A Viagem Misticamente Social de Chihiro

A Viagem de Chihiro é um filme infanto-juvenil conhecido por ser o único vencedor do Oscar de melhor animação produzido pelo japonês Studio Ghibli. Escrito e dirigido por Hayao Miyazaki, o filme conta a história de uma jovem pré-adolescente que, depois de se mudar para outro distrito no Japão, se vê presa e sozinha numa espécie de mundo alternativo após se perder de seus pais. Mas Chihiro é só isso? Como a história de reconhecimento pessoal de uma jovem menina pode nos trazer questões sociais e sexuais a tona?

AVISO: Esse artigo contém spoilers. Se você ainda não conferiu a essa incrível animação, é a hora perfeita de fazer!


Diferente de outras abordagens de longas do estúdio (com exceção de Meu Amigo Totoro), A Viagem de Chihiro se impõe como a mais acessível aos olhares jovens ocidentais, e nos Estados Unidos, é traduzido para o título ”Spirited Away” (tradução-livre para carregada/levada espiritualmente). Com referências a literatura fantástica do ocidente, Chihiro carrega a síntese da descoberta de Alice No País Das Maravilhas de Lewis Carroll com a ambientação mística de O Mágico de Oz de  L. Frank Baum, mas passa longe de ter um contexto plenamente infantil. Aqui no Brasil, o filme tem a classificação livre. No oriente, a classificação fica para maiores de 16 anos. Mas por quê? O nosso público tem uma maturidade diferente para transpassar tais ideias as crianças sem uma imagem violenta ou metafórica? Nem perto disso.

Uma questão de linguagem

Ignorando as interpretações mais maduras das obras já citadas, é bruscamente óbvio que há conotações sociais e sexuais na literatura para crianças, ainda mais se lembrarmos da polêmica discussão de que Lewis Carroll seria um pedófilo. Diferenças a parte para o público asiático (e especialmente o japonês), Chihiro conta com referências patriárquicas da sociedade japonesa que já duram milênios, a adaptação da rotina fetichista do consumo do século 20 e contos sobre deuses antigos como vínculo entre nossa relação com o ambiente, a natureza e a sociedade.

Anos atrás, me peguei fazendo interpretações sociais ao filme, mas não entendia o porquê de uma classificação tão árdua do outro lado do mundo. Em um fórum anônimo, um estudante inglês da língua japonesa respondia aos mais curiosos (não consegui achar o post original como referência), e como tudo no cinema desde seus primórdios, um filme não é tão raso a ponto de se arredondar apenas a seu script adaptado; A comunicação audiovisual é a linguagem como um todo: símbolos, gestos, visuais, escrita, fala.

Parte disso pode ser visto como um ponto negativo tanto ao significado original da obra – que distorcem a visão do cineasta a fim de ampliar o filme a um público maior e obter mais dinheiro – quanto a banalização do gênero animado em si, sugerindo a povos diferentes de culturas diferentes que o trabalho da animação audiovisual tem limites filosóficos e se assemelham especificamente ao público infanto-juvenil.

Traduzindo o citado texto do estudante do inglês:

Chihiro é sobre muitas coisas, até sexo. Sempre me perguntei por que o símbolo “ゆ” (“yu”) estava na porta da casa de banho. Perguntei ao meu professor japonês, e ele não estava muito certo. Então fiz uma pequena pesquisa. O símbolo é usado nas entradas dos 温泉 (onsen) e 銭汤 (sento), ou casas de banho japonesas. A palavra “yu” é traduzido para “água quente”. Sendo assim, faz sentido estar em uma casa de banho. Então eu li mais a respeito e descobri que durante o período Edo, esses banhos públicos tornaram-se populares para os homens por causa de mulheres que começaram a trabalhar nestes banhos comunais, dando banho em homens e vendendo sexo. Estas casas de banho eram chamados de “yuna baro”. As mulheres eram conhecidas como 汤 女, ou “yuna”. Isso se traduz diretamente a mulher “água quente”. Então, basicamente, eram bordéis. Adivinha do que a mulher que dirigia esta casa de banho seria chamada? ゆ ばば/Yubaba (velha senhora da água quente). Yubaba é o nome da mulher que administra a casa de banho. Se você assistir o filme em japonês, verá que as trabalhadoras do sexo feminino são referidas como Yuna. Chihiro foi forçada a mudar seu nome para Sen. Mais ou menos como strippers mudam de nome para “Candy”.

Simbolismos principais e pessoais

A deslocação emocional que Chihiro sente no começo da história é o ponto principal da trama, o estopim para a chegada da maturidade (coming of age). Sua jornada pelo descobrimento de como essa sociedade ”mística” funciona, seu desprezo pelos humanos e consequentemente apropriação de coisas como a prostituição e materiais ocidentalizados nos leva a mais do que só a toca de um coelho mística, mas uma analogia mágica entre a passagem de uma menina para a adolescência, seu despertar crítico perante a sociedade e o que ela trás junto a seus costumes e a ignorância disfarçada de superioridade.

Após seus pais se renderem a fartura e abundância com olhares egoístas, se tornam porcos enfeitiçados, caricatura clássica da burguesia capitalista por parte dos soviéticos. Nos anos 80, o Japão adotava essa caricatura materialista para criticar a crescente sociedade de consumo com o boom econômico, como o próprio Miyazaki explica em uma de suas entrevistas (em inglês). A comida é usada como isca para atrair humanos perdidos a coisas que eles não necessariamente precisam, e automaticamente se atrelam a um ”corpo e a alma de porco”.

 

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Haku, fiel servo de Yubaba, sente que tem o dever de proteger Chihiro por ter uma afeição por algo que ele era em seu passado. Por ter perdido sua consciência social ao se rebaixar a aceitar seu ”destino” como capacho do maior nome da burguesia daquele lugar, manteria o status quo da exploração como uma metáfora de valores assinados, se tornando uma ”maldição mística” em formato de dragão. O uso da palavra ”Kamikakushi” (literalmente ”escondido por deuses”) é uma associação ao folclore japonês, e significa a morte social nesse mundo. Voltar para este mundo pelo próprio kamikakushi é, então, sua ressuscitação social. Haku se livra de sua condição de servo por essa maldição ao realizar que era um puro espírito do rio. O antigo lago, que foi destruído para a expansão urbana dos humanos o transformou em um escravo de seu próprio ambiente. Chihiro então livraria seu ”amigo de infância”, o grande lago Kohaku, de sua maldição pela realização da ignorância das pessoas pela sua existência e equilíbrio na natureza, construindo de volta sua própria identidade como um espírito de menino que um dia fez parte da vida de Chihiro, um querido amigo próximo.

Basicamente todas as abordagens de longas do estúdio tem uma consciência e simbologia ecológica. Princesa Mononoke (1997), aborda temas como a ignorância humana diante a vida na Terra e como a socialização destrói valores e sua empatia e seu estado de guerra. Considerado pelos críticos internacionais como o melhor filme de Hayao Miyazaki, Mononoke tem muitas conexões filosóficas e folclóricas a Chihiro, mas sem o sentimento de pureza de seu semelhante.

”Kodamas”, espíritos que cuidam da saúde da floresta em Princesa Mononoke (1997)

A sociedade e seus totens

A casa de banho é sua estrutura, sua sociedade e seu sistema. Ela é constituída por animais de pequeno porte como sapos, a mão-de-obra básica e simples. Além dos sapos, elementos do sexo feminino em um corpo humano tem sua função especial nessa produção, ”limpando” os tanques e servindo os clientes da melhor maneira possível. Volta ou outra, vemos as yunas ganhando algo que elas normalmente não podem pagar, como presente pelo seu trabalho extra. No filme, não fica explícito se as yunas eram ou não humanas. Por sua aparência física e o desprezo das criaturas místicas pela raça humana em geral, a aparência das yunas se referem a um tipo de fetiche pelo feminino e inferior. Como Haku menciona para Chihiro, um humano nunca pode se misturar plenamente aquele ambiente, ou desaparece para sempre.

Haku sabe que a única maneira de se sobreviver sem ser esmagada por essa cultura é se atrelar a ela, induzindo Chihiro a fazer um contrato de serviços e virando ”Sen”. Simultaneamente, vira uma adulta sem a opção de escolher, ser livre, uma mera propriedade. O resto de sua jornada para seu amadurecimento é amadurecer por si só, e isso requer sua quebra de contrato e sua aceitação da realidade, como uma consciência social presente.

Como empregados, Kamaji, o espírito servente de seis mãos (o empregado mais antigo da casa, o multi-tarefa e consequentemente o mais explorado) que cuida dos sais de banho e Lin são os mediadores de Chihiro em sua fuga.

Kamaji tem o seu posto e não se questiona sobre ele, e por fazer a mesma coisa a séculos, se aceita aquela condição. Sem a atenção e confiança de Kamaji, Chihiro tenta ajudá-lo fazendo parte das pequenas bolas de fuligem mágicas, parceiros de obra. Ao perceberem que ela poderia substituí-los no trabalho, se rebelam e param de produzir imediatamente, fingindo incapacitados. Uma certa rebelião dos pequenos espíritos, mas que aceitam aquela condição por ser o mediador entre terem a vida servente ou não ter a vida num geral.

Após um esforço por ser mostrar capaz, Kamaji se irrita por ser atrapalhado em seu serviço e começa a refletir sobre sua situação, decidindo ajudá-la. Lin aparece e a vê com certo desprezo, mas como parte de seu apoio moral, mostra a realidade de sua rotina, e que as vezes, tem que se ”sacrificar” para fazer o melhor sem questionar. Eventualmente, vemos que apesar dos personagens serem conformados com o que vivem e lidam todos os dias, tem a consciência de que foram roubados de sua realidade e não desejam isso para os outros. Lin, por exemplo, questiona o fato de Chihiro nunca ter trabalhado na vida. Naquelas condições em que foi exposta, trabalhar desde cedo é uma rotina e uma realidade.

Sem Face é o elemento mais caricato do filme. Após sua entrada misteriosa, muitos não tem o temperamento para lidar com ele, apesar de sua larga quantidade de dinheiro. Sendo um espírito que absorve não só as características de seres vivos mas também de seus objetos, o personagem acaba entrando em colapso com o que soma em seu corpo em agonia, histeria e tristeza. Por ter aprendido (ou absorvido) os valores da sociedade lá fora e dentro da casa de banho, assimila o afeto como uma troca de valores, e ao ver Chihiro se prestar, desenvolve um desejo obsessivo e frustrado por não conseguir comprá-la. Sem Face é um espírito puro, e por isso absorve a matéria para se construir. Após sua ”lavagem” espiritual, ainda persevera em seu fetichismo anterior, mas acaba mudando de ideia por ser educado a ver de outra forma pelo oposto do que se denomina Yubaba, sua irmã gêmea Zeniba.

Os dois lados de uma mesma hierarquia

Zeniba, até o ato de seu encontro, é tida principalmente por sua irmã como a bruxa e vilã da história. Quando Chihiro vai a seu encontro, aprende que todos os fatos dado a ela não passam de mera propaganda. Zeniba não passa de uma mulher que renega os valores materiais de sua irmã (e sua conexão com o ocidente, presente em suas coisas), e como desafio a isso, joga uma maldição em seu capacho, Haku. Haku eventualmente é revelado como um simples garoto escravizado sem nenhuma relação com o sistema de sua mestra, mostrando a Zeniba que o sistema pelo qual ela luta contra é composto também por serventes inocentes.

Um dos pontos mais cruéis em sua jornada é seu encontro com Zeniba. Ao tentar explicar a Chihiro como agir perante as seus problemas, afirma que nada neste mundo pode ser mudado, e essas são as regras. Apesar de todos os esforços mediantes, sua estrutura não pode ser abalada.

Yubaba, em contra ponto, só se importa com uma coisa: Seu bebê. Como maior membro daquela sociedade, ela mantém seus contratos em dia e constantemente explora de seus empregados (”enfeitiçados”) para o bel prazer de seus maiores clientes, sempre visando o lucro. Seu filho, Boh, é um bebê gigante (que até o ato final não revela ter pensamentos desenvolvidos), metáfora para sua criação mesquinha e luxuosa e que se conforma com o mimo de sua mãe e sua denominante maternidade ideológica. Boh decide confessar a Chihiro antes de partir, e revela que usufrui de sua criação infantil pra ter o que quer mas que não simpatiza com a crueldade de sua mãe, que é exposto a ele pela sua visita a sua tia Zeniba, em forma de rato.

O escape do novo, a volta ao antigo

Apesar de não acompanharmos a mudança ideológica dentro daquele mundo após a saída de Chihiro, o filme nos deixa plenamente conscientes de que os personagens mudam drasticamente sua visão de mundo com a passagem dela. A conexão de amadurecimento ”espiritual” de Haku e Chihiro são os contrastes que vemos em seu final, onde o reconhecimento de seu próprio eu faz com que ele abandone a ”maldição” atrelada a ele: a quebra, a evolução e sua ressuscitação social.

Chihiro, de seu próprio modo, transpassa esse mundo, e com a volta a sua realidade, tem uma percepção diferente de quando entrou. Com a esperança de mudança além da espera a seu amigo – que está resolvendo sua própria jornada –  sua transição de idade e identidade nos mostram não só a complexidade da juventude feminina, mas de como padrões são visceralmente aceitos em várias sociedades, sejam elas místicas ou não.

Chihiro é sobre muitas coisas, até sexo, inocência, adolescência, fetichismo, sociedade, capitalismo, propaganda, cinismo, solidão e tradição. A delicadeza plenamente mística em que nos envolvemos nessa jornada de evolução que parece tão clichê de longe acaba nos imergindo em algo muito mais complexo e delicado, onde as amplas interpretações em várias fases da vida como a nostalgia por aquele tempo mais inocente ou até a descoberta por uma mente infantil fazem de Chihiro não só um único conto de fadas para todas as idades, mas uma retratação única do ser humano e suas complexidades, sejam elas num plano místico ou social.

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Clarissa Ferreira

Clarissa. Ou Setty. Carioca, estudante de jornalismo e aspirante a diretora. Montadora de playlists profissional, puxa saco de mulheres na arte em geral e satirista em tempo integral. Nerd pra umas coisas e punk pra outras.

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