Crítica – Açucena

Uma das informações mais cruciais sobre Açucena é que a personagem titular não existe. Nem ao menos nos créditos finais seu nome aparece, apesar de ser citado todo o tempo durante o documentário de Isaac Donato. Mas mesmo não existindo, Açucena é absolutamente real, movendo diversas pessoas em torno de um dos eventos mais simbólicos da existência de alguém, o aniversário, mais especificamente, o aniversário de 7 anos de uma senhora de 67 anos. É isso mesmo.

Mas ao invés de investigar os mistérios dessa situação, o diretor associa essa questão na sua encenação, e especialmente nos primeiros momentos, abraça essa aura mais misteriosa, construindo uma sensação desconcertante muito eficaz. Demora um pouco até vermos uma presença humana completa na tela, se apoiando em vozes, corpos enquadrados de modo incompleto e nas bonecas que preenchem a casa onde a narrativa se passa. As linhas entre ficção e real são difíceis de se distinguir em Açucena, pois a presença da câmera nunca se faz notar. Os personagens nunca falam com ela diretamente, somente entre si, e a nossa visão é a de um observador invisível.

O aniversário de Açucena é como um ritual, que, naturalmente, acontece todo ano e tem requisitos muito específicos, e assim, o longa segue esse processo ritualístico também, muito mais interessados nos processos que envolvem o evento e no modo que ele move uma pequena comunidade de pessoas. Tudo ocorre em um ritmo muito deliberado, vemos as pessoas arrumando as coisas para o evento, como uma pintura nova para a casa, uma decoração nova ou até mesmo uma ligação acerca do tipo de recheio que os doces devem ter. É tudo muito comunitário e levado a sério, as pessoas até mesmo se perguntam se Açucena irá aparecer, mas não há dúvidas sobre a importância que aquele momento tem para a dona das bonecas.

Apesar de prevalecer esses momentos mais “burocráticos” do aniversário, há algumas sequências que almejam um tom mais voltado para o terror/suspense. Esse é até mesmo o tom com que o filme é apresentado, com a câmera distante apontada para a casa, enquanto uma narração detalha o primeiro contato da aniversariante com Açucena, e no exato instante que esse nome é dito, uma luz vermelha se acende na janela. Outra sequência particularmente inspirada transita entre o drama e o terror, com a dona das bonecas sozinha em um quarto com elas, “conversando” com uma das bonecas que fala. É uma cena longa, somos colocados entre duas bonecas enquanto a mulher interage com o brinquedo como se uma filha fosse. É desconcertante, pois fornece um ar solitário aquela mulher, ao mesmo tempo que a presença das bonecas, tão próxima a câmera, fornece um ar insólito à situação.

Assim, entre o rotineiro e o sutilmente sinistro, Açucena procura tentar entender a relação dessa comunidade com a força, entidade, ou presença que é Açucena. Talvez seja um pouco moroso e a presença de cenas mais inspiradas como a do quarto seria muito bem vinda, mas mesmo assim consegue criar um senso de mistério fascinante de se testemunhar.

Esse texto faz parte da nossa cobertura da 24ª Mostra Tiradentes.

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