Vanusa para além do meme

Nesse domingo saiu de cena a cantora Vanusa. Ela foi um dos símbolos do feminismo nos anos 70, com suas interpretações expansivas e letras que reafirmavam a independência e altivez da mulher brasileira nos anos de chumbo da ditadura. A mesma ainda foi, também, símbolo do entrelaçamento de dois fenômenos da segunda metade do século passado: a massificação da música brasileira e a popularização da TV no Brasil. Vanusa emplacou sucessos e teve sua carreira impulsionada pela televisão.

Paulista, mas criada em Minas Gerais, foi logo notada por um produtor que a fez voltar para São Paulo para fazer parte do boom da Jovem Guarda. Chegou a participar do fim do famoso programa na metade anos 60, na TV Record, mas logo foi contratada para rivalizar com esta na extinta TV Excelsior para apresentar o programa “O Bom”, junto de Eduardo Araújo. Foi chamada para fazer parte do grupo que viria a dar nos Trapalhões, com Renato Aragão, Wanderley Cardoso, Ivon Cury e outros. Estava posto seu palco onde faria o maior sucesso: a televisão.

Lançou seu primeiro LP em 1968 com músicas compostas por ela (o que era raro à época) e com seu grande sucesso de então “Pra Nunca Mais Chorar”, de seu parceiro de programa de TV Eduardo Araújo e Carlos Imperial. Apesar do repertório simples, seu primeiro LP fez sucesso e já demonstrava sua intenção de atualizar músicas que fizeram sucesso há muito, como o samba-canção “Mensagem”, que fora eternizado nos anos 40 por Isaurinha Garcia. A juventude dos bailinhos da Jovem Guarda agora dança um samba-canção que estava fora de circulação e fizera sucesso na Era de Ouro da Rádio Nacional, graças a Vanusa e seu espírito renovador. 

O espírito modernizador não cessou e Vanusa embarcou na onda psicodélica do fim dos anos 60 com seu novo LP que trazia na capa um corpo em movimento com sombreados verdes e laranjas. Neste disco está “Atômico Platônico” e sua psicodelia. “Caminhemos”, de Herivelto Martins, também está presente. Essa que fizera sucesso na voz grave de Nelson Gonçalves. Na série dos discos homônimos – foram quatro – Vanusa continuava flertando com a vanguarda e com a tradição romântica, embaralhando assim conceitos estanques que vigoravam à época. Em 1971, canta “A Namorada” junto de seu então namorado e futuro esposo e parceiro Antonio Marcos no V FIC, o festival da canção da Rede Globo. Ainda na Globo gravaria a música tema do Fantástico.

Em 1973 lança seu último e melhor disco da série homônima que contém possivelmente seu maior sucesso, “Manhãs de Setembro”, composição sua e de Mário Campana. Sua letra é um hino libertário e desprendimento, como diz seu refrão tão fortemente cantada por seu timbre doce:

“Eu quero sair

Eu quero falar

Eu quero ensinar o vizinho a cantar

Eu quero sair

Eu quero falar

Eu quero ensinar o vizinho a cantar

Nas manhãs de setembro”

Vanusa continua emplacando sucessos nos anos 70 como “Neste Mesmo Lugar”, além de gravar “Congênito”, de Luiz Melodia. Em seu melhor disco, Amigos Novos e Antigos (1975), gravou a versão definitiva de “Paralelas”, de Belchior. Optou por um repertório de grandes compositores para, talvez, se afastar do rótulo que vinha se cristalizando, o de cantora cafona. Gravou também “Sonhos de um Palhaço”, de seu então marido, e grande sucesso na rádio e TV. Junto de Ronnie Von lançou um LP com os temas da novela que fez grande sucesso em 1977, “Cinderela 77″.

A partir daí, abriu espaço para seu lado dramático e fez parte da montagem histórica do musical Hair. Continuou sua simbiose com a televisão brasileira com o clipe no Fantástico de “Mudanças”, faixa sua que se tornou um hino feminista, reafirmando a autonomia da mulher frente ao imperioso machismo da sociedade brasileira. Sua letra cantada e dita por Vanusa não deixa ter um fundo biográfico já que a cantora sofreu com o machismo de seu pai e de seu marido, o cantor Antonio Marcos. 

A ARTISTA se colocou como uma das grandes intérpretes dos anos 70 com enormes sucessos na televisão e nas vendagens de discos. Participou de peças e lançou sua autobiografia, Ninguém é mulher por acaso. Tornou-se um ícone gay por ter suas músicas e apresentações imitadas (dubladas) pelo público LGBT.

Apesar de tudo isso, um episódio marcou para sempre a lembrança que, principalmente os mais jovens, terão da cantora. Na pré-história da internet, em 2009, circulou um vídeo onde ela cantava o Hino Nacional de forma desafinada e com a letra fora de lugar. Possivelmente, foi um dos primeiros memes antes de ser batizado assim. Vanusa afirmou que estava sob efeito de remédios fortes para tratar de uma labirintite. Não funcionou, sua imagem ficou associada ao episódio. Sua carreira, porém, não acabou. Ainda gravou Vanusa Santos Flores (2015), o primeiro de inéditas depois de muitos anos, com músicas de Vander Lee, Angela Ro Ro e Zeca Baleiro – que produziu o disco. Mas sua luz apagou hoje aos 73 anos depois do agravamento de seu estado de saúde.

A cantora talvez tenha sido uma das primeiras vítimas do lado b da internet, esse lado perverso e inquisitorial. Não posso afirmar com todas as letras que seu declínio físico e de carreira sejam consequências imediatas da ridicularização que sofrera, mas posso dizer que para quem sempre conviveu com a exposição pelo seu sucesso (justo, que se diga) virar motivo de chacota por uma dificuldade não foi nada auspicioso para sua vida. Depois da TV ter patenteado seu sucesso por anos, a internet funcionou como uma pá de cal na sua já rarefeita produção.

Vanusa modernizou, atualizou e dramatizou a música popular brasileira. Foi uma de suas mais simbólicas personagens, porém sempre ficou à margem das grandes cantoras do período. Seus sucessos continuarão na memória coletiva do brasileiro. Não se morre quando se faz algo eterno, se encanta.

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