Zodíaco e o antíclimax perfeito

Entre os filmes menos exaltados do diretor David Fincher está Zodíaco.

Isso é inegável quando se compara a nota do público do IMDB para o longa. A obra contém um bom 7.7 contra 8.6 de Seven: Os Sete Crimes Capitais ou os 8.1 para Garota Exemplar, por exemplo. Mesmo assim, ele estabelece um imenso diferencial para um gênero que precisa sempre se movimentar: o suspense.

Nesse momento você pode ter feito algumas indagações, como “Por que você acha isso?” ou “Explique o porque desse argumento”. Bem, é bem fácil de perceber o motivo pelo qual Zodíaco não é uma película tão admirada: o seu fator antíclimax. Talvez o único grande momento de tensão, ao longo das mais de duas horas e vinte minutos é uma pequena cena – extremamente bem construída, por sinal -, que não leva a nenhum ponto de maior destaque dentro da trama.

O roteiro, escrito por James Vanderbilt, gera três atos perfeitos na sua primeira parte, podendo finalizar a história perfeitamente ali. Porém, o objetivo não é contar uma investigação ou relatar a psicologia de assassinos, mas sim o fanatismo do protagonista Robert Graysmith (interpretado magistralmente por Jake Gyllenhaal) pela figura do serial killer. Não é o “porquê” que importa, mas sim a jornada na busca pelo “quem”.

O público em si tem uma grande necessidade dos ápices, seja ele o inicial ou final. Não é possível saber se isso vêm  dos grandes blockbusters, mas a sétima arte é feita pelos seus momentos auge, por assim dizer. Porém, o mais importante em uma linha narrativa é o seu desenvolvimento, algo que muitas vezes passa despercebido. É só parar para analisar perguntas quando você assiste a um filme. As perguntas frequentes são “Como foi o final?” ou “Como que acabou?”, mas não “Como foi que tudo aconteceu para gerar isso?”. Não que seja um demérito, mas resulta em um costume no qual obras como Zodíaco, ao quebrar esse padrão, incomodam.

O desenvolvimento da história é o grande catalizador de tudo. Tanto que a passagem de tempo demonstrada na montagem de Angus Wall faz com que o público se perca temporalmente dentro da narrativa. As mortes que, em primeiro momento, balanceiam todos os personagens, se tornam cada vez menos lembradas. A quebra de expectativa entra em cena novamente. É difícil até para o espectador lembrar-se  da maneira que as mortes acontecem. O fato é que a trama fica a cargo do único interessado pelos acontecimentos: Robert. Ele faz um papel que o policial David Toschi (feito por Mark Ruffalo) deveria estar fazendo, mas desiste com o tempo. Se para Toschi, a investigação perde o prazer, para Graysmith é cada vez maior.

Essa construção leva para talvez uma das cenas mais intrigantes do cinema recente: a conclusão de que, realmente, Arthur Leigh Allen fosse o assassino. Porém, o anticlímax faz com que não ocorra uma grande perseguição ou aquele momento ápice que costuma-se ver em películas do gênero, frustrando a audiência que acaba não recebendo a resolução do caso devido à falta de provas. Por isso, a ilusão do filme de 1971, Perseguidor Implacável – que é exibida no cinema, onde o ilusionismo acontece -, é colocada em oposição. Contudo, o que é mais real que isso?

Zodíaco é uma obra-prima do anticlímax. Não apenas pela sua maneira original de retratar o tema, mas também pela audácia de enganar o público com uma narrativa que, apesar de mostrar-se simples no começo, caminha para rumos únicos e calmos, algo visto raramente em qualquer outra obra de suspense.

Fincher fez aqui seu trabalho máximo fora do gênero, mesmo que dentro dele. Engana-se quem acha que foi um erro. Foi apenas uma maneira do diretor dizer que pode fazer bem mais do que ele mesmo já mostrou. E que poderá, no futuro, surpreender novamente.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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