Entrevista A Filha do Caos

Uma das estreias do cinema nacional no Festival do Rio 2022, A Filha do Caos é um filme complexo tanto nas suas temáticas, quanto na sua forma. É um longa que retrata as angústias e dificuldades da vida de uma mulher. Isso tudo expressado por uma atriz (Bruna Spínola) que irá interpretar Jocasta em uma montagem da peça Édipo ReiSó que Maria começa a vivenciar uma experiência mística, que a leva a repensar todos os conceitos sobre maternidade e feminilidade.

O Senta Aí conversou com Bruna e Juan Posada, diretor e escritor do roteiro junto com a atriz:

Cláudio Gabriel – Vocês dois escreveram o roteiro juntos. Então, queria começar perguntando como surgiu a ideia do filme?

Bruna Spíndola – Acho que a ideia embrionária do filme veio de uma busca minha de fazer um trabalho diferente como atriz, que me colocasse em outro lugar. Eu tinha vontade de fazer coisas mais densas, de tocar em questões que me despertassem alguma coisa além. Ai eu já tinha conhecido o Juan em outro trabalho e começamos a estabelecer uma relação por aí. E nesses sets a gente começou a conversar, eu levei essa ideia para ele. Assim, ele trouxe uma enxurrada de boas ideias e fomos encontrando um caminho para essa parceria.

Juan Posada – O filme nasce do desejo comum de realizar ele. A Bruna tinha essa ideia dessa personagem, dessa atriz em crise. E eu então peguei imagens, procurei coisas e acho que isso foi o ponto de partida para esse trabalho.

CG – Quais as maiores dificuldades de escrever um longa que não é tão literário e sim mais imagético?

BS – Eu acho que realmente é um filme diferente. Ele conta a história muito através de imagens e sensações. Claro que tínhamos um roteio, e partimos também de uma escolha bem específica sobre essa mulher. Isso tanto na hora de filmar, como na montagem. O objetivo era trazer a desorientação da personagem, tentar colocar o telespectador dentro da cabeça dela. De alguma maneira, a gente tentou usar os recursos a nosso favor.

JP – Ele é um filme pré-figurativo e desfigurativo. Ele não é um filme figurativo, como poderia ser um cinema realista. Está dentro da tradição neoexpressionista. A força simbólica da imagem é mais importante que qualquer coisa dentro dele, um conjunto de encarnações. E a Bruna encarna toda essa dinâmica.

CG – Como que a ideia do Édipo Rei apareceu dentro da narrativa? Estava desde o começo?

JP – Sim, desde o começo. É uma atriz se preparando para estrelar o papel da Jocasta, e o filme então dá voz a uma personagem que na tragédia é muda (ou não tem voz). Todo o filme seria a voz da Jocasta que ela não teve na peça original, que é apenas a voz do protagonista, o Édipo.

BS – Se a gente trouxer para nossa realidade, quantas mulheres não são caladas? Quantos mulheres não tem voz? Tem uma tentativa de dar voz para a mulher de um modo geral. Da possibilidade dela expressar suas angústias, suas questões.

CG – O filme fala muito fortemente desse aspecto do feminino. Qual a maior dificuldade de produzir algo neste sentido como homem, Juan?

JP – O filme trata da questão da questão feminina e da maternidade. E nós somos filhos. Então a minha relação enquanto filho de tentar compreender certas questões, como o que é o feminino e o que é a maternidade. Meu investimento por aí, através da relação de filho é que eu tentei imaginar o que uma mãe faria, como ela viveria as dores da perda do seu filho.

BS – Eu acho que isso é muito complexo porque quando eu fiz o filme eu não era mãe. E eu virei mãe, e mais do que virar mãe, eu perdi um filho. Esse filme ganhou tantos significados diferentes para mim depois disso. Toda sua percepção de mundo, de tudo, ela muda. Foi importante também as gravações que fizemos nesse ano e eu me coloquei em outro lugar, de alguém que já passou por essa experiência.

CG – Bruna, como foi para você fazer a preparação dessa personagem? Ainda mais que ela também é uma atriz em preparação para uma outra personagem.

BS – É um processo esquizofrênico (risos). Esse filme é um dos maiores desafios que eu já tive. Porque como eu conseguiria deixar tudo dessa personagem e voltar para casa? Foi um processo muito desafiador. Meu trabalho foi muito de dar voz não apenas dessa mulher, mas de outras muitas mulheres. Eu peguei muitas histórias de mulheres, de amigas, cunhadas, filhas e mais. Eu peguei histórias desde perder filhos até abusos e isso me deu muita força para produzir isso. Acho muito importante o serviço que a gente faz fazendo isso. E, claro, é um processo de muita angústia. Você fica com uma vontade de resolver, de mudar o mundo.

CG – E, dentro disso, até interessante como tudo isso causa tensão, né? Quase como um suspense.

JP – É, eu diria que ele é um filme de mistério, não de suspense. E é um filme que vai se revelando, porque muitas coisas e aparições elas se dão ao longo da trama. As várias camadas de realidade elas dialogam e, em certo momento, você não sabe o que é real, onírico, divino, delirante, o jogo cênico. Isso vai criando um mistério. Especialmente do que está por vir.

CG – E qual a expectativa de vocês para as pessoas assistirem ao filme?

BS – Eu estou muito ansiosa. Espero que ele gere reflexão, não apenas nas mulheres, mas também nos homens que convivem com elas. A minha vontade é conseguir instigar, de alguma forma, as pessoas que vão assistir. A pessoa gostando ou não, mas se em algum lugar eu consegui mexer com algo, ficarei satisfeita porque é o que eu busco.

JP – É um filme que eu espero que seja acolhido pelas pessoas, consiga estabelecer algo com o público. Porque o filme também é uma proposta de cinema, também é radical na sua proposta. E acho que, nesse sentido até, abre a possibilidade que se discuta as formas que o cinema pode assumir. Gostaria muito que o filme fosse visto como parte de uma certa tradição do cinema nacional.

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Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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