Crítica – As Golpistas

As Golpistas não tem medo algum, desde sua primeira cena, de explorar a sensualidade de suas personagens. Se em algumas outras histórias, há uma busca mais sutil ao explorar esse sentido corporal, a obra de Lorene Scafaria traz isso à tona em toda sua segmentação inicial, observando o corpo de suas personagens como uma forma de controle. Esse controle é feito perante aos homens, que não podem encostar em nenhuma das strippers, além do fato de estarem totalmente envolvidos por elas, com danças e movimentos dos quadris. Eles são tão desprezíveis a ponto de serem divididos em grupos, onde quem paga melhor é mais bajulado.

Em todo esse cosmo criado – e baseado em uma situação verídica – ocorre a relação de amizade entre Destiny (Constance Wu) e Ramona (Jennifer Lopez). A primeira acaba entrar para o clube de strip como uma forma de sustento, especialmente para sua vó. A segunda é talvez a mais renomada no mesmo clube, com diversos homens querendo ter algum mínimo minuto de atenção. Destiny a olha quase como uma deusa em sua primeira aparição já que, como ela diz, “[Ramona] possui o controle sobre tudo”. Porém, o enredo não é sobre algo bom, pelo fato de sermos cortados dessa realidade do passado e colocados de frente a uma investigação da jornalista Elizabeth (Julia Stiles), que está entrevistando a primeira citada.

Todo esse universo do uso do sexo é explorado em toda a primeira hora com exaustão pela direção de Scafaria. Ela não deixa de lado cada pequeno detalhe das salas e do espaço do clube, como uma maneira de quase instigar aquele ambiente a ter uma vida própria por causa daquelas mulheres. Até por isso mesmo, as câmeras lentas são utilizadas constantemente, de um jeito a trazer um certo ar de diversão a esse trabalho. Nele, as possibilidades de ganhar dinheiro são imensas e até esperadas. Tudo isso até a crise de 2008.

Nela, toda aquela estruturação vista previamente ganha tons mais cinzentos. A fotografia de Todd Banhazl ilustra bem esse elemento ao por um imenso contraste de cores do início e dessa parte intermediária. Agora, Destiny começa a ter uma necessidade de possuir uma família, e acaba por se casar com um homem problemático e ainda ter uma filha ele. Afastada de toda aquela realidade anterior, sua vida parece estar próxima de uma complicação quase total. Por isso, ao resolver ligar novamente para Ramona, ela retoma uma vida que havia deixado para trás, porém dessa vez para ganhar dinheiro dos homens de um jeito mais ilegal.

Aqui, é intrigante como a câmera de Lorene não tem medo algum de criar diversas brincadeiras visuais. As suas protagonistas agora, possuem uma genuína felicidade em saber despistas sobre os homens, antes aliciados pelas mesmas. Há até uma grande brincadeira sobre a condição das mulheres quando expõem para órgãos legais sobre o fato de serem violentadas, sempre acabando por tornarem-se renegadas por policiais. Os homens aqui, quando realizam acusações similares para com as figuras femininas, sofrem retaliações idênticas.

Mesmo assim, acaba sendo apenas uma pequena pontuação de um longa já perdido. Toda a coesão temporal e rítmica onipresente na primeira hora, quase desaparecem nesse instante, sendo meros instrumentos para uma narrativa confusa. Em alguns momentos, existe até um uso excessivo de brincadeiras com os planos, afim de criar uma complexidade da trama. Por exemplo, quando uma personagem nova aparece, complicando bastante todas as circunstâncias, a obra tenta, de toda forma, colocar aquilo como se fosse algo mais difícil de ser entendido do que realmente deveria.

Em toda sua composição, As Golpistas parece querer trabalhar os diversos elementos sobre a dupla de personagens. Não é necessariamente um filme que busca levantar bandeiras políticas, apesar de saber trabalhar isso como parte de sua história. Entretanto, acima de qualquer coisa, é uma realização que busca um olhar para como essas protagonistas – especialmente Destiny -, lidam com as dificuldades na sua existências. As mulheres, desde muito tempo, tiveram de utilizar o corpo como um jeito de manter o controle ou até de possibilidade de vida, como no caso da prostituição. O que passa do ponto do certo ou errado? Até que ponto isso pode ser prejudicial? Na tentativa de levantar todos esses questionamentos, Lorene Scafaria faz uma produção divertida e interessada em uma realização quase chamativa ao telespectador. O problema é que um pouco perdida, também, em explorar as discussões que abre.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *