“O Brasil fica repetindo os mesmos erros o tempo todo”, diz co-diretor de Bacurau

“É uma coisa impressionante que muitas coisas comentam. É que na verdade o Brasil fica repetindo os mesmos erros o tempo inteiro. Bacurau é um filme que se reporta a história, que olha para o passado. A gente se reporta nisso. Existe o museu e as pessoas que não vão até lá se dão mal por isso”. O comentário foi feito por Juliano Dornellas, um dos diretores de Bacurau, na pré-estreia do filme no Rio de Janeiro, na última segunda-feira (dia 26). Em um debate com o público ele e Kleber Mendonça Filho conversaram com a platéia, todos em torno de uma discussão política muito forte no longa.

Utilizando de uma mistura de terror, suspense, faroeste e o drama mais convencional, essa obra busca retratar uma realidade brasileira. Obviamente, a utilização e abordagem colocada pelos cineastas vai para o absurdo. Mas sérá que realmente seria possível chegar em um mundo (ela se passa alguns anos no futuro) como demontrado em Bacurau? “É um filme de gênero, né? Que fala de coisas absurdas e através do absurdo a gente se diverte, sente catarse, mas o mundo está bem real”, continua Dornellas. Essas convergências com o mundo contemporâneo – especialmente o Brasil – apontadas pela crítica e pelas mais diversas pessoas na qual asisstiram, parece ter sido quase unânime das interpretações.

Juliano e Kleber, no entanto, começaram a escrever o roteiro em 2009, 10 anos atrás. Após a cobertura de um festival, como contam no debate, surgiu a ideia. O mais impressionante acabou sendo essas conexões com os acontecimentos políticos. Por si só, a obra acaba possuíndo um retrato bem claro de todas as relações nacionais. Contudo, as modificações no roteiro aconteceram devido a essas similaridades e uma busca por soar cada vez mais onipresente. Grande parte das pessoas da produção presentes no tapete vermelho, todavia, acabaram falando que ele não representa só essa atualidade.

O ator Wilson Rabelo, na qual interpretar o professor Plínio na cidade, foi um a corroborar com isso. Se os professores são cada vez mais desvalorizados e perseguidos, a sua participação acaba por ser uma força na narrativa. “Eu associo professor ao conhecimento, a ancestralidade, a oralidade. E a simbologia dele para mim no filme é a presença dos quilombos no Nordeste que é sempre negado, até nos estudos posteriores”, comenta ele. “Esse filme também, dentro dos seus vários símbolos, traz também a existência do negro na formação do Nordeste e do Norte real. Eu sinto como um representante da cultura, da educação também, mas principalmente na cultura”.

Avante todas essas representações simbológicas dentro da própria história, tem existido um acontecimento diferencial dentro dessa produção. Se estamos acostumados a ver a força dos lançamentos e pré-estreias de grandes blockbusters americanos, Bacurau tem puxado e segurado multidões pelo Brasil afora. Após estrear no Festival de Cannes, em maio desse ano, a película gerou uma expectativa já prévia para a audiência. Ainda não é sabido como será toda a repercussão chegando as salas de cinema, contudo o movimento feito em diversas estreias por Recife, São Paulo, Salvador, João Pessoa, além do próprio Rio, gerou todo um boca a boca inovador para nosso cinema.

“Eu testemunho o encontro de um filme que reproduz a necessidade do seu povo e, principalmente, pessoas que estão tendo a mesma escuta que os diretores tiveram do Brasil. Está tendo uma convegência de rever o país, os caminhos que ele deve tomar e de buscar um entendimento das questões nacionais por todas as camadas do Brasil”, continua Wilson. “Essa acaba sendo também uma das características do povoado de Bacurau, que são pessoas que convivem com suas diferenças de gênero e com uma classe horizontal. O filme a comunidade representa isso, a possibilidade de várias diferenças culturais, étnicas, de gênero, etárias, conviver e buscar as prioridades da sua realidade, dos seus passos. A gente tem obsevado nessa plateia uma mesma percepção. São pessoas que tem o mesmo entendimento de priorizar o Brasil”.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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