Crítica – Carnival Row (1ª Temporada)

O mundo em Carnival Row é complexo. As mais diversas raças convivendo juntas, porém não em um espaço harmônico ou até de um jeito razoável. Essas figuras misturadas – humanos, homens de chifre e fadas – formam um microcosmo bem particular na cidade. A grande questão em torno desses elementos é um fato bem específico: todos os não-humanos vivem refugiados como imigrantes nesses ambientes. Uma parte dos humanos da região buscam boicotes, o tratam como inferiores e até buscam matá-los. O detetive Rycroft (Orlando Bloom) acaba por investigar uma espécie de serial killer com potenciais de ser contra imigrantes. Ele, no entanto, terá de reviver muito de sua própria trajetória para descobrir a resposta.

A série, escrita por Travis Beachman, possui uma construção de universo bem coerente e até deveras intrigante. É impressionante perceber os detalhes presentes ali, porém todos mais relevantes em um sentido estético do que narrativamente em alguns instantes. Entretanto, em outros, a mistura é apresentada como a relevância da produção.. Os prédios, a consolidação steampunk, o visual de monstros próximos a H.P. Lovecraft. É um cosmos de diferenciadas referências claras, contudo explicitvamente mostradas para gerar particularidades. Nesse sentido, a obra consegue explorar os mínimos detalhes através do desenvolvimento dramático de cada um dos personagens. É nesse quesito aonde há uma integração mais direta do público com a trama.

Isso desenboca o seriado a trabalhar em diversas frentes. Por exemplo, existe um lado da disputa e discussão política sobre imigrantes, colocada em torno do personagem Absalom (Jared Harris) e em seu filho Jonah (Arty Froushan). Outro fator também está em torno da discussão racial mais clara, impulsionado pelos ricos irmãos Imogen (Tamzin Merchant) e Ezra Spurnrose (Andrew Gower). Inclusive, toda a relação de transformação ante Imgen e Agreus (David Gyasi) talvez seja um dos pontos altos dessa primeira temporada. Por fim, ainda é impossível relatar todos esses conflitos dramáticos sob a participação de Vignette (Cara Delevingne), a grande protagonista e fio condutor dessas interligações das histórias.

Ao gerar e gerir seus próprios elementos internos, é até diverso como a produção busca sempre olhar aos diversos elementos onipresentes. O sexo com fadas, por exemplo, acaba possuíndo uma certa relevância para desenvolver essa sexualidade meio passiva da sociedade. Todavia, isso acaba por sempre deixar de lado as narrativas mais principais e chegando até a cansar em certos momentos. Uma questão mais direta sobre isso fica em torno do episódio focando no relacionamento prévio de Vignette e Rycroft em um período de guerra. É um tempo mais expositivo, na qual poderia gerar maiores entendimentos sobre a investigação feita por esse segundo – a situação em que é aberta a temporada.

Nesse sentido de abranger demais as diversas temáticas de embate, o seriado também embarca em torno de uma violência para essas criaturas. A morte acaba sendo algo quase cotidiano desse submundo da cidade, demarcado por ser feito em figuras excluídas. A cena no qual é finalizada o primeiro capítulo deixa isso ainda mais claro, quando percebemos a brutalidade para qualquer um. É um certo fio condutor, do mesmo modo, para esse segmento principal, de fato. Contudo, acaba, novamente, soando sempre pequeno ou até vulgar demais nessa imensidão de circunstâncias.

Em sua primeira temporada, Carnival Row acaba parecendo bem mais deslumbrada e interessada na sua construção de ambientes e cênica do que propriamente em um desenvolvimento maior dos seus temas. Mesmo assim, diversas das suas relações e conexões interiores acabam se sobressaindo, como o relacionamento amoroso principal e a presença do embate racial e imigrátório. Apesar disso, a sensação é que parece faltar mais episódios ou uma maior fluídez para a narrativa. É até arriscada a tentativa de apresentar tantas coisas – isso é bem explícito nos dois primeiros episódios -, porém sem conseguir dar conta de tudo. Já confirmado para um segundo ano, talvez esse seja o melhor caminho para a obra. De continuidade e dar maiores retornos para essa divertida imensidão apresentada.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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