Resenha HQ – Sunny (Volume 1)

Em que ponto começa a vida de uma criança em um orfanato? Até onde  ela realmente recebe atenção ou não passa simplesmente de um ciclo vicioso? Apesar de tudo, ela está no lugar certo? É com um pouco desses questionamentos que o mangaká Taiyo Matsumoto inicia Sunny, um dos trabalhos mais famosos da história dos quadrinhos no Japão. E isso falando de um país em que o shonen (publicações focadas em ação para um público adolescente) domina as prateleiras. A obra sairá por terras nacionais em três volumes pela editora Devir. No entanto, a publicação que foi feita entre dezembro de 2010 e julho de 2015, mostra um olhar sem trazer uma pena, mas tentando buscar alento para essas crianças.

Dentro da história acompanhamos a vida de alguns jovens que estão em um orfanato no Japão. A priori, suas vidas passadas são pouco importantes na conversa entre eles, quase como uma maneira de manter a sobrevivência. Lá estão adolescentes, outras crianças e até um recém-nascido. Após serem abandonados em quase toda a vida, eles tentam criar um alento entre si, especialmente pelo carro – uma espécie de máquina dos sonhos – chamado de Sunny, como o da produção.

O elemento primordial da narrativa de Matsumoto é aquela composição cênica. Assim, as crianças passam a ser parte de uma espécie de organismo próprio em organização, brincando entre si, mas também tendo de entender como esse cosmo funciona. Um dos exemplos é quando somos apresentados orfanato inteiro por um dos meninos, que dá destaque para o “vovô” que ajuda a cuidar deles. Esse homem pode não parecer relevante no início, até gerando uma brincadeira que ele dormiria o tempo todo, entretanto, sua característica fundamental é a observação de como é o comportamento deles. Dessa maneira, em um diálogo posterior com um ajudante que chega bastante celebrado pelos garotos, ele mostra toda a preocupação com a sobrevivência dos mesmos.

A narrativa de cada um dos jovens é uma espécie de intermediário no meio disso tudo. Suas histórias acabam seguindo um quase determinado padrão de sofrimento. Faz sentido, especialmente pelas formas que sugam quando possuem um mínimo de atenção. Na história que fecha a primeira edição, um deles possui um fim de semana com a mãe, algo que, inicialmente, parece positivo. No entanto, o autor constrói diversos elementos visando sempre um estranhamento e angústia crescente no leitor. A última sequência dos dois juntos gera esse ápice emotivo, em um momento que a HQ já pulsava esse aspecto desde suas primeiras páginas.

O primeiro volume de Sunny mostra um grande potencial para uma obra que já possui grande reconhecimento pelo mundo afora. A melancolia de cada elemento narrativo, contrasta com uma esperança trazida pela fuga desse universo em que vivem, algo expresso principalmente pelo carro que dá nome ao enredo. Taiyo Matsumoto olha para seus personagens não como figuras fora de uma realidade existente, mas sim totalmente humanos e presentes na vida de muitas pessoas. Seu olhar, presente de uma intensa atenção, seja na arte, seja nos roteiros, visa um aspecto também alarmista sobre crianças nessa condição de vida. Esse aspecto, para ele, é quase uma necessidade de mudança nesse mundo. Nas ruas, todavia, o autor mostra uma esperança nas pessoas em ainda buscar o bem.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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