Circe, a feiticeira de Aiaia: Mitologia grega, magia e feminismo no novo livro de Madeline Miller

Um dos maiores berços culturais e históricos do mundo, a Grécia é o local de origem de muitos costumes e ideais que prevalecem na sociedade ocidental. Não é surpresa, portanto, que a mitologia grega com seus deuses, heróis e criaturas seja tão presente em mídias como o cinema, televisão e literatura. Uma das figuras não tão famosas, mas ainda muito importante, desse gigantesco panteão de personagens é a feiticeira Circe. A aparição mais conhecida da personagem é na Odisseia de Homero, como uma das diversas figuras que Odisseu (ou Ulisses) encontra em suas viagens.

A americana Madeline Miller já desbravou icônicos personagens gregos antes com seu livro de estreia, A Canção de Aquiles.  Uma reimaginação da Ilíada de Homero, a obra é focada na relação e o afeto que compartilhavam Aquiles, o famoso guerreiro, com seu companheiro Pátroclo. Muitos estudiosos analisam o relacionamento dos dois como um romance. Em seu livro, Miller traz uma visão fiel e detalhista da história dos heróis. Em Circe, ela decide trazer a figura para o centro de sua narrativa, transformando-a em não em uma súbita aparição na história de mais um herói grego, mas sim uma heroína em sua própria história.

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Os leitores acompanham a história da deusa Circe desde nascimento, filha do deus do sol Hélio com a ninfa Perses. Desde pequena, a jovem deusa se sente diferente daqueles que povoam os grandes corredores imortais, já que ela tem a aparência e até mesmo a voz de um ser humano. Por isso, ela é constantemente humilhada e excluída por seus semelhantes, forçada a buscar conforto e amizade em seres mortais.

Essa convivência acaba levando-a a descobrir a arte da feitiçaria. Quando seu amor pelos humanos a leva a conjurar um feitiço sombrio, Circe é condenada pelos grandes olimpianos a viver em exílio na ilha de Aiaia, completamente sozinha. É lá, no entanto, que ela aprende a dominar a bruxaria, trazendo energia da terra, das plantas e da natureza. Mas sua solidão não dura muito tempo. Logo, ela conhece figuras como o grande inventor Dédalo, o deus mensageiro Hermes, o grande herói Jasão e o famoso Odisseu, em sua épica viagem de volta para casa. Ser uma mulher sozinha e independente, no entanto, não a deixa livre dos perigos que acabam chegando à ilha, forçando Circe a decidir se ela irá permanecer com as divindades das quais descende ou se irá se unir aos mortais que tanto aprendeu a amar.

Madeline Miller é uma perfeita contadora de histórias. Com uma narrativa em primeira pessoa, somos apresentados a um conto de tom quase autobiográfico, conforme a deusa compartilha com os leitores suas experiências, sentimentos e tragédias ao longo de sua vida eterna. Apesar de apresentar uma linguagem fácil, a autora se mostra muito hábil com as palavras, oferecendo paráfrases poéticas enquanto descreve as desventuras de sua protagonista.

Além de uma belíssima prosa, o livro também traz novas personalidades e identidades à figuras que são inevitavelmente unidimensionais em encarnações anteriores. Podemos ver, por exemplo, como o grande herói Odisseu poderia ser cruel e inescrupoloso, sempre buscando novas maneiras de trazer glória para seu nome sem se importar com virtude ou altruísmo verdadeiros. Há também as origens do famoso Minotauro de Creta: Circe está lá para o nascimento do monstro e para a construção do labirinto que viria a aprisioná-lo. Diversos outros personagens surgem na ilha da feiticeira, e embora eles concretizem o destino que é tão conhecido na cultura popular, é interessante descobrir as maneiras que a autora faz para fazê-los encontrar tal fim.

Outros temas abordados na história são o feminismo e a independência feminina, através da jornada solitária da protagonista. Ao longo de sua vida, Circe é julgada e jogada de um lado para o outro de acordo com a vontade de deuses olimpianos e deuses menores, forçada à atender pedidos alheios de familiares e pessoas que nunca sentiram (ou mostraram) nada por ela além de desprezo. A mensagem que fica, apesar das desventuras da personagem, é que não importa quão desafortunado o destino da feiticeira possa parecer, ela sempre acaba tendo um truque na manga para sobreviver. Abuso sexual e a relação entre pais e filhos também são elementos presentes na segunda metade da história.

Em uma época cercada de recontos na ficção, principalmente aqueles que trazem uma outra visão à personagens tidas como malvadas, como o filme Malévola da Disney ou o vindouro Cruella (embora eu ache difícil humanizar uma personagem que queira matar filhotes para propósitos estilísticos), Madeline Miller traz novamente uma interessante e bem escrita visão de contos gregos, dessa vez costurados ao redor de uma perspicaz construção de personagem, sem nunca deixar de ser fiel à mitologia original. Vale dizer também que o livro foi ganhador do Goodreads Choice Awards na categoria Fantasia.

De acordo com o portal de notícias literárias Sem Spoilero livro será publicado no Brasil em 2019 pela editora Planeta Minotauro.

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