Coluna do Pedro | As Lives da Quarentena

No momento que o mundo vive é preciso reinventar a forma de como seguir com a vida, ainda que por um período indeterminado. Vou me poupar das palavras sobre a necessidade de cuidados e de ficar em casa, pois, ao contrario de vosso presidente, eu sei (e tenho certeza que quem está lendo também sabe) que é importante seguir as orientações dos profissionais de saúde e não do acéfalo que não tem uma dicção decente. Mas, ainda assim, precisamos nos adaptar. Então é natural que artistas, onde grande parte de sua renda vem de turnês e a constância da carreira vem da fortificação da sua imagem, tenham procurado contornar a situação. Assim, surge a resinificação da lives. 

Desde Chris Martin, vocalista do Coldplay, sentando no seu piano cantando uns covers até os grupos sertanejos, criou-se uma tendência em meio a pandemia. Começou de forma inofensiva e sem planejando, já que ninguém sabe ao certo quando voltaremos ao normal. Então quando Miley Cyrus aparece fazendo uma especie de talk show no seu Instagram convidando colegas celebridades é muito divertido. Ou até mesmo apresentadores, como James Corden e Fabio Porchat, que tentam manter o clima de descontração que seus respectivos programas levam. 

Mas, não sei dizer ao certo quando, a atenção do público para as lives estava redobrada. Não falo das 30 bolinhas do stories do Instagram avisando que estão ao vivo, mas sim, de anúncios das lives como se fossem grandes eventos. Então, os artistas soltam as setlist, fazem divulgação massiva e tratam como se fosse uma gravação de um especial da Netflix da nova turnê. 

O caminho que vem depois é fácil de entender: se está tendo muito público, está gerando dinheiro pra alguma plataforma, então faz sentido alguma empresa anunciar um produto. E ai, o que começou com algo inocente, já tem patrocinadores, equipe, iluminação, no geral: uma super produção. Jorge e Matheus sofreram diversas críticas por esse exato motivo. Qual o sentido de fazer uma live incetivando as pessoas para ficarem em casa se os proprios artistas estão fazendo uma aglomeração incluindo garçom servindo cerveja para os cantores. 

Ah! Cerveja. O produto que mais está sendo patrocinado. Gustavo Lima que o diga, considerando que o cantor chegou a chamar a atenção do Conar por ficar bebaço ao vivo e, possivelmente, incentivar um alto consumo de alcool indevido. 

Então, qual é a solução? É o Safadão que demorou mais de uma semana montando o cenário pra sua live, pra equipe não se aglomerar (kkkkkk)? Ou a Ivete, que simplesmente transmitiu da sua cozinha em uma show multiplataforma? São perguntas com respostas bem óbvias para ser sincero. Afinal, perde todo o sentido principal da live se o artista não faz o minimo de esforço para conscientizar os artistas. 

“Ah, mas é tão legal quando tem uma produção maior e com mais cara de profissional”. Sim, realmente é. E, podendo chocar muitos, é possível fazer isso com pouco. Ivete provou isso. E, em um evento que movimentou o Twitter, a Fresno conseguiu fazer mais de 3 horas de live, o Jão conseguiu fazer um show com apenas ele e um membro da banda. Isso sem falar do Lulu Santos. Eu posso estar reclamando demais, considerando que há mais exemplos posticos do que negativos. Mas, com tanta coisa ruim acontecendo lá fora, é meio difícil ser positivo quando uma das poucas coisas que deveria te alegrar, que são seus artistas favoritos, estão fazendo coisas tão erradas. 

Isso me lembra da grande live internacional. O evento que pararia a quarentena. Até o próprio Covid daria um tempo e assistiria a live que a Lady Gaga levantou. Tinha tudo para dar certo. O Line Up com artistas fodas, que iam de Rita Ora até Elton John, a atenção de todas as redes sociais, diversos canais abertos transmitindo ao vivo, tinha tudo. Menos o tom. Foram mais de seis horas com os artistas cantando alguma música, própria ou cover, entra muitos comerciais. Não comerciais publicitários, mas comerciais sobre doação e sobre a situação do Covid. Sim, é importante fazer a conscientização. Sim, é importante falar sobre. Mas a live estava com um baixo astral, com um tom melancólico e desesperançoso, que não tinha como assistir aquilo e pensar no pior. Como assim eu esperava ver a Lady Gaga cantar um dueto com o Elton John a distância para me animar e acabei recebendo diversas mensagens tristes sobre o que estavamos vivendo? Sei lá. Não sei se era o momento certo ou se eu estava num dia ruim. 

Mas ok, não é todo mal. As lives conseguem arrecadar muita coisa. São diversas instituições recebendo doações e ajudando muita gente em situação ruim. É ótimo por que dá pra ver os cantores cantando musicas que nunca entrariam na setlist de uma turne e, também, fazendo cover de outros artistas que você nunca imaginaria que aconteceriam. Sim, tem o seu lado muito bom nisso tudo. Eu só queria que todo mundo chegasse no meio termo e fizesse da forma que tem que ser feita. 

Em um movimento de distrair o público, se manter na mídia e ainda conseguir patrocínios, as lives se tornaram uma realidade e uma tendencia da quarentena. No entando, se não feitas com cautela e atenção, pode soar falso, apenas com o objetivo de tirar proveito da situação. Mesmo assim, está sendo uma forma dos fãs estarem perto de seus artistas preferidos em um momento tão difícil. Se for feito da maneira correta, não tem erro.

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