Crítica – Doutor Estranho no Multiverso da Loucura

Assim que foi feito o anúncio de que Sam Raimi dirigiria o novo filme do Doutor Estranho, o universo ficou curioso com o que apareceria pela frente. Será que veríamos alguma coisa que tem realmente o DNA do cineasta, especialmente no terror, como a trilogia Homem-Aranha dos anos 2000, ou seria apenas o chamariz de um grande nome do cinema mundial? Anteriormente, quando nomes como o dele acabavam envolvidos, eram demitidos ou saíam por “diferenças criativas”. Mas Raimi se manteve. E conseguiu, até certo ponto, imprimir sua perspectiva e visão da sétima arte dentro da produção.

Isso porque Doutor Estranho no Multiverso da Loucura até pode ter ecos de um horror, ou até mesmo em elementos de gore incomuns para a própria Marvel, só que ainda está preso a certas amarras narrativas um tanto quanto cansativas. Desse jeito, ele se vê necessário em ser uma continuação, mas, ao mesmo tempo, um preparativo para o que o MCU trará nos próximos projetos, deixando de lado o que mais consegue explorar: a visualidade. Raimi consegue explorar as possibilidades dramáticas e da encenação apenas pelo visual, seja no caráter mais psicodélico da coisa (como no uso de uma droga) ou no lado mais divertido (toda a sequência do Doutor Zumbi).

Para acompanhar essa história, conhecemos a personagem America Chavez (Xochitl Gomez). Ela é uma viajante temporal e multidimensional, ou seja, pode atravessar os multiversos sem maiores dificuldades. O problema? Ela não controla quando e como as viagens ocorrem, nem aonde irão parar. Por isso, é perseguida por Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen), transtornada após perceber que não conseguirá a felicidade no planeta Terra. Por isso, ela precisa ter o controle dos caminhos pelos universos, podendo, assim, ter uma vida feliz com os filhos que nunca existiram. Nessa jornada, no entanto, acaba precisando enfrentar o Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch), que passa pelas dimensões atrás de respostas para derrotar a Feiticeira Escarlate.

Como dito anteriormente, fica bem claro a forma que a Marvel coloca sua imposição dentro da trama: é preciso que tudo esteja interligado. Dessa maneira, fica bem claro como o filme infla com diversas histórias paralelas e aparições especiais de personagens que, no fim das contas, são vazias. Apesar do imenso destaque, elas nunca parecem ser realmente bem consolidadas. Isso se junta ao fato de que os próprios protagonistas acabam ou esquecidos, ou renegados a serem pouco aprofundados. Talvez America seja o principal disso tudo, visto que tem apenas uma cena muito rápida para tentar tratar de sua gigantesca importância nos acontecimentos. O mesmo vale para Christine (Rachel McAdams), que só parece ter importância na vida do Doutor quando convém.

Assim, resta ao telespectador se divertir com o aspecto que é explorado em partes: o horror e todas as brincadeiras visuais. Se estamos falando de viagens, é fundamental que esse ponto seja bem trabalhado. Acima de tudo, que pareça estimulante. E, enquanto nas outras produções, a Marvel sempre tratou isso de um jeito mais sórdido, Raimi abraça a diversão e estímulos onipresentes por ali. Toda a construção da magia de Wanda, por exemplo, tem um lado bem baseado no terror dos estúdios Hammer, dos anos 1970. Ao mesmo tempo que a sanguinolência e as perseguições têm um forte tracejo recorrente do diretor – com alguns jumpscares inclusos -, o caminhar de Wanda machucada é um capítulo a parte.

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura pode até soar interessante para os grandes fãs da editora de quadrinhos nas telonas, só que sempre está renegando o próprio potencial de desenvolvimento. Ao final, parece que o próximo que realmente trará qualquer desenvolvimento dramático ou algo a ser realmente explorado. Desse jeito, sobram as migalhas para o público tentar comer. Pelo menos, diferente de muitos dos recentes projetos no MCU, essas migalhas tem um gostinho especial, soltas por alguém que sabe o que está fazendo com uma câmera.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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