Crítica – Lupin (Parte 1)

Histórias de ladrões e detetives super inteligentes sempre intrigam os aficionados por boas histórias. O caso mais famoso é realmente do maior detetive de todos: Sherlock Holmes. Sua versão seriada para a BBC, que foi finalizada há alguns anos, fez extremo sucesso por misturar o lado mais instigante da inteligência do personagem, ao mesmo tempo que em uma abordagem jovial, que trazia uma ideia de linguagem para o meio do audiovisual – algo que foi difícil ser feito com o personagem anteriormente. Agora, há uma busca por revitalizar outro grande ícone da literatura de detetive, porém dessa vez sem um lado tão “positivo”: Arsène Lupin, protagonista dos clássicos livros de Maurice Leblanc.

Nessa primeira parte de Lupin, contendo 5 episódios, acompanhamos a trajetória de Assene Diop (Omar Sy), um homem que trabalha, teoricamente, como faxineiro no Louvre e precisa pagar uma dívida com um bandido grande de Paris. Para conseguir isso, ele gera um grande roubo de uma joia extremamente valiosa que vai para leilão, pertencente à famosa família Pellegrini. A grande questão é que o artefato e essa família estão mais conectados do que parecem com a vida do homem.

A produção tem um olhar bem claro de buscar ser uma narrativa sempre divertida. É por isso que, ao fim do capítulo inicial, ao entendermos verdadeiramente toda a história e o plano do protagonista, o seriado muda um pouco de figura. O programa torna-se menos dramaticamente estável para levantar elementos de suspense mais claramente. Nesse sentido, há até referências na forma de dirigir sequências mais simples e tensas feitas em filmes como Missão: Impossível, por exemplo. Todavia, o que Lupin está realmente buscando é nunca deixar nada claro, nem para o telespectador, nem para os personagens que irão conviver junto de Diop. Tudo é extremamente volátil, com espaço para diferentes pensamentos e formas sobre como cada um dos acontecimentos vai se desenrolar.

Mesmo assim, em certos instantes é um pouco complicado como a série quer se mostrar sempre “espertinha”, usando e abusando da exposição. Até rememora bem tudo feito em Sherlock, da BBC, ao finalizar a resolução de todos os acontecimentos. A sorte para o telespectador é que isso, normalmente, acaba sendo bem curto, abrindo vias para construção de um protagonista sempre complexo. Ao mesmo tempo que a história tem uma evolução gradual óbvia, que se transforma basicamente em um homem contra um Império de controle, também possui diversas tramas que são abertas e fechadas em cada um dos episódios, o que dá quase uma ideia capitular, de livro à narrativa.

É interessante a forma que os diretores trabalham os elementos de trazer toda essa ideia presente em Arsène Lupin para uma contemporaneidade. Enquanto a produção inglesa busca quase um anacronismo para trabalhar os seus personagens, aqui há uma busca maior em quase tentar entender como estariam essas personas em um mundo extremamente mais complexo. Assim, temas como racismo, xenofobia, divisão de classes e até o desenvolvimento das mídias sociais são debatidos. Em alguns momentos, certas coisas ficam parecendo um pouco simplistas demais, o que não abre espaço para a narrativa ganhar em complexidade. Porém, acima de tudo, a formalização do elemento de um mundo diverso abre espaço para diferentes maneiras de ver a série.

O início de Lupin, com os 5 episódios primordiais, abrem espaço para um seriado que ainda pode ter muito o que se desenvolver. Contudo, é necessário entender que existe um objetivo bem claro dentro da ideia de Diop e que, assim que esses acontecimentos sejam resolvidos, é necessário encerrar a história. Caso a equipe da produção francesa entenda isso, podemos ter claramente uma obra que vai abrir rumos de novas narrativas como essa sendo contadas – como o caso de Sherlock, contado anteriormente. E espaço para contos de detetive em um mundo cada vez mais sério no audiovisual, talvez faça um pouco de sentido.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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