Crítica – Sérgio

Todo filme biográfico encara o mesmo dilema: Como encapsular uma vida inteira em duas horas ou menos? Geralmente, o resultado é uma compilação de “Melhores Momentos” da vida do biografado, enquanto outros escolhem períodos chave da trajetória do personagem para definí-lo enquanto pessoa. Sérgio, nova produção original da Netflix, é bem ciente desse problema, o reconhecendo já nos letreiros iniciais, quando Sérgio (Wagner Moura), ao se preparar para um vídeo institucional da ONU, fala para alguém “você sabe que não posso resumir 34 anos em três minutos”, em seguida perguntando “mas acho que é para ser mais…inspirador, certo?”. Nesse exato momento, o título do filme aparece.

Assim, o filme do diretor Greg Barker inicia sua missão de inspirar os espectadores por meio da vida de Sérgio Vieira de Mello, diplomata brasileiro que exerceu o cargo de  Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos até ser morto em um atentado à bomba no Iraque. Antes disso, ele trabalhou em diversas missões da ONU, sempre procurando a paz, ou seja, poucas vidas são tão inspiradoras quanto esta. Não é a primeira vez que Barker retrata a vida de Vieira no cinema, tendo dirigido um documentário de mesmo nome em 2009, que cumpre mais o papel informativo.

O longa se estrutura a partir de flashbacks enquanto Sérgio aguarda resgate nos escombros do prédio bombardeado. O grande foco é a negociação pela independência do Timor Leste, em 2002, uma das grandes conquistas do diplomata. Nessas sequências, Barker consegue estabelecer bem os motivos de Sérgio ser tão querido, e se preocupa em demonstrar o bom profissional que era, invés de simplesmente contar que os espectadores saibam quem é a pessoa. Assim, ele constrói momentos muito tocantes a partir das habilidades de Vieira, como a cena em que conversa com uma senhora tecelã sobre o que ela mais deseja na vida. A familiaridade de Barker com a vida de Sérgio fica evidente nesses momentos, já que, em poucos minutos, ele consegue encapsular o que o tornava tão especial.

Dessa forma, é difícil compreender porque a produção divide o foco desses momentos com uma trama romântica, em que o protagonista se apaixona por Carolina Larriera, papel de Ana de Armas. A relação entre os dois é até bem estabelecida, mas, além de perturbar o ritmo do filme, se apoia em clichês toscos, como um beijo caloroso na chuva -que ocorre absolutamente sem contexto – ou uma prolongada cena de sexo que parece ter vindo diretamente de outra produção. Há um quê de Terrence Mallick nesses momentos, com seus ares solares e baixa profundidade de campo, que destoam de todo resto, que tem um estilo mais objetivo.

Sérgio é um filme bem intencionado, evidentemente, mas não consegue alcançar muito bem o seu objetivo de ser inspirador, já que o seu grande foco emocional não está nos feitos históricos do protagonista, porém sim nos seus atos de amor. Talvez se a libertação de 400 mil refugiados tivesse recebido tanta atenção da narrativa quanto a primeira transa do casal, teríamos um trabalho que melhor representa um dos diplomatas mais importantes do século 21, pena que esse não é o caso.

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