Os contemporâneos de Chihiro e Totoro

O Studio Ghibli, produtora de animações japonesas liderada pelo diretor Hayao Miyazaki, é um dos maiores símbolos do cinema dos últimos anos, quebrando barreiras de pré-conceitos culturais (sendo um símbolo do cinema asiático mundo afora) e artísticos (se afirmando jus a análise crítica com seu conteúdo animado). Como toda aspiração artística tem seu começo, podemos aqui citar que a influência do trabalho não apenas de Miyazaki mas também de seus parceiros, são influências emergente do que nós presenciamos no cinema atual, sendo ele feito sob forma de animação ou não. Mas como toda inspiração, o caminho também se faz o contrário. Nos primórdios de toda concepção artística, temos sempre o discernimento, ou seja, a capacidade de compreender situações, separando o certo e o errado. Experiências pessoais que também são ligadas a conexões artísticas advindas de outros trabalhos que nasceram do mesmo princípio e assim por diante. O Studio Ghibli não está ausente disso, muito pelo contrário. E ele nunca fez questão de estar ausente, em primeiro lugar.

De literaturas que hoje são óbvias base para qualquer história de teor filosófico-fantástico como, por exemplo, a presença de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll em trabalhos como A Viagem de Chihiro. Além disso existem relações mais óbvias, como seus conterrâneos padrinhos mangakás Ozamu Tezuka (na qual contém também trabalhos de direção cinematográfica como Cleopatra, de 1970) e até pequenos contos japoneses de herança milenar, Ghibli nunca se restringiu quando a narrativa é dar um passo a mais ao que os levou até ali em primeiro lugar, e adaptações diretas de trabalhos literários de sucesso são exemplos disso: O Serviço de Entregas da Kiki (dirigido por Miyazaki em 1989) é adaptação de um livro de autoria da escritora de literatura juvenil Eiko Kadono, e O Túmulo dos Vagalumes (dirigido por Isao Takahata em 1988), adaptação de uma obra semi-biográfica de mesmo nome do romancista Akiyuki Nosaka. Adaptações ocidentais também tem seu lugar: O Castelo Animado (dirigido por Miyazaki em 2004) é originalmente um livro de fantasia jovem-adulta escrita pela premiada novelista inglesa Diana Wynne Jones. Isso além de Contos de Terramar (dirigido pelo filho de Miyazaki, Goro Miyazaki, em 2006), adaptação da série de livros de fantasia da renomada autora e ativista americana Ursula K. Le Guin.

Sabemos que a literatura tem seu destaque lugar, mas não podemos faltar com o cinema. Miyazaki tem a fama de ser muito discreto em tudo que pontua, porém seu amor pela sétima arte é clara em cada detalhe de suas obras. Filmes têm suas inspirações e trabalhos mais autorais marcam uma categoria específica, que tornam a obra como um próprio meio. É o caso de A Mudança (dirigido por Shinji Sômai, de 1993) e Um Verão na Casa do Vovô (dirigido por Hou Hsiao-hsien, de 1984). Falaremos como esses dois longas em particular são tão importantes para o que hoje nós conhecemos notavelmente como as obras-primas de Hayao Miyazaki, responsáveis por alavancar a história do seu estúdio para sempre: A Viagem de Chihiro (2001) e Meu Amigo Totoro (1988).

Falar sobre o Ghibli é falar sobre fantasia. Mas também sobre família, amadurecimento, mudanças, sejam elas físicas, sociais, geográficas, morais. De uma perspectiva adulta, refletir sobre tais questões em um universo cercado pela mente de uma criança parece muito inocente, beirando uma ingenuidade. Só que é aí que o estúdio demonstra sua potência e o porque é motivo de um carinho tão abrangente, indo de crianças até idosos. Com o advento do elemento fantástico para elevar a narrativa infantil a um progresso, produções como Totoro descartam a banalização de presenças inconscientes como algo maligno ou negativo a criança. Assim, ao guiar o espectador a lições tão concretas como qualquer estudo filosófico, torna suas características audiovisuais únicas. No caso de A Viagem de Chihiro, onde contém a presença de figuras com pesos mais sombrios como fantasmas e animais amaldiçoados, servem de alegoria mais uma vez pra desmistificar e lidar de um jeito criativamente próprio os conflitos morais e até mesmo sexuais mais sofisticados. A relação e adaptação de adulto/criança fica sob nuvens.

AVISO: Esse artigo contém leves spoilers. Se você ainda não conferiu a nenhum dos filmes citados e se importa com certas revelações, volte aqui depois de assisti-los!


A Mudança (1993)

A Mudança é um filme japonês lançado em 1993 baseado no livro infantil Ohikkoshi (publicado em 1990), de Hiko Tanaka. O longa foi adaptado por Satoshi Okonogi e Satoko Okudera, sendo dirigido por Shinji Sômai.

Sinopse: No meio do divórcio de seus pais, uma menina se vê obrigada a negociar o seu amadurecimento.

Sômai era um influente diretor em seu país, tendo feitos distintas obras como o neo-noir Love Hotel e o genial filme dramático adolescente Typhoon Club, ambos de 1985. Satoko Okudera é uma premiada roteirista, que continuara a contribuir com trabalhos notáveis no cinema como o roteiro da animação Wolf Chilfren e até mesmo a adaptação em live-action de O Serviço de Entregas da Kiki, de 2014. Sua atriz até então mirim Tomoko Tabata, anos mais tarde trabalharia na dublagem do incrível filme (e último trabalho de Isao Takahata antes de sua morte) de Ghibli, O Conto da Princesa Kaguya, de 2013.

 

Um Verão na Casa do Vovô (1984)

Um Verão na Casa do Vovô é um filme taiwanês lançado em 1984, baseado em memórias infantis da roteirista Chu T’ien-wen. A obra foi escrita por Chu T’ien-wen e Hou Hsiao-hsien e dirigida pelo segundo.

Sinopse: Um menino e sua irmã mais nova vão passar a temporada de verão na casa de seu avô devido a hospitalização de sua mãe.

Hsiao-hsien é um influente diretor em seu país afora, sendo um dos pioneiros de um dos mais importantes movimentos cinematográficos, o Novo Cinema Tailandês, elaborado junto a seus amigos íntimos e também colaboradores Edward Yang e Chen Kunhou. Chu T’ien-wen, roteirista do filme, é uma premiada roteirista e regular colaboradora do diretor desde o começo de sua carreira, tendo escrito a maioria de seus trabalhos.


Crianças, adultos e a moralidade na mesa

Usar de elementos fantásticos para narrar problemas morais em ambientes construídos em volta de experiências primárias a uma criança é um elemento narrativo já clichê, especialmente na literatura. Transpor e usufruir disso de um jeito que não seja superficialmente repetitivo é um diferencial. Como em A Viagem de Chihiro, a menina principal de A Mudança está no meio de um embate moral que seus próprios pais deixaram ela a mercê. O divórcio dos dois parece ter sido um acordo, mas depende da maturidade da própria filha de arcar com as pontas deixadas pelo desleixo emocional dos pais, na qual se manifesta de maneira quase infantil. Eles acabam revertendo os papéis denominantes.

A Viagem de Chihiro (2001)

Em Chihiro, momentos como esse são simbolizados literalmente por animais. Os pais agem como irracionais, se atacam indiretamente através de gestos brutais como comer e dançar afim de ignorar o fardo de suas escolhas. Eles ainda agem como uma criança ao ser confrontados com responsabilidades.

A Mudança (1993)

A mesa de jantar, pilar do diálogo familiar, fica obsoleta ao descontentamento da criança que, ali, não se transpôs em se forçar a um ato de junção artificial. Mesmo assim, a incompreensão entre pais e filha progride – e a falta de comunicação entre os dois lados gera consequências.

A viagem (da maturidade)

Essa prisão de incomunicabilidade faz com que a criança busque, de alguma forma e em algum lugar, uma compreensão. Em qualquer ambiente que esteja aberto o suficiente para lhe dar isso. Numa caminhada solitária, buscar o acalanto de outros é assustador, pois o desconhecido está estritamente ligado a sua proteção que só os seus pais te dão. Mas como ciclo natural, a maturidade é tão inerte quanto a mais ingênua imaturidade que advém daquela grande curiosidade que nós temos desde pequenos de conhecer as coisas, e quebrar essa seguridade que sua mãe e seu pai te dão é um processo importante pra nossa independência.

O desespero de ter se perdido da mãe no mercado não nos impede de explorar lugares adiante. O imerso desejo de se desvincular das figuras paternas por um momento, principalmente de conflito, muitas vezes nos empurra para a coragem que faltava pra ultrapassar  nossas próprias barreiras de ingenuidade, que, afinal, são implantadas por eles mesmos.

Em Um Verão na Casa do Vovô (1984), é a rejeição do irmão mais velho que encoraja a protagonista a se deslocar por conta própria, ato que mais tarde gera conflitos.

E é na ingenuidade que nossas concepções se confundem. Carregamos pré-conceitos dos nossos pais conosco, e a constante avaliação de manter uma inocência, ao mesmo tempo que cobrando maturidade, faz com que, nesses conflitos, quebremos de vez com uma personalidade forçada, chegando quase que forçadamente (e concretizado num ato de rebeldia), a nossa própria independência.

Miyazaki, nesse entorno, sabe bem empatizar com o seu lado lado criança. Tanto em Totoro quanto em Chihiro, apesar das protagonistas de algum modo se perderem, elas eventualmente se acham. Não só pela ajuda que recebem, mas por tudo que, no seu ato de explorar, ensinou a ela compreender.

Em Meu Amigo Totoro (1986), Mei, sozinha e sem a atenção que busca do pai, resolve explorar os arredores por si própria. Sua ação causa consequências, mas também trás aprendizados.

Tradição, o velho e a compreensão do novo

Cena do filme A Mudança (1993), onde Renko, após uma noite solitária, testemunha uma visão do que seria seu desejo sendo eventualmente queimado como o final de um evento tradicional.

A presença de ambientações onde o geograficamente moderno encontra o culturalmente histórico no universo Ghibli, é inseparável. A cultura oriental tem um apreço muito grande por rituais milenares, e a crescência da população mais jovem dita o que é realmente revelante ou não. Como em qualquer parte do mundo, o apreço pelos valores conservadores transformando a  família como instituição e seus locais como sagrados são plurais, mas emergem numa mesma causa. A preservação tem seus prós e seus contras, só que no meio disso tudo, a adaptação de novos meios de se pensar e corresponder a concepções estruturalmente “intocáveis” como a família ou a espiritualidade é a par das novas gerações.

Cena do filme A Mudança (1993). A protagonista, perdida de seus pais, se vê em plena conexão com um pai e uma filha solitariamente isolados.

Entre a superação do que fez parte de uma cultura por tanto tempo (e na verdade ainda faz, infelizmente) com que relações entre pais e filhos se tornem incorrigíveis está também a intervenção de quem já passou por isso. Os idosos, por exemplo, são muitas vezes tratados como um tipo de criança, onde a ingenuidade faz sua mente regredir. O contato sincero entre duas gerações tão diferentes que estão dispostas a aprender mesmo sendo “muito novo” ou “muito velho” é um reflexo positivo e ideal, que é alcançado justamente por seu simples desejo de ser ouvido e compreendido. Onde tem um velho solitário, tem uma criança afim de aprender. A tradição encontra sua repaginação.

A Viagem de Chihiro (2001)

A compreensão como ato de empatia

Quebrar as barreiras da tradição não implica só em questões religiosas, mas também morais. Querendo ou não, nós somos resultado de uma somatória de temores dos nossos pais e, junto com eles, toda a bagagem do que nunca foi intrinsecamente poupado vem junto. O fator da super proteção nos impede de progredirmos e é resultado de um temor de que nós nos desvirtuamos do que eles mesmos acham, mas nessa junção também estamos a par de, por esse embate, questionarmos o por quê. Dentro disso tudo, indiretamente temos a camada mais cruel de todas, e essa seria o repúdio: a incompreensão. O senso que temos é que as crianças, por serem mais “ingênuas”, não se pré dispõem de entender tal coisa e/ou pessoa seria de algum modo prejudicial. Isso, de plurais maneiras, tem seus lados positivos e negativos.

Cena do filme Um Verão na Casa do Vovô (1984). A andarilha carrega Ting-ting nos braços até a porta da casa de seu avô.

No caso de Um Verão na Casa do Vovô, a sucinta compaixão da andarilha pela pequena Ting-ting, tão repugnada pelos moradores (e os parentes dos protagonistas incluso), literalmente salva a sua vida. As consequências disso, porém, não mudam nem um pouco sua visão perante aos outros. Na verdade, só o se solidifica. O irmão mais velho, que tanto tomou uma posição precipitada justamente por seguir o tipo de conduta cruel que seus parentes dão a mulher, é o único ali que foi disposto a entender ela, por pura confiança da sua irmã perante ela.

E é nesse tipo de gesto que em obras como Totoro, a demonstração de afeto, advinda de um lapso “inocente” da criança, parece abranger de forma humilde uma empatia que se reavaliarmos hoje, na sociedade, faltamos em persistir.

Meu Amigo Totoro (1986)

Esse tipo de visão positiva da inocência é parte de um brilho consciente de que positivismo não é ruim, e a universalidade de momentos tão preciosos como a infância, suas descobertas, suas perdas e seus jeitos de encontrar uma solução ou saída, não precisam ser regojizados como algo bobo ou banal. Parte disso é justamente a magia da imaginação.

Um Verão na Casa do Vovô (1984)

Nosso inconsciente é como nossa primeira avaliação de mundo, beirando inerentemente a espaços onde nossa família e relações sociais são pautadas. Em Meu Amigo Totoro, basta a simpatia de uma força da floresta que carrega um guarda-chuva. Em Um Verão na Casa do Vovô, basta o apreço de uma moça que carrega um guarda-chuva. Você não precisa do apoio de outros, de verdade. Só basta você acreditar.

A beleza da inocência e a sua efervescente busca pela compreensão (e desconstrução) de um mundo é algo intrinsecamente bonito. Longas como A Mudança, onde uma jornada dentro de sua pré adolescência pode ser caótica. Porém, é aonde, na sua caminhada do dever de amadurecer, trás o melhor de tudo que a inocência já superou e a maturidade faz o seu papel na hora de conservar.

A Mudança (1993)

Em A Viagem de Chihiro, a pré adolescência tem o mesmo peso. Nem sempre a mesma jornada, todavia o mesmo sentimento. O túnel entre a inocência e a maturidade pode conter experiências na qual que você talvez não mais entenda, mas jamais esquece. O sentimento nostálgico que a infância carrega é quase como uma viagem mística do inconsciente. É um sentimento bom na qual você sente que passou por aquilo que, apesar de não ter direito de ter como experienciar de novo, de alguma forma lembra exatamente como foi o sentimento. Um senso de conforto, de uma desconstrução de melancolia futura que é, como um todo, um conforto a ser carregado na vida.

A Viagem de Chihiro (2001)

Conexões filosóficas e estruturais são a base de toda a formação da sétima arte, e o Studio Ghibli não fica de fora disso. De histórias infantis europeus a contos de terror milenares, chegamos ao impacto que o cinema tem na sociedade e na cultura de um determinado cosmo. O apreço de Miyazaki pelo cinema ordinariamente humanizado da Ásia é só um pequeno detalhe vislumbre que, convertido em obra, tem proporções inimagináveis. As tradições se carregam, as estruturas familiares de algum modo são o mesmo, e a natureza se adapta de alguma forma. A vida humana é quase como um ciclo social orgânico, que acha em suas dificuldades um detalhe que o faça adaptar e evoluir num processo hereditário… O de compartilhar. O lado demissível disso não está alheio, e como qualquer caracterização de algo ordinário e humano, o desequilíbrio entre as mais enraizadas noções de mal e bem, vida adulta e vida infantil. O tema aqui é a natureza, seja ela bonita ou feia, social ou habitacional. Nas palavras do próprio Miyazaki:

Não vou fazer filmes que digam as crianças: “Você devia se desesperar e fugir”.

Você deve ver com os olhos livres de ódio. Veja o bem no que é mal e o mal no que é bom. Não se comprometa com nenhum dos lados, mas em vez disso prometa preservar o equilíbrio que existe entre os dois.

Nós retratamos o ódio, mas é para mostrar que existem coisas mais importantes. Nós retratamos uma maldição para retratar o jubilo da libertação.

A vida moderna é tão tênue, superficial e falsa. Estou ansioso para ver quando os desenvolvedores vão à falência, o Japão fica mais pobre e a grama selvagem assume o controle.

E no entanto, mesmo em meio ao ódio e a carnificina, a vida ainda vale a pena ser vivida. É possível que existam encontros maravilhosos e coisas bonitas.

Um Verão na Casa do Vovô (1984)

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Clarissa Ferreira

Carioca, estudante de jornalismo e aspirante a diretora. Montadora de playlists profissional, puxa saco de mulheres na arte em geral e ativista em prol do cinema em tempo integral. No tempo vago, escrevo sobre filmes como forma não só de entender mais esse mundo mas buscar com que outros entendam e amem também.

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