Coluna da Cibele | O pequeno mundo de Tabitha King

Você sabe o que Camille Claudel, Tabitha King e Zelda Sayre têm em comum? Assim como muitas mulheres, essas três talentosas figuras viveram durante muito tempo à sombra dos maridos e companheiros. Apesar de suas vidas profissionais serem recheadas de realizações e de muito trabalho, suas histórias foram ofuscadas pelo machismo impregnado na sociedade. Pequenas realidades é a primeira obra de uma dessas artistas, a americana Tabitha King. Sua carreira conta com nove livros publicados, peças de não-ficção e antologias e, mesmo assim, o seu sobrenome (herdado do marido Stephen King) ainda é o que mais chama à atenção do público.

Para reverter essa situação, a editora Darkside lançou, neste ano, o primeiro de uma série de títulos da autora que serão trazidos para o Brasil. Apesar de ter sido publicado em 1981, é a primeira vez em décadas que essa obra ganha uma nova edição brasileira. E o livro já desembarca no Brasil com chave de ouro, graças à cuidadosa edição em capa dura por parte da editora que, desde os detalhes, dialoga com a história em suas páginas.

Ao longo de mais de 300 páginas, Tabitha constrói uma narrativa complexa, com a voz de várias personagens que se conectam entre si, dando ao leitor uma visão mais ampla – e ao mesmo tempo intimista – dos acontecimentos. A frente dessa trupe está Dorothy Hardesty Douglas, uma socialite obcecada por casas de bonecas em miniatura. O que pode parecer um hobby estranho à primeira vista é, na verdade, compartilhado por muitos outros entusiastas. Porém, ninguém é capaz de chegar ao extremo ocupado por Dolly. E isso só é possível graças a Roger Tinker, um típico “esquisitão” que, obcecado pela viúva rica, encontra um jeito um tanto quanto peculiar de se aproximar da mulher.

“O que será que nos atraia nas casas de boneca e seus móveis pequenininhos? Talvez seja um pequeno e simples motivo, óbvio e apropriadamente infantil: a reprodução do nosso mundo em escala reduzida, no qual estamos no comando, assim como estávamos quando brincávamos de mamãe e papai, os pais das nossas bonecas, que se tornam nós mesmos.” (KING, 2019, p. 61)

A miniatura da Casa Branca pertencente à Dorothy é o centro da narrativa, bem como as turbulentas relações familiares e amorosas das personagens. A primeira parte do livro é dedicada a apresentar as inúmeras figuras na qual cercam a vida de Dolly – desde a sua nora até os antigos amantes e eventuais rivais. Todos esses elementos fazem com que Pequenas Realidades comece de uma forma muito lenta e até confusa: são muitas vozes e detalhes confundindo o leitor, e acabando sendo esquecidos ao longo da leitura. Mesmo a autora trabalhando perspectivas diferentes, além de trechos de jornais e flashbacks, a narrativa se desenrola com lentidão, o que pode gerar desinteresse.

Contudo, aos poucos a história engrena e segura o leitor até as últimas páginas. King se mostra extremamente habilidosa ao criar e brincar com o psicológico de suas personagens, além de saber como em desenvolver cenas de tensão e suspense. Dorothy, Roger e os outros representam bem a complexidade do ser humano, sendo difícil amá-los ou odiá-los por completo. Aliás, essa é uma história em que discute questões inerentes a todo indivíduo como, por exemplo, o medo do isolamento, a necessidade de controle e os limites da humanidade. Enfim, a autora consegue imprimir o seu próprio estilo de escrita, fugindo de comparações com o marido e deixando a sua marca nesse que é uma bela iniciação no mundo da Rainha do Terror.

“Mary Shelley nos avisou sobre isso um tempo atrás, mas não ouvimos a mensagem dela, nem de todas as outras no caminho. Nossa tecnologia é ao mesmo tempo a coisa mais perigosa do mundo e a nossa mais provável salvação” (KING, 2019, p. 196)

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