Ilha dos Cachorros mostra um outro lado de Wes Anderson

Wes Anderson é um diretor extremamente metodológico em todos os seus trabalhos. Porém, quando enviesou para o lado da animação com O Fantástico Sr. Raposo, trouxe uma carga diferente, um lado infantil, que se aprimorou em projetos seguintes, como Moonrise Kingdom.

Chegando em 2018, o cineasta volta a trabalhar em um projeto animado e, novamente, em stop-motion. Ilha dos Cachorros é a demonstração clara de que, quando se conhece e sabe o que se busca em alguma obra, se pode fazer os maiores detalhes serem os maiores acertos.

A inocência presente na filmografia de Wes Anderson

O filme tem uma história simples e bem direta. O menino Atari mora na cidade de Megasaki e vive sob tutela do atual e corrupto prefeito, Kobayashi. Ele aprova uma lei que manda todos os cachorros residentes dentro do lugar a serem jogados em uma ilha que serve de dejetos de lixo por parte da população. O motivo? Esses animais estão com uma doença que pode ser transmitida para os humanos. Porém, o garoto resolve ir em uma aventura para essa localidade vizinha, aonde vai em busca de achar seu fiel amigo e o trazer de volta.

O elenco de voz do longa é algo a parte. Bryan Cranston, Jeff Goldblum, Greta Gerwig, Scarlett Johansson, Yoko Ono, Edward Norton, Tilda Swinton, Ken Watanabe, entre muitos outros. Claro que algumas são facilmente perceptíveis, entretanto o trabalho de entrar dentro de cada um dos personagens é feito de uma maneira magistral por parte de todos. Aquela identificação de algum astro conhecido é feita por apenas alguns minutos, já que o telespectador consegue imergir dentro da viagem, sem se importar quem está por trás.

Isso tudo se corrobora com a incrível tecnologia usada para fazer frame por frame. A produção é algo que consegue brincar e tornar absurdamente real alguns personagens que, de longe, parecem realmente não existirem.

Um dos principais destaques nesse quesito fica, do mesmo modo, para a pelagem de cada um dos cachorros presentes na linha narrativa. O movimento de cada um dos pelos é feito, algo que só faz o público pensar no final da sua duração ‘que dificuldade que deve ter dado’.

Esse comprometimento com uma realidade fantasiosa adentra muito forte na filmografia de Anderson, que vem trabalhando muito com isso. Fato é que essa discussão presente aqui – de uma maneira intrínseca e não realmente falada – cria um diálogo fortíssimo com outros trabalhos do diretor, que parece não inovar no que está fazendo, porém trazendo novidades para antigos debates.

A trilha sonora de Alexander Desplat complementa esse tom fora do plano comum. Se ele já havia feito algo próximo em A Forma da Água, o compositor, aqui, traz batidas clássicas de tambores japoneses, o que se funde a uma composição sem muito brilho. Dessa maneira a tensão vai se fortalecendo por essa maneira de contar a sua história por elementos musicais.

O roteiro, do próprio Wes, possui momentos de extremo brilhantismo em sua discussão extremamente atual sobre imigração e preconceito. Claro que não é feito de uma maneira bem mais direta, senão poderia nem se vender comercialmente, mas é trabalhado dentro de uma trama que sabe muito bem os caminhos que vai percorrer.

Todavia, é aqui que também habita a falha principal da produção: a lenta transição de acontecimentos do segundo para o terceiro ato. A quantidade de sequências que parecem se repetir e alguns flashbacks, ainda que necessários, trazem uma carga negativa de falta da continuidade. Não existe um momento claro aonde o público é levado para a conclusão da narrativa, mas ele acaba acontecendo de uma maneira muito colada com os acontecimentos desenvolvimento na metade de sua duração, o que torna cansativo.

Ilha dos Cachorros não chega a ser o melhor trabalho do diretor, mas consegue muito bem realizar uma história muito divertida e, de certa forma, original. As homenagens a cultura japonesa e seu jeito de contar os fatos, fazem com que a obra traga alguns sorrisos e, até, lágrimas em mais um grande projeto desse, que é um dos melhores realizadores de cinema da geração atual.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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