1999: O ano do cinema adolescente

Todo ano, centenas de filmes enchem as salas de cinemas ao redor do mundo. Alguns são grandes produções hollywoodianas, outros dramas independentes, enquanto uns poucos recebem muitos elogios e trazem inovação narrativa ou tecnológica o suficiente para se tornarem clássicos no futuro. Alguns anos são mais marcantes do que outros, mas todos tem sua parcela de sucesso. Em 1999, os astros convergiram, os planetas se alinharam e alguns dos filmes mais conhecidos e falados atualmente foram lançados: Beleza Americana, Clube da Luta, Matrix, O Sexto Sentido, Star Wars: Episódio I, O Talentoso Ripley, Magnólia, Meninos Não Choram e até Toy Story 2.

Mas, além da variedade de gêneros que foi muito bem alimentada esse ano, um se destaca: a comédia adolescente. O fim da década de 1990, que entregou alguns dos títulos mais lembrados pelo grande público, culminava em um grande “momento”: não se tratava apenas do fim de uma década, mas também do milênio. Ainda que dentro do cinema adolescente possamos dividir várias subcategorias, como o humor negro de Eleição Um Crime Entre Amigas, o romance de Ela é Demais 10 coisas que eu odeio em você ou o coming of age de American Pie Marcação Cerrada, todos eles tem aquela coisa em comum.

E embora pareça pueril e bobo, esses filmes ainda ganham uma ressignificação e se tornam marcantes até hoje não só por seu valores próprios de elenco e história que contam, mas também pelo fator temporal. São retratos de uma época, de um “povo”, de uma cultura que, se ainda está sendo ecoada nos comportamentos e estilos de vida hoje, é parcialmente graças ao sucesso a longo prazo destes longas.

O efeito Shakespeare

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Em 1995, Amy Heckerling colocava As Patricinhas de Beverly Hills no mundo. A amada comédia estrelada por Alicia Silverstone é merecidamente lembrada como uma das melhores comédias da década, mas um elemento muito importante e muito esquecido é o que longa é, na verdade, uma adaptação moderna de Emma, romance de Jane Austen. Um ano depois, estreava Romeo + Julieta, em um caso semelhante de modernização no sentido visual mas bem mais direto em sua adaptação. A questão é que esses dois filmes mostram como trazer obras clássicas em uma linguagem e visual modernos para apresentar esse material para uma audiência diferente daquela que costuma apreciá-lo era uma ótima jogada criativa e financeira.

Roger Kumble transformava as maquinações sexuais da aristocracia francesa de As Ligações Perigosas em maquinações sexuais de adolescentes ricos de Nova Iorque em Segundas Intenções. Papéis antes interpretados por nomes como Jeanne Moreau, Glenn Close, Annette Bening, John Malkovich e Colin Firth agora pertencem a Sarah Michelle Gellar e Ryan Phillipe, que não fizeram feio. Ela é Demais traz todos os elementos obrigatórios de Pigmalião, a peça de George Bernard Shaw sobre transformar uma vendedora de flores em uma moça da alta sociedade. Aqui, o galã do momento Freddie Prinze Jr. transformava o patinho feio Rachael Leigh Cook (“patinho feio”, né?) na próxima rainha do baile. Apesar de o filme ter seus méritos e defeitos, é um dos mais marcantes da época, não só por colocar a hoje clássica canção “Kiss Me”, do Sixpence None the Richer no topo das paradas, mas também por ser dos primeiros trabalhos de M. Night Shyamalan como roteirista.

É obrigatório citar 10 coisas que eu odeio em você nessa categoria, outra adaptação de Shakespeare. A obra da vez é A Megera Domada, a peça sobre como um cavalheiro tinha que casar a irmã mais velha de sua amada com alguém antes de poder se casar com ela. O problema é que a irmã mais velha não é nada fácil de ser conquistada. A adaptação de Gil Junger se destaca pelo talentoso elenco jovem, cheio de química entre si e de jovens estrelas que dominariam Hollywood mais tarde. Heath Ledger, Julia Stiles e Joseph Gordon-Levitt estão mais novos na tela, mas deixam claro seu talento conforme o filme avança. Além disso, é impossível esquecer desse momento:

Um humor… inesperado?

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Também se destacaram as comédias menos convencionais.

Um Crime Entre Amigas é pouco comentado e na época foi um fracasso de crítica e bilheteria. Na história, três das meninas mais populares da escola acidentalmente matam Liz, a quarta integrante do grupo, após uma brincadeira de aniversário dar errado. O futuro delas está em jogo, e tudo piora quando Fern, uma menina tímida que admirava Liz, testemunha o acidente. A única maneira de manter Fern quieta é transformá-la em uma delas. Porém, ao longo dos anos a comédia de Darren Stein ganhou um merecido status cult, já que possível ver como alguns traços do filme foram tão inevitavelmente marcantes que seu DNA está presente em filmes que viriam depois como Meninas Malvadas, A Mentira e G.B.F, do mesmo diretor. Por sua vez, todos eles são influenciados pelo humor sombrio de Heathers, a comédia oitentista escrita por Daniel Waters e estrelada por Winona Ryder.

Alexander Payne traria sua própria contribuição ao gênero teen com Eleição, baseado no livro de mesmo nome de Tom Perrotta. Aqui, Reese Witherspoon interpreta outra grande personagem, a ambiciosa Tracy Flick. Tracy quer, mais do que tudo, vencer a eleição para presidente do grêmio estudantil. O problema está no professor Jim McAllister (Matthew Broderick) e no popular Paul Metzler (Chris Klein), que podem atrapalhar seus planos de maneira que ela nem imagina. Com uma história simples, o roteiro de Payne satiriza não só as tramoias da vida escolar, mas também comenta a vida dos subúrbios americanos e a política envolvida em tudo isso. Apesar de não fazer bons números, Eleição conseguiu uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, assim como uma indicação de Melhor Atriz para Witherspoon no Globo de Ouro e Melhor Filme no Independent Film Awards.

A questão do “Home Entertainment”

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É válido também entender como esses filmes foram financiados e produzidos.

Ela é Demais foi lançado pela Miramax, na época uma subsidiária da Disney. Assim como 10 coisas…, que foi lançado pela Touchstone Pictures, outra irmã caçula da empresa do Mickey. Quando American Pie foi lançado pela Summit, ela era ainda considerada um estúdio independente. Um dos maiores nomes em produção de filmes adolescentes na época era a MTV Films, que financiou outros títulos sobre/para jovens adultos e adolescentes, como Eleição, Marcação Cerrada e o misterioso 200 Cigarros, um longa estreando uma gama de jovens atores em ascensão na época e que é pouquíssimo comentado e difícil de achar.

A questão é que, em 1999, os DVDs estavam em alta. A expectativa para a venda de aparelhos de DVD naquele ano era de 1,4 milhão, segundo o editor da revista Variety. A especulação era de que a indústria de “Home entertainment” atingisse números de 13 bilhões de dólares em uma década. Portanto, a produção de conteúdo focada especificamente para essa mídia não era algo incomum. E era daí que muitos filmes conseguiam sua chance de sair do manuscrito. Por exemplo, Um Crime entre amigas conseguiu financiamento da Screen Gems, subsidiária da Sony focada apenas em filmes para lançamento exclusivo em DVD e VHS, após a proposta do diretor ser rejeitada por outros grandes estúdios. Estes filmes eram produzidos em um orçamento pífio se comparado aos outros títulos da época, e muitas vezes era tão ou mais lucrativo investir nessas histórias em salas de cinema do que exclusivamente para os locadoras e lojas.

Hoje, é possível ver esse mesmo pensamento estratégico ser refletido em serviços de streaming. O sucesso de Para todos os garotos que eu já amei mostra como o sucesso não depende somente do espaço que ele ocupa (embora isso não deixe de ser importante). Atualmente, há uma preocupação sobre como esses serviços podem tomar conta do entretenimento, mas é difícil não pensar que, assim como as fitas VHS, os DVDs e o Blu-Ray (fadado ao fracasso), os streamings estão tendo seu momento. E eventualmente, ele irá passar e ceder lugar ao próximo câmbio cultural.

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Outro fator essencial ao lembrar destes filmes são as diferenças entre o público de antes e o público de hoje. American Pie, por exemplo, é o epítome da comédia sexual dos anos 90. O filme alçou Jason Biggs, Tara Reid, Natasha Lyonne e outros ao estrelato e gerou uma das maiores franquias de locadoras existentes, não só com as sequências oficiais, estrelando o elenco original, mas também com os spin-offs lançados direto para DVD. Toda essa franquia, porém, é o reflexo de um tipo de cultura que não possui atualmente o mesmo espaço (e reconhecimento) de antes. A cultura do homem hétero branco cuja maior realização é transar com uma garota, que em contraparte não pode compartilhar dessa liberdade sexual sem que isso seja reduzido a recurso cômico ou seja tratado como algo válido e saudável, essa cultura não tem mais espaço. Filmes como esse e Nunca Fui Beijada, embora não tenham perdido o charme, quase não sobrevivem ao teste de “o que está acontecendo aqui é uma mensagem que precise ser compartilhada? Especialmente para este público?”. Lembrando que a intenção não é jamais desmerecer essas histórias ou seu valor afetivo ou cinematográfico, mas discutir como os públicos e as mensagens mudaram.

Atualmente, o sucesso financeiro de Não Vai Dar, comédia de Kay Cannon sobre três amigas que fazem um pacto de perder a virgindade na noite de formatura, mostra que a conversa já é outra. Não se preocupem: Lady Bird, Fora de Série e infinitos outros títulos já deixam claro para gente que o legado de 1999 está mais do que salvo.

Ficaram de fora, mas ainda assim são incríveis:

  • Lindas de Morrer
  • Fica Comigo
  • As Virgens Suicidas
  • Nunca fui santa
  • Todas as garotas do presidente
  • A mão assassina

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