Crítica – A Vastidão da Noite

Filmes de ficção científica nos últimos tempos tem sido um tanto sisudos. Tanto Interestellar, como A Chegada, Blade Runner 2049 e, aparentemente, o futuro Duna, são filmes sérios, cujos personagens lidam com conflitos pessoais e problemas que podem mudar o mundo, em universos em decadência ou a ponto de explodir. Nesse sentido, A Vastidão da Noite, da Amazon Prime, vai no caminho inverso, tanto em escala quanto em tom.

O longa de debute de Andrew Patterson acompanha a dupla Fay (Sierra mcCormick) e o radialista Everett (Jake Horowitz), dois jovens no ínicio da década de 50 que vivem na cidade de Cayuga, Novo México. Na noite um importante jogo de basquete da região, Fay, uma telefonista, começa a receber relatos de um estranho objeto no céu, enquanto Everett tem sua transmissão interrompida por sons igualmente esquisitos. Pouco a pouco, eles juntam as peças de um mistério que pode mudar suas vidas para sempre.

O longa não esconde suas influências das séries de ficção científica da época que se baseia, mesmo que isso se apresente como um dispositivo narrativo pouco útil: o filme é, na verdade, um episódio da série fictícia Teatro Paradoxo, uma espécie de Além da Imaginação. Por vezes, Patterson escolhe mostrar a televisão que passa o episódio e por meio de filtros de imagem remetendo as produções da época. Pode até oferecer um certo charme, mas acaba distraindo.

E distração é um pecado em uma produção que lida tanto com atenção, elemento fundamental para o desenvolvimento da narrativa. Passamos boa parte do longa escutando, seja em busca do som alienígena, ou relatos de alguém que teve contato com a suposta nave. A montagem funciona como um reflexo direto do quanto os personagens estão concentrados em uma tarefa. Se estão focados em uma coisa só, temos longos planos estáticos, que o diálogo toma conta, e por vezes, abre-se mão até das imagens, com a tela cedendo a escuridão, para que possamos somente escutar. Até mesmo as legendas, evidentemente sem querer, colaboram para criar um senso de estar lidando com algo maior do que nossa compreensão, com as letrinhas brancas desafiando a escuridão do quadro. Quando os protagonistas estão mais dispersos ou precisam ser ágeis, a montagem os acompanha, mas sem sacrificar a compreensão do momento.

A obra também é mostra uma preocupação em dar vida própria aquele mundo, de ambientar o espectador e fazer entender a geografia daquela cidadezinha. A sequência inicial do filme é toda dedicada a isso, com os personagens cruzando boa parte do local a pé, com a câmera acompanhando quase sem interrupções. Essa ênfase nas distâncias é usada com grande efeito quando Fay e Everett precisam se deslocar por diversos pontos da cidade, seja a pé ou de carro.

A Vastidão da Noite é um filme muito charmoso, e usa o que poderia ser um impedimento, como o baixo orçamento, a seu favor para criar um senso de mistério e de descoberta, mesmo que use de certos artifícios desnecessários em alguns momentos.

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