Crítica – Destacamento Blood

Em determinado momento de Infliltrado na Klan, o diretor Spike Lee traz à tona a história pouco conhecida de Jesse Washington, um jovem negro que foi linchado no início do século XX pelo seu suposto envolvimento com o assassinato de uma jovem branca. Lee contrasta esse momento com a iniciação da KKK, que envolve filmes e pseudociência. Assim, enquanto resgata uma memória real, enquanto aponta que a base da supremacia branca são devaneios ou ficção, que teimam em tratar como real.

Destacamento Blood, novo filme do cineasta lançado pela Netflix, opera de modo similar, mas com o foco na Guerra do Vietnã. O longa acompanha quatro veteranos da guerra, Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isaiah Whitlock Jr.) que retornam ao país décadas depois com dois objetivos: resgatar uma maleta cheia de ouro, que eles esconderam durante uma operação, e recuperar os restos mortais de Norm (Chadwick Boseman), que servia como grande mentor ideológico do grupo, lembrando seus companheiros a todo momento da luta por direitos civis no país natal deles.

Lee se aproveita do cenário e constantemente tira sarro do modo que os Estados Unidos escolheram lembrar uma guerra que perderam, a partir de filmes como Rambo e produções de Chuck Norris, “esses bizarros de Hollywood querendo vencer a guerra do Vietnã”. Nem mesmo Apocalypse Now escapa do humor de Lee. Se Cavalgada das Valquírias, de Wagner, dava o tom para a exibição do poder destrutivo do exército americano no clássico de Coppola, aqui marca um passeio num barco turístico.

O diretor não só aponta a farsa, mas também lembra que ela vem ao custo do apagamento de realidades tão heróicas quanto as que passam na tela de cinema, mas que, por serem protagonizadas por minorias, são convenientemente esquecidas. Através da sua ficção, no entanto, o diretor procura resgatar essas pessoas, fazendo questão de colocar a imagem dessas pessoas na tela sempre que citadas.

Claro, além da memória do Vietnã, Destacamento Blood, busca retratar as consequências duradouras dos atos americanos dentro e fora do seu país, mesmo que ele em si não seja retratado. A todo momento, o longa coloca elementos que nos lembra que a guerra pode ter acabado, mas os conflitos continuam. Se o racismo marcou esses homens pela vida toda, que lutaram por uma nação que lhes negava direitos, também os vietnamitas até hoje sofrem com a antiga presença militar no local. Em determinado momento, enquanto se divertem num bar, o quarteto é abordado por um menino sem uma perna que pede esmolas, vítima de alguma mina terrestre esquecida.

Mas o grande trunfo da produção se encontra na relação do quarteto principal, que é tanto afetuosa como cheia de conflitos. Se os irmãos de guerra ainda fazem tudo para proteger uns aos outros, suas vidas os levaram a caminhos diferentes o bastante para gerar discordância, e isso é melhor exemplificado na figura de Paul. Lee nunca foi um autor interessado em personagens simplistas, e o homem interpretado por Delroy Lindo é o mais novo exemplo dessa tendência do autor. Um negro, assumidamente eleitor de Trump – com direito a boné “Make America Great Again” – cuja jornada dramática não envolve abdicar do seu conservadorismo ou alguma espécie de “redenção política”, mas sim algo muito mais pessoal e reflexivo. Em tempos que política no cinema se tornou algo tão maniqueísta e reduzido a certas palavras chave, a presença de uma figura tão desafiadora quanto Paul é muito bem vinda.

Destacamento Blood é mais uma reflexão política na carreira de Spike Lee, que se afasta um pouco dos cenários urbanos e americanos presente dos seus filmes, mas o americanismo ainda se faz presente, e coloca a política imperialista do país como uma presença perniciosa, que atravessa fronteiras geográficas e temporais, deixando marcas difíceis de se apagar.

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