O trágico fim de House of Cards

Existia uma certa expectativa em torno da temporada derradeira de House of Cards, produção inicial da Netflix que alavancou o sucesso de prêmios do canal de streaming. A decisão de manter apenas 8 episódios e uma reformulação na obra (com regravações) para esse último ano, vieram devido às diversas denúncias surgidas ante Kevin Spacey, o protagonista da série. Com isso – salientando a tendência dos anos anteriores – o destaque da vez foi para a esposa de Francis, Claire Underwood (Robin Wright) e sua empreitada na presidência americana.

Uma das poucas, apesar de frequentes, reclamações que o seriado recebeia era a falta de um backstory para os personagens. É seguro dizer que essas preces foram atendidas, já que esse elemento é um grande foco da nova temporada. É complicado dizer se existe realmente algum fio condutor durante os capítulos, porém os flashbacks e o conflito constante com a família Shepherd, principalmente Annette (Diane Lane), formam um arco quase linear da trama. A partir disso, o desenvolvimento da narrativa gira em torno de algo do passado trazido para o presente, o que poderia até funcionar, mas é encaminhado de uma forma extremamente vulgar. Não há em nenhum momento uma tentativa de entender como isso poderia ser feito, são simplesmente repetições de cenas conflituosas geradoras de situações até vergonhosas (vide a cena entre as duas no episódio final).

Além disso, existem dois outros caminhos importantes relacionados a figura do anterior presidente, Francis Underwood (Kevin Spacey). A primeira é a também conflituosa relação de Claire com Doug Stamper (Michael Kelly), o assessor pessoal e braço direito do ex-presidente. Essa dinâmica é até bem trabalhada no decorrer da história, sempre entendida como um ressentimento de Stamper. Ele, ao mesmo tempo que parece não aceitar a morte de seu antigo chefe, não consegue entender todo o sentimento presente na atual. Os primeiros capítulos, por sinal, trabalham até um certo lado psicológico de sua figura, marcada por uma serventia àquela família, e trazendo uma conexão maior com esse renegado personagem. Já a segunda é a própria sombra de Francis pairando em Claire, trazendo uma carga de suspense sobre a morte do personagem, além de um sentido social. Sobre o suspense, ocorre um certo trabalho bem pouco desenvolvido, com algumas quebras de quarta parede da protagonista falando sobre o fato, mas nunca o explicitando (mostrado de forma bem exemplificada em uma das cenas iniciais). A questão social acaba sendo analisada de maneira mais coesa, quase como relatando um onipresente machismo estrutural. Não é algo intrínseco ao entendimento desse sexto ano, entretanto traz alguns momentos até reflexivos sobre o papel feminino em campos políticos, como nas nomeações para o secretariado da presidente.

Com esses três campos em mente poderia ser gerado alguma narrativa bem entrelaçada, fazendo quase um estudo de personagem sobre o merecimento da cadeira da presidência dos Estados Unidos. Todavia, é aí que mora o principal problema de todo o ano final: a repetição e a falta de conexão. Parece não haver nunca um fio a ser seguido, quase tornando cada parte um conjunto de sequências filmadas e não necessariamente um episódio. Com esse desleixo, a superficialidade impera no desenvolvimento desses personagens, sejam antigos ou novos. Alguns anteriores e cheios de importância parecem totalmente renegados aqui, não tendo bem seu fim digno, como no caso de Janine Skorsky (Constance Zimmer) e Viktor Petrov (Lars Mikkelsen). Não parece realmente haver sentido em tudo trabalhado para finalizar um seriado tão aclamado em anos antecedentes.

A sexta temporada de House of Cards se mostra como a pior de toda a série. Mesmo tentando explorar além em alguns campos específicos, a trama parece sempre jogada ao acaso, buscando um sentido e uma linha a ser seguida.  É impossível não falar da falta que faz também uma conexão maior com a audiência e o lado político, deixados de lado para um caminho mais “novelão” (não me entendam a mal), falando sobre amor e amizade. Faltava para a obra um fim digno. Algo que, infelizmente, nem seus personagens tiveram.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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