Crítica – Colômbia era Nossa

Em 2016, um acordo de paz chamou atenção ao mundo inteiro. Após muitos anos de conflitos armados, que resultaram em muitas mortes, as Farc e o governo colombiano fizeram “as pazes”, prometendo evitar mais mortes, em compensação dando um espaço maior para o partido guerrilheiro dentro do parlamento do país. O presidente da Colômbia a época, Juan Manuel Santos, ganhou até um Nobel da Paz pela ação, que foi tratada com grande apreço por todo o mundo. Apesar disso, alguns anos depois, as Farc não chegaram a desistir dessa pacificação, porém retomaram a luta armada em diversos pontos do país. Isso por uma reação ainda muito forte do governo perante a esses grupos.

Através desse clima de grande incerteza, os cineastas Jenni Kivistö e Jussi Rastas investigam a realidade presente em A Colômbia era Nossa. No documentário, vão até o encontro de diversos guerrilheiros entender um pouco dos porques da retomada desse confronto, do mesmo modo que traçando uma linha paralela a todas essas mudanças que o país passou nesse pouquíssimo tempo. O principal desses personagens é Ernesto, que quer levar uma vida pacífica, mas esse objetivo é dificultado por inimigos: um político de direita e um descendente de conquistadores espanhóis, que querem livrar a Colômbia dos guerrilheiros das Farc.

A obra deixa bem claro que possui sim um ponto de vista, mas tem a intenção de buscar um recorte de toda a região. O lado mais ouvido e buscado dentro do longa – que até encerra em uma frase emblemática nisso – é dos guerrilheiros, especialmente nesse confronto ao capitalismo. Há até planos que os diretores exageram um pouco em uma encenação que busca os tratar como heróis de guerra. O lado contrário debatido, perpassa muito mais pelas críticas do que propriamente as Farc. Não que seja um problema a produção ter esse lado assumido, porém isso dificuldade a ideia primordial da investigação desse mundo novo. Como se ele só pendesse para um lado.

Apesar disso, quando Colômbia era Nossa tenta trazer um embate dentro da pergunta “o que mudou?” é aonde encontra seus momentos mais fortalecidos. Em uma das cenas, por exemplo, vemos uma filmagem de um conflito do exército e da guerrilha. Toda a sequência, que parece filmada com uma câmera de celular, acaba em morte de ambos os lados, parecendo quase ter sido algo do passado, antes do acordo de paz. Todavia, a surpresa acontece quando um dos homens diz “é isso que fazem os vencedores do Nobel?”, referenciando o ex-presidente Santos. Aquele sofrimento, que parecia ter passado, continua como algo constante dentro do país, onipresente em todas as relações.

O problema é como isso acontece muito pouco. Parecemos estar diante de um filme que não sabe até quanto quer relamente ir atrás de um desenvolvimento das histórias particulares dessa guerra – em uma analogia que até rememora Notícias de uma Guerra Particular -, porém que acaba também querendo buscar esse escopo geral de como teria ficado o país. Existe uma certa tratativa, em alguns instantes, de fazer um meio termo desse mundo novo que se formou.

Acima de tudo, falta definir um foco para buscar um retrato de um confronto que perdura ad eternum. Em Colômbia era Nossa vemos o lado das Farc de uma guerra que parece que nunca irá terminar, causando mais tristeza e morte. Apesar desses elementos, para o documentário, o principal ponto é como o capitalismo acaba sendo o grande reverberador disso tudo, responsável por essa realidade acontecer. Mesmo assim, falta argumentos tácitos para realmente defender esse lado, visto que a obra também está buscando reconhecer a particularidade dos confrontos dentro dessa ideia geral. Obviamente não é nada fácil resumir uma mudança e continuidade política de um país em um filme de pouco tempo. O que Jenni Kivistö e Jussi Rastas tentam poderia ser até interessante, se assumissem algo no meio de todo esse caminho.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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