Crítica – Contos do Amanhã

É evidente que por trás de Contos do Amanhã há muito carinho pela ficção científica, sua própria estrutura narrativa lembrando algo como Além da Imaginação, envolvendo o banal e o fantástico, e ao longo da história, é possível notar certas referências a grandes marcos do gênero, como o anime Ghost in The Shell. É claramente um projeto com muito amor por trás, e dá pra se empolgar com a perspectiva de um filme sci fi nacional, já que não temos muitos longas do tipo. 

No longa do diretor estreante Pedro de Lima Marques, temos duas linhas temporais, o distante futuro de 2165, destruído pelas alterações climáticas, onde os humanos vivem em grandes cidades muradas, controladas por uma inteligência artificial. Uma das cidades está em desarranjo devido ao sequestro de uma figura poderosa por forças separatistas. Enquanto isso, acompanhamos Jeferson (Bruno Barcelos), estudante de ensino médio nos anos 1999, que parece ter uma estranha conexão com os eventos do futuro, que irá afetar sua vida de maneiras imprevisíveis.

É certamente um filme ambicioso em sua história e universo, mas talvez seja justamente essa ambição que acabe atrapalhando mais do que ajudando, as partes do passado são simples de entender, mas o futuro é uma salada de nomes e conceitos que não possuem o tempo devido para se solidificarem, nomes como Zero, Fantasma, e outros, como nome das facções, cujas menções pouco significam. Supostamente, há uma guerra acontecendo no futuro, mas isso pouco se faz sentir ao longo da trama.

Pode-se compreender as fragilidades dos segmentos do futuro, que esbarram no baixo orçamento do longa, e essas partes trabalham com muitos efeitos especiais, tornando difícil uma exploração mais extensiva desses momentos. Assim, o futuro se reduz  a cenários dilapidados com um forte filtro azul, tornando tudo uniforme, ou pessoas isoladas em salas escuras recheadas de telas holográficas. Não há uma exploração real desse mundo fora de conceitos ditos pelos personagens.

A narrativa passa muito mais tempo no passado, que se desenvolve, em boa parte, como um filme teen qualquer, com triângulos amorosos, problemas escolares e afins. As coisas ficam complicadas com o sequestro de uma amiga do protagonista, Bia (Duda Andreazza), mas que acaba pouco impactando aquele mundo, não há muita busca por ela, e Bruno Barcelos é um ator fraco, se resumindo a arregalar um pouco os olhos nos momentos de surpresa ou agir com certa indiferença nos outros.

A relação entre essas duas linhas temporais é pouco trabalhada, e somente vai fazer algum sentido próximo ao final, quando a grande reviravolta é revelada. Nesse momento, temos uma longa cena que se resume a personagens falando os elementos da história, sem que isso tivesse sido muito explorado previamente. É uma enorme derrame de informações, pura e simplesmente.

Assim, Contos do Amanhã, como dito na abertura do texto, claramente tem muito carinho pelas obras que inspiraram seu diretor e roteirista, é possível perceber as peças desse sentimento no longa. Mas só carinho e amor não bastam, e o longa acaba mais irritando que agradando.

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