos conflitos dogmáticos e políticos em um Brasil aberto a uma ditadura militar, sua audácia e conclusão fazem hoje um diretor indispensável a qualquer que prese pelo que o cinema desafia.


  • Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (Who’s Afraid of Virginia Woolf?), de Mike Nichols

Drama, Estados Unidos, 1966. (IMDb/Rotten Tomatoes)

Mike Nichols ainda era um jovem quando já se envolvia com sketchs de comédia. Começou seus estudos de métodos de atuação no começo dos anos 60, ganhando prêmios incluindo o Grammy de melhor álbum de comédia por seu show Uma Noite com Mike Nichols e Elaine May. Mas não foi até seu divórcio profissional com sua parceira de palco que Mike decidiu se dedicar a direção. Começando no teatro com muito prestígio, logo se dobrou ao cinema, levando o que mais conhecia: atuação, teatro e drama. Unindo o útil ao agradável, a Warner Bros Studios decide investir fazendo sua estreia no cinema com uma adaptação de uma peça. Quem Tem Medo de Virginia Woolf? é uma peça de autoria de Edward Albee, e junto a isso, um elenco já formado por dois dos atores mais cooptados da época, o casal Elizabeth Taylor e Richard Burton. Nichols, que tinha um apego pela direção de atores advindo do palco, tinha o grande papel de dirigir Taylor e Burton, recém casados na época depois de um relacionamento prévio bem conturbado. O resultado é não só uma como duas das maiores atuações do cinema mundial, advindo de um casal a beira de um ataque de nervos pré-divórcio nas telas. Sua relação com o jovem casal, o desequilíbrio da fofoca e da culpa e a maior síntese de qualquer relacionamento, a romantização, é o estopim entre o imaginário (o filme) e a vida real. Uma aula de simbolismo, drama e ambientação em um filme que se passa basicamente entre duas locações. Em outros olhares, um legado digno do que Orson Welles e Ingmar Bergman fariam, do teatro para o cinema.


  • O Lixo e o Sonho (Ratcatcher), de Lynne Ramsay

Drama, Reino Unido, 1999. (IMDb/Rotten Tomatoes)

Ambientado durante uma greve de lixeiros em Glasgow na Escócia, um menino tenta se ocupar envolta de sua situação social após se culpar pela morte de seu amigo. Essa é a básica premissa da estreia de Lynne Ramsay em longas, uma primorosa diretora que já mostrava seu poder visual em curtas como Gasman, de 1998. E sem tem uma coisa que Ramsay entende, isso é a infância. E a pobreza. Em suas variadas formas. Com um elenco exclusivamente formado por atores amadores com exceção do patriarca da família interpretado por Tommy Flanagan, as atuações mais secundárias dão um toque especial de sinceridade além das palavras. Com catarses visuais comuns que falam, sentimos na pele o que o jovem ator William Eadie (James) tenta lentamente nos construir em função de sua melancolia, raiva e frustração, levando a um final estritamente poético. O legado de Ramsay é algo a se guardar, visto em grandes telas com Precisamos Falar Sobre Kevin (2011), onde a pura delicadeza da infância encontra conflitos que nem o mais maduro adulto pode entender. A imensidão dos momentos silenciosos, a conexão mais humana que uma amizade faz, a falta de empatia em situações de conforto são só algumas das coisas mais primárias nas quais Ramsay nos dá em sinceridade pelos olhares da câmera.


  • La Pointe Courte, de Agnès Varda

Drama, França, 1955. (IMDb/Rotten Tomatoes)

A veterana do movimento Nouvelle Vague fez sua estreia após anos de experimentação com a fotografia. Sem nenhum conhecimento prévio sobre o audiovisual além de seus 20 filmes vistos, Agnès ficou determinada a escrever seu próprio longa, começando como um simples livro baseado nos dramas de William Faulkner. La Pointe Courte (sem tradução para o português) segue a história de um casal tentando lidar com seus problemas conjugais em uma pequena cidade de pescadores, que em contraste, também lida com seus próprios problemas de sobrevivência em coletivo. O resultado é o que muitos hoje consideram o grande inspirador do começo da nova onda do cinema francês, por sua linguagem cinematográfica precisa de emoções e dualidades, dando mão a influentes diretores e sua estética própria, advindo de seus outros dramas autorais e seus documentários intimistas.


  • O Balconista (Clerks), de Kevin Smith

Comédia, Estados Unidos, 1994. (IMDb/Rotten Tomatoes)

Depois de uma sessão do filme Slacker (1991) de Richard Linklater, o jovem estudante e na horas vagas produtor de programas de comédia Kevin Smith estaria determinado a fazer de seu sonho, uma realidade. Vendendo sua rara coleções de gibi para arrecadar dinheiro para a produção e usando a localização de seus antigos empregos, realizou O Balconista. O que tem de mais ordinariamente cômico do que sua própria vida? Essa é uma pergunta pertinente, mas não para um filme de comédia, até então. Seguindo a vida de dois melhores amigos que trabalham em uma locadora de vídeo e uma loja de conveniência a beira da estrada, o filme segue uma linha tênue entre o mais tedioso, revoltado, niilista e descontraído das vidas de americanos de classe média baixa tentando levar suas vidas lendo quadrinhos e invadindo velórios ilegalmente. Criando não só uma representação fiel e sinceramente cômica da juventude dos anos 90, seus personagens mais icônicos e que seguiriam em seus outros trabalhos, a dupla de nômades Jay (Jason Mewes) e Silent Bob (o próprio Kevin Smith), simboliza um marco no cinema independente e jovem-adulto que influencia gerações até os dias de hoje.


  • Sexo, Mentiras e Videotape (Sex, Lies, and Videotape), de Steven Soderbergh

Drama, Estados Unidos, 1989. (IMDb/Rotten Tomatoes)

Escrito em apenas 8 dias, o jovem diretor de videoclipes Steven Soderbergh revolucionou a importância dos filmes independentes do começo dos anos 90 ao conquistar o prêmio do juri de Cannes em 1989 com Sexo, Mentiras e Videotape. Após uma árdua pré-produção e uma mudança de elenco repentina, os atores compostos no filme, que já tinham um histórico de grandes telas, mostram um sentido vital em dramas contemporâneos na época. O filme acompanha a personagem de Andie MacDowell (Ann Bishop), uma mulher sexualmente frustrada, que descobre que seu marido (interpretado por Peter Gallagher) está a traindo com sua irmã mais nova (interpretada por Laura San Giacomo). Com a quebra de revelações e a visita de um distante amigo do marido (interpretado por James Spader), as consequências de se relativizar os fatos gera um ciclo de intrigas entre os casos, construindo um carrossel de sinceridade e sexualidade dignas de uma página de estudo psicanalítico.


  • Sweetie, de Jane Campion

Comédia/Drama, Austrália, 1989. (IMDb/Rotten Tomatoes)

Um coming-of-age contado as avessas, Sweetie é a estreia da cineasta Jane Campion ao cinema com um filme dedicado a sua irmã, e que mais tarde faria história como a única mulher ganhadora do prêmio do júri de Cannes por O Piano (1993). Seguindo os passos da isolada filha mais velha e suas inocentes promessas de destino, Kay (Karen Colston) é obrigada a se reconectar com sua família com a chegada inesperada de sua irmã caçula (Geneviève Lemon), na qual tem relações perturbadas com o passado. O filme reconstrói de modo simples e caótico as consequências que as relações com a família ditam durante a formação de caráter. A representação do feminino perante a sociedade é o ponto chave do filme, revivendo indesejáveis e ao mesmo tempo amorosos momentos de reaproximação de uma infância perdida e preconceitos fundados. Campion expõe de modo poético (reverente em seus filmes) como relações parentescas e cobranças exteriores podem afetar a vida de mulheres e suas pluralidades, por mais cruel que seja.


  • Primer, de Shane Carruth

Drama/Sci-Fi/Thriller, Estados Unidos, 2004. (IMDb/Rotten Tomatoes)

Shane Carruth já era um graduado em matemática e profissional de engenharia de softwares quando decidiu fazer seu primeiro filme. Trabalhando totalmente por si, ele dirigiu, editou, fotografou, atuou e compôs a trilha de seu homônimo Primer. A premissa do filme é simples, mas seu composto é denso. Baseando todo o seu conhecimento matemático e físico, Carruth brinca com o que seria o mais perto de uma viagem no tempo, caso acontecesse num futuro próximo e obviamente ausente de efeitos fantasiosos de computação gráfica. O filme segue dois amigos engenheiros, que trabalham com forças eletromagnéticas em improviso em sua garagem. Um dia, percebem que medindo o peso de objetos, conseguem manipular o tempo presente. Partindo do ponto inicial até o seu tenso final, o uso de jargões matemáticos e o peso de uma descoberta marcam a importância de novas visões independentes em adaptações realisticamente ficcionais, principalmente na ficção científica.


  • Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich), de Spike Jonze

Comédia/Drama/Fantasia, Estados Unidos, 1999. (IMDb/Rotten Tomatoes)

Spike Jonze já tinha sua fama por dirigir videoclipes de bandas alternativas, fazer curtas sobre skate (ele próprio era um deles) e namorar a Sofia Coppola. Mas não tinha nada mais promissor do que ser produzido por Michael Stipe para fazer seu primeiro longa junto ao (até então) não tão conhecido roteirista Charlie Kaufman. Entrar na mente de uma pessoa é uma ideia um tanto quanto subversiva. Ainda mais quando é especificamente o ator John Malkovich. E é basicamente isso. Com uma pitada bem incomum de ficção científica, um humor plenamente sarcástico beirando ao pior dos pessimismos, confusões de gênero e um senso megalomaníaco de invasão de identidade, privacidade e fama, Quero Ser John Malkovich é uma das fantasias mais promissoras e únicas dos últimos tempos.


  • Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine), de Jonathan Dayton e Valerie Faris

Comédia/Drama, Estados Unidos, 2006. (IMDb/Rotten Tomatoes)

Seguindo a mesma linha de diretores de videoclipes, o casal Jonathan Dayton e Valerie Faris deixaram sua marca na indústria antes de prepararem seu longa. Por consequência de seus contatos com a indústria musical, conseguiram a produção e apoio para execução do projeto. Inicialmente um filme de estrada, seguimos uma família desequilibrada em busca de realizar o sonho de sua filha em se apresentar em um concurso de talentos logo se desvai com o falecimento de seu avô durante a viagem. Com departiras de melancolia, niilismo, depressão, confusão, irresponsabilidade, inocência e determinação, Pequena Miss Sunshine é uma comédia dramática que une perfeitamente o drama cotidiano com os prazeres simples da vida sem deixar nenhum resquício de cliché.

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Clarissa Ferreira

Clarissa. Ou Setty. Carioca, estudante de jornalismo e aspirante a diretora. Montadora de playlists profissional, puxa saco de mulheres na arte em geral e satirista em tempo integral. Nerd pra umas coisas e punk pra outras.

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